Evasão em EAD e o desencanto em estudar (mesmo de graça): Bourdieu explica !

A evasão no ensino universitário é de mais de 20% beirando 1 milhão de estudantes a cada ano. No estado de São Paulo, a evasão chega a 30%. Ver [1] e [2].

Obviamente a evasão é maior nas escolas particulares do que nas públicas porque tem muito mais alunos no sistema privado. Pode-se argumentar então que o problema seja a dificuldade para pagar mensalidades e ou também como encontrar tempo para estudar, dado que a maioria dos estudantes é formado por adultos que trabalham.

Vamos delimitar isso e restringir esta breve reflexão a escolas públicas na modalidade EAD: isto é, não há mensalidade e o tempo é flexibilizado ao máximo.

O que acontece? Adivinhe!!

A UNIVESP , Universidade Virtual do Estado de São Paulo, reúne cursos universitários na modalidade EAD das três universidades públicas do Estado de São Paulo: USP, UNICAMP e UNESP. Será que o sistema está cumprindo bem a missão de democratizar o acesso ao ensino superior?

A UNIVESP ofereceu em 2014, cerca de 3,3 mil vagas para ensino superior e os alunos deveriam estar se formando agora: apenas 174 alunos se formaram !

No momento, 2019, a UNIVESP opera ofertando milhares de vagas para quem quer estudar Pedagogia, Engenharia, entre outros cursos…a evasão esperada é algo perturbador! Ver [3]

Revisitando ideias de Pierre Bourdieu (1930-2002)

As ideias do sociólogo Pierre Bourdieu fizeram tremer o chão das escolas. Uma serie de questões inquietaram Bourdieu: Por que os currículos são formados por certos conhecimentos e não por outros? A escola vai transmitir o quê? Por que tantos alunos não avançam na escola ? Apresento abaixo, sob o risco de banalização e reducionismo, uma breve descrição de algumas contribuições deste autor, as quais, creio eu, podem ajudar a entender a enorme evasão de alunos dos cursos, mesmo quando são bons e gratuitos. Limito-me à noção de capital cultural (que é herdado), especie de moeda de troca que opera nas escolas.

Ideia de capital cultural, segundo Bourdieu

A cultura, em uma sociedade dividida em classes, transforma-se em uma espécie de moeda que as classes dominantes utilizam para acentuar as diferenças. Para Bourdieu, a cultura legitima um capital cultural das camadas superiores da sociedade que só determinadas pessoas tem condição de acessar. Na medida em que muitos frequentam a escola, muitos trazem um capital cultural de casa. Aquelas pessoas que não tem esse capital cultural vão conviver em uma escola em pé de desigualdade. Se a escola e os professores não estão cientes dessas diferenças, isto é, de que nem tudo é alcançável na escola porque os alunos não trazem bagagem adequada, os professores acabam não entendendo essa dificuldade e agem como se ela não existisse.

A escola não combina com o indivíduo que chega à escola desprovido do capital cultural esperado pela própria escola. Ela promete identificar potenciais individuais (indivíduo mais inteligente, mais motivado…) mas na verdade, identifica quem tem mais capital cultural porque é ele que responderá melhor a uma avaliação. Por exemplo, quando o aluno escreve bem (“_ele tem um dom!”), na verdade, ele só faz isso porque ele vem com um capital cultural mais elaborado que não foi dado pela escola e, sim, antes, fora dela. Para conseguir chegar lá, outro tipo de aluno precisa de um esforço enorme. Se a escola está avaliando aquilo que não vem do que ela ensina, então não é verdadeiro dizer que escola premia quem é mais inteligente ou aqueles que se esforçam, apenas porque avançam mais. Mas a percepção pública é de que o fracasso é mesmo dos alunos.

Para Bourdieu, a escola contribui para manter as relações de dominação social e os professores não tem consciência disso, atribuindo o fracasso aos alunos.

Os alunos fracassados são aqueles que não tiveram contato através da família com o capital cultural, pois cresceram longe dos livros, dos museus e teatros, dos lugares considerados interessantes para se frequentar. Não conseguem alcançar o que a escola valoriza e o aprendizado para eles é sempre muito mais difícil. A escola enfatiza as diferenças. Os alunos que cresceram em culturas distintas ou que não possuem o capital da cultura dominante, se frustram e pensam que a dificuldade é falta de inteligência ou empenho.

Bourdieu acreditava haver uma saída para tal violência simbólica: tornar explícito todo este funcionamento velado da instituição escolar.

Saídas para diminuir evasão no ensino superior

Ensinar o aluno a controlar o tempo de estudo para ser capaz de aprender: temos que ensinar os alunos a estudar, a se organizar. Inculcar isso em todos métodos tradicionais de trabalho seria uma maneira de contribuir para reduzir desigualdades ligadas à herança cultural. E desvelar a própria ideia de herança cultural e de capital cultural, respeitando as diferenças culturais entre os alunos. Se o ensino chega igual e de graça para todos, isso não quer dizer que traz sucesso ou que seja democrático. O problema da educação deixou de ser o acesso ao ensino!

Como mudar isso? Alguns dirão que é apelando para a melhor tecnologia via Inteligência Artificial, Big Data, Análise Preditiva…outros, mais modestos, dirão que é começando simplesmente por melhorar a tecnologia que chega ao aluno via EAD (os AVAs, em geral, são horrorosos…). Poderíamos começar revendo a ideia que se tem de massificação do ensino e do que se busca com tal massificação. Convenhamos…o problema da educação deixou de ser o acesso ao ensino (ou não deveria se restringir a isso) !

———

[1] https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/cerca-de-900-mil-estudantes-abandonam-a-faculdade-antes-de-se-formar/

[2] https://educacao.estadao.com.br/blogs/roberto-lobo/497-2/

[3] https://www.semesp.org.br/imprensa/aposta-do-governo-para-ead-univesp-tem-alta-evasao-e-so-forma-174-alunos/

[4] https://www.youtube.com/watch?v=Qlc6GBeCO50 (excelente resumo da obra de Bourdieu produzido pela UNIVESP)

[5] https://www.youtube.com/watch?v=gYI24KtMkQk (documentário sobre Bourdieu que apresenta o sociólogo em situações diversas)

[6] BORDIEU, P. Os usos sociais da Ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

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