Perdemos o direito de ficar à toa: culpa da forma como usamos a tecnologia ou de como somos usados por ela?

clube_esquina(capa do disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, 1972)

Lembro de uma antiga propaganda de revista que mostrava a foto de um cara na praia, dormindo, de pernas pro ar. Era uma propaganda de venda de computadores. A ideia da propaganda era mais ou menos a seguinte: quem adquirisse aquele modelo de computador teria mais tempo livre para curtir a vida da forma que quisesse. Em outras palavras, o foco da tecnologia era, ou pelo menos parecia ser, a de nos proporcionar tempo livre, inclusive livre da própria tecnologia.

Isso mudou…

Uma propaganda equivalente hoje em dia, seria de um modelo novo de smartphone com algum texto do tipo:o aparelho tem recursos que permitem a você mergulhar e até praticar caça submarina enquanto trabalha como se estivesse em seu escritório”.

Com as tecnologias digitais vamos fazendo cada vez mais ao mesmo tempo e colocando cada vez mais coisas na caçamba de coisas para fazer. E de repente, a caçamba parece que ficou infinita.

Quantas coisas conseguimos fazer ao mesmo tempo? Qual nosso limite de processamento? A pergunta interessa tanto à área de Computação quanto à Psicologia.

Na área da Computação, a disciplina Interação Humano-Computador (IHC) procura respostas em termos de usabilidade dos sistemas. Por exemplo, pensar em quantos comandos diferentes um piloto de avião deve ser capaz de acionar e qual a sequência ideal desse acionamento em caso de uma situação de emergência… qual deve ser o formato/cor dos botões e quanto tempo o processo levará. Em outras palavras, IHC estuda tecnicamente as possibilidades e restrições na relação homem-máquina.

Mas, em situações do dia a dia, será que estamos pensando nos limites das pessoas quando projetamos novos artefatos tecnológicos? Pensamos em nossos próprios limites?

Um artigo científico da área de Psicologia verificou que existe um limite para o número de itens que um ser humano consegue processar ao mesmo tempo. Na verdade, o limite não poderia ser menor: fazemos só uma tarefa cognitiva por vez, apenas uma. Achar que estamos pensando/fazendo várias coisas ao mesmo tempo é uma ilusão porque estamos atuando sempre de forma sequencial em fatias menores de tempo. (https://www.psychologytoday.com/us/blog/brain-wise/201209/the-true-cost-multi-tasking/ )

FATO: (Penso-Ajo X)      OU    (Penso-Ajo Y)

MITO: (Penso-Ajo X)      E      (Penso-Ajo Y)

É bom lembrar que tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo nem sempre é um problema em si. Na adolescência, eu li o livro Laranja Mecânica ( https://www.youtube.com/watch?v=ZHJKmW8Z7YM) escutando a trilha do filme em um disco de vinil. Não dava para ler o livro rápido porque havia uma serie de palavras inventadas pelo autor (a tal linguagem nadsat). Então, de vez em quando, eu tinha que ir ao final do livro para buscar a palavra no glossário (aprendi que palavra droog por exemplo, significava amigo na linguagem nadsat). (http://www.literacult.com.br/2016/03/laranja-mecanica-e-linguagem-nadsat.html) Pra piorar, o disco estava riscado e eu tinha que sair de onde estava para levantar a agulha de vez em quando. Foi uma leitura lenta e divertida – a diferença está na escolha analógica que eu podia fazer enquanto as tecnologias digitais confundem o que chamamos de escolha.

Ok, mas você sempre pode escolher…mas seu poder de escolha diminui dramaticamente se estiver doente ou viciado sem ter consciência clara disso.

Tente ficar um dia sem celular: a sensação é mesma de quem deixou a panela de pressão no fogo e lembrou disso quando estava no cinema

Precisamos lembrar sempre que não somos máquinas e que o tempo não existe para as máquinas. Um filme que mostra bem a relação entre tempo e as máquinas é Inteligência Artificial. https://www.youtube.com/watch?v=Lag2kyyXVz8

Em uma das cenas, o garoto-robô olha imóvel o entorno, nada muda com ele enquanto o cenário se transforma porque centenas de anos se passam ao redor.

Para as máquinas não existe tempo, o tempo só existe para quem está vivo.

Era muito bom quando não tínhamos aplicativos de comunicação instantânea, ou pelo menos, não eramos obrigados a estar online o tempo todo para termos que responder tudo na hora. Valorizávamos mais a comunicação!

No campo educacional, minha área, gosto de pensar na tecnologia como um conjunto de recursos valiosos que podemos usar a qualquer hora e lugar, mas que deve nos permitir estar no comando, aliás, precisamos estar no comando!

Não fazer nada, de vez em quando, aproxima você, de você

Domenico de Masi, em seus estudos sobre criatividade (livro “Criatividade e grupos criativos” http://www.kunlaboro.pro.br/livros/criatividade-e-grupos-criativos/), lembra como os enciclopedistas trabalhavam. A ideia dos enciclopedistas era reunir todo o saber da humanidade em uma grande Enciclopedia, um conjunto de livros que reunisse todo o saber da humanidade até aquele momento (era a segunda metade do século XVIII, as coisas aconteciam um pouco mais devagar do que hoje).

Segundo o autor, os enciclopedistas, pelo menos alguns deles, se reuniam em castelos e os dias eram divididos em três partes: pela manhã estudavam, liam e escreviam isolados uns dos outros, cada um em seu gabinete; à tarde eles liam uns para os outros, conversavam e discutiam entre si os conceitos filosóficos, muitas vezes brigavam; à noite, caiam na farra ou não faziam nada (e, às vezes brigavam de novo) para recomeçar o ciclo criativo no dia seguinte.

Minha interpretação para isso é que precisamos de algum isolamento para ter algum pensamento original… precisamos de um tempo para (não) fazer nada …ou de tempo para fazer o que não está planejado…

Talvez possamos ficar mais próximos de nós mesmos, se conseguirmos estar longe das máquinas, pelo menos de vez em quando!

–**–

Obs 1: gostaria de ter dados empíricos para embasar algumas afirmações feitas aqui, se gostar do tema e tiver referências, por favor, envie para eu aperfeiçoar o texto.

Obs 2: o senso crítico em relação à tecnologia não diminui meu interesse ou satisfação em ajudar a formar pessoas na área, ao contrário!

Obs 3: os meninos da capa do disco não são Milton Nascimento e Lô Borges quando crianças, como muita gente pensa…

Um comentário em “Perdemos o direito de ficar à toa: culpa da forma como usamos a tecnologia ou de como somos usados por ela?

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