“PASSA AÍ UM POWERPOINT”: CILADAS DAS FERRAMENTAS DE APRESENTAÇÃO

Há milhares de textos e vídeos na Internet que dão dicas sobre como fazer apresentações em slides usando PowerPoint (PP), gostaria aqui de ir por outro caminho, de apresentar críticas ao uso do PP e, quem sabe, contribuir para você usá-lo melhor.

Power Point (PP) é daquelas expressões em que o nome da marca ou de seu inventor corresponde ao próprio produto, assim como acontece com gillette e bombril…para 99% das pessoas, PP é sinônimo de apresentação em slides e não uma ferramenta, o que contribui para ser “naturalizado”, como se não existissem outras alternativas.

Assim, não estranhamos quando alguém diz: me passa aí aquele powerpointfaz um powerpoint… PP tem a fama de facilitar muito a transmissão de ideias em apresentações de negócios e aulas. E isso ocorre há gerações embora o programa tenha evoluído relativamente pouco ao longo de décadas, enquanto centenas de ferramentas tecnológicas ” de escritorio” apareceram e se transformaram.

Mas há quem não goste do PP. Não porque use outro programa, não gosta do PP ou de qualquer outro programa de apresentação pelo que esse tipo de recurso representa em si. Vamos ver…

Reúno aqui alguns argumentos favoráveis e críticos relacionados ao uso do PP. Teria vários outros mas vamos ficar nestes quatro:

#1 – A FAVOR. É ótimo dividir um assunto em slides e organizar as ideias em tópicos para não me perder no raciocínio quando estou apresentando. CONTRA: assim como todas as ferramentas digitais, o PP impõe uma conduta e um certo tipo de raciocínio. Se você sabe do que está falando e preparou-se bem, o mais importante está na sua expressividade pessoal e na força dos seus argumentos, você só precisa de um roteiro que cabe em um pos it! [1]

#2 – A FAVOR. Com o PP utilizo imagens com muita facilidade e isso favorece o entendimento de quem assiste a apresentação. CONTRA: nem sempre uma imagem facilita o entendimento, pode inclusive atrapalhar. A palavra imaginação tem a ver com a ação de gerar imagens. Se a imagem chega pronta, que estímulo à imaginação pode ser gerado? [2] Para ilustrar, pense na seguinte situação: em uma sala de aula com crianças, a professora de Ciências quer explicar o que é um iceberg. Para isso mostra um slide do PP com uma foto de um iceberg. Tempos depois pede para que elas desenhem o que é um iceberg. Se, no início, tivesse partido de uma descrição oral e de um debate em sala de aula, sem mostrar imagem alguma, cada criança faria um iceberg diferente, o seu próprio iceberg. Para mim, isso ilustra bem as diferenças e os conflitos entre ensinar e aprender. Em certos contextos, depois que se vê a imagem pronta, o pensamento é nivelado e a imaginação abafada. [3]

#3 – A FAVOR. Usando PP aumento a eficiência da apresentação, economizando tempo. CONTRA: depende da quantidade de slides e de como são apresentados, além do risco da correria na leitura dos slides, que é própria de quem não sabe muito bem do que está falando. Já ouvi professores dizerem que “a aula está nos slides” – slides podem servir de muletas para quem não sabe o que diz. Além disso, e mais importante, pensar exige tempo. Tudo parece banal quando você não dá às pessoas a chance de pensar. Tente se lembrar das notícias que viu depois de assistir a um noticiário na televisão ! [4]

#4 – A FAVOR. Para que inventar moda? Usando slides, posso me comunicar melhor.CONTRA: considere as apresentações “bomba” da plataforma TED. Nessas apresentações, um conceito complexo é comunicado em dez minutos e muda a opinião de muitas pessoas ,quase sempre, sem uso de qualquer imagem. Aliás, pergunto: quantos palestrantes profissionais você conhece que usam slides ou PP ?

Realidade: se tiver que fazer uma apresentação, é fato que muitos esperam ver um PP. Use poucos slides, fale bastante, converse com seu público, não se deixe substituir pelos recursos que deveriam lhe apoiar. A verdadeira comunicação ocorre melhor ao vivo, olho no olho e com algum improviso também que vem na hora. Qualquer aparato audiovisual impõe alguma forma de limite para quem apresenta, despersonaliza e pode desviar a atenção do que realmente interessa.

Encerro com uma frase de Millôr Fernandes sobre uso/abuso de imagens:

“Uma imagem vale mais do que mil palavras ? Tente dizer isso sem usar palavras.”

(As referências numeradas, se precisar, provém de trabalhos sobre uso de recursos audiovisuais nas áreas de comunicação e educação – peça que eu enviarei)

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