Ansiedade de informação e a finalidade da educação

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História real. A menina M. tem cinco anos e está prestes a entrar em uma escola particular, no 1º ano. Mas antes ela precisa dominar Inglês. Isso mesmo, para entrar nesta escola, no 1º ano, as crianças tem que saber Inglês. Não, não é uma escola para estrangeiros. escola de gênios ou coisa parecida, e ela também não está indo para um internato na Suiça. É uma escola comum de classe media, em Campinas, SP. M. perdeu as ferias porque está tendo que fazer um curso intensivo de Inglês, e repito, ela tem só cinco anos. E está sofrendo.

A capa da revista SuperInteressante deste mês de janeiro fala sobre uma das epidemias do século, a ansiedade. Existem dezenas de reportagens e estudos recentes sobre esse tema. Será que há relação entre querer saber tudo (ou querer que os filhos saibam tudo) e picos de ansiedade? E entre o uso abusivo de tecnologia e ansiedade? Entre ansiedade dos pais e a finalidade da educação?

A percepção dos pais é de que quanto antes os filhos souberem o que é considerado importante por eles, pais, melhor. Como os pais estão ansiosos para que os filhos aprendam tudo antes, a escola que é paga para isso, ensina antes. Ou extrapola, já cobrando dos pais que a criança saiba antes de ingressar na própria escola.

Não é preciso ser psicólogo para saber que uma das novas modalidades de ansiedade tem a ver com informação e com as novas tecnologias.

Se a ideia era saber rápido e antes, colocamos tudo no Wikipedia e no Google. Aí descobrimos que 99% das pesquisas no Google não passam da 1ª página (*).

Se não dá para saber tudo, saber demais também pode ser um grande problema.

Imagine que você soubesse quantos anos de vida lhe restam ou quando vai morrer! Melhor não saber…

Lembra que na sua infância, às vezes você ficava sem fazer nada? Escrevi uma vez aqui sobre o direito de não fazer nada. É importante que as crianças tenham algum tempo preenchido com algo que elas tenham inventado e que não tenha sido planejado pelos adultos. Se ela só tem atividades que os adultos planejam e controlam, isso provavelmente vai atrapalhar seu desenvolvimento
(ver https://www.naturalchild.org/articles/guest/marlene_bumgarner.html).

E sempre voltamos à questão da finalidade da educação. Formar para o mercado, para o mundo, para o mundo-mercado? Mas o mercado (e o mundo) não estão mudando rapidamente? O que garante que o que se aprende hoje continuará sendo importante daqui a dez ou vinte anos?

Então resta educar para o autogoverno… para o florescimento…para a curiosidade e para a alegria de pensar, como dizia Rubem Alves. Por ele mesmo:

Gostaria de saber o que Rubens Alves diria sobre esta história de curso intensivo de Inglês para uma criança de 5 anos entrar no 1ºano da escola.

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PS: (*) Peça que enviarei as referências.

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