Ensino de programação nas escolas: a volta dos que não foram

 

scratch2

Linguagens de programação não costumam ser fáceis de aprender.

Os pioneiros da tecnologia educacional sonharam que um dia os professores poderiam aprender a programar e que fariam seus próprios programas para uso em sala de aula, de acordo com suas aulas e necessidades de seus alunos.

Mas o objetivo maior era outro: que as próprias crianças aprendessem programação.

Não se esperava que crianças e adolescentes produzissem programas espetaculares em termos de resultado final. A Internet estava começando e os computadores eram muito limitados. As expectativas finais eram modestas: uma animação simples, um jogo da velha, uma figura geométrica. Um projeto mais sofisticado demoraria semanas mas tudo fazia crer que valeria a pena. O que estava em jogo era o processo de programação e não o produto dela: ao aprender a programar, o estudante desenvolveria habilidades importantes para sua formação tais como organização do pensamento, lógica, raciocínio matemático…mas isso era só o começo.

Para uma classe de pesquisadores da época (falo de duas décadas atrás, pelo menos), ao programar o computador, a criança teria a chance de aprender com o erro, de usar a tecnologia da forma criativa e autoral. O grande achado era a inversão de papeis: o aluno deixaria a passividade da sala de aula e passaria a “ensinar o computador”; o professor orientaria os projetos e aprenderia junto com os alunos; o professor seria desafiado a tirar dúvidas de programação nem sempre triviais.

Para os pesquisadores pioneiros da tecnologia educacional o computador era a máquina das crianças!

Hoje quando o tema retorna e as empresas (veja bem, as empresas) propõem o ensino de programação e/ou robótica nas escolas, a proposta parece nova (decididamente não é) e, muitas vezes, falta explicar claramente os porquês. Conferir os argumentos daquela época poderia ser de grande utilidade. Veja uma síntese dos argumentos favoráveis ao ensino de programação nas escolas na figura abaixo.

Todos os processos ocorrem ao mesmo tempo quando a criança programa o computador:

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Tais ideias (que beiram a filosofia), motivaram encontros, pesquisas de todo tipo e até políticas públicas de levar tecnologia digital às escolas. Uma epopeia cheia de altos e baixos, belos discursos mas resultados controversos…muito aprendizado que não caberia aqui contar mas cujo saldo precisaria ser revisitado pelos ativistas atuais da programação nas escolas, insisto.

A literatura (até onde sei) não é conclusiva sobre os benefícios que a programação de computadores traz efetivamente à formação das pessoas. Um ponto importante é permitir que, por meio de noções básicas de programação, as pessoas tenham uma ideia um pouco melhor de como funciona um computador, de seus limites, riscos e defeitos.

Há quem diga que décadas de investimentos em tecnologia educacional até hoje não trouxeram ganho algum ao aprendizado dos estudantes mas há também pesquisas que dizem o contrário, pelo menos em situações específicas.

A linguagem Scratch (veja figura ilustrativa no início deste artigo) embora relativamente recente, já parece coisa do passado.

Os ativistas da robótica educacional tentam reavivar a ideia de levar tecnologia avançada para as crianças nas escolas, mas agora sem haver limites.

Em breve veremos guerra de drones no céu, em lugar de guerra de pipas – o cerol será a qualidade da programação

No que acreditar afinal? Programação nas escolas, sim ou não?

A volta do tema de levar programação para as escolas é uma especie de volta dos que não foram, pelo menos para mim…não deu para saber onde chegamos. Gostaria que houvesse um debate serio ancorado mais na FINALIDADE da tecnologia educacional e menos no COMO fazer, atordoados que estamos com todo o arsenal de recursos disponíveis a nossa volta. E gostaria que os argumentos contrários fossem seriamente ouvidos, com dados empíricos no lugar de preconceitos. Se programação entrar no currículo, o que vai sair? Seria dado no contra-turno? Onde entrariam os professores no processo?

http://www.tnellen.com/ted/tc/computer.htm/

Ferramenta para professores

Com pretensões mais modestas, continuo acreditando na tecnologia educacional no sentido de que professores poderiam atuar mais diretamente em tudo que acontece nas escolas sob efeito da tecnologia. Por isso visito escolas, converso com professores e me inquieta a indiferença por parte de muitos deles em relação à tecnologia. Professores indiferentes ou desatentos em relação à tecnologia serão logo deletados!

A computação móvel invade as escolas e interfere no trabalho dos professores como um rolo compressor passando em uma plantação de morangos

No intuito de colocar o professor no palco outra vez, novas ferramentas precisam estar ao alcance e serem experimentadas. Por exemplo, com pouca programação mas muita sofisticação em termos de design, a ferramenta Captivate permite a elaboração de materiais instrucionais interativos com resultados que combinam texto e vídeo de forma surpreendente. Ideias abstratas dos professores podem se materializar sem que tenham que enfrentar a curva íngreme de aprendizado de uma linguagem de programação tradicional. Cabe valorizar a capacidade autoral dos professores, visão minha. Nesse sentido, o Captivate é a ferramenta mais interessante que conheço.

Abaixo o menu de entrada para um novo projeto.

tela_captivate

Encerro com um convite. Estou preparando materiais para um curso que darei sobre este tema no Congresso da ABED em Florianopolis, SC, em 7 de outubro e que estarão disponíveis em formato de vídeo, passo a passo, no seguinte endereço: https://www.youtube.com/channel/UCv9SsefiuacnYTYqteDh_pw

O sonho de que professores produzam seus próprios artefatos digitais ainda não acabou!


PS: trabalhar com linguagens de programação nas escolas básicas já foi a única alternativa disponível, em tempos pré-Internet, daí o foco teórico que se dava a este assunto, sintetizado na figura acima.

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