Teorias facilitam inovar em educação

Quando estamos diante de desafios tecnológicos em educação e temos relativo domínio sobre as ferramentas, temos tanta vontade de estudar as teorias quanto, diante do mar, um surfista tem vontade de varrer a areia da praia. Quem desenvolve tecnologia no ensino (ou talvez tecnologias em qualquer área) sofre de uma mortal ansiedade tecnológica e tem fobia a leituras mais profundas (pelo menos entre as pessoas que conheci, muitas delas do meio acadêmico). O debate filosófico parece desnecessário, circular e repetitivo, até enfadonho, incompreensível…duas ideias resumindo cada autor-medalhão parecem suficientes para a vida inteira. E você só vai usar se precisar de verdade, por exemplo, quando fizer um mestrado na área. O professor Raul Sidnei Wazlawick, da UFSC, escreveu um texto divertidíssimo e irônico sobre como escrever uma dissertação de mestrado na área de informática e educação. Ver [1]. O texto contem pérolas como a seguinte:

A lei de ouro da dissertação em informática na educação estabelece o seguinte: “Toda dissertação de mestrado em informática na educação deve ter como capítulo 2 um apanhado da teoria de Piaget e Vigotsky”. (detalhe: não precisa usar nada depois.)

Como um alpinista na filosofia que mal começou a escalar, redescobri o filósofo Gaston Bachelard (1884-1962) e após as primeiras páginas, ocorreu-me o quanto autores consagrados como este são ainda mais importantes no mundo de hoje do que em suas épocas. O que Bachelard diz sobre educação, por exemplo, serviria de parâmetro para muitos avanços e necessidades no campo da educação & tecnologia (considero aqui EAD e outras combinações de educação com tecnologias digitais, ensino híbrido, aula invertida, etc), o mesmo vale a inovação e formas de desenvolver inovação.

Trabalhar de forma criativa com tecnologia educacional tem muita relação com o ato de pesquisar de forma contínua, daí a minha tentativa particular de escalar a montanha de ideias de Bachelard…

Vamos a apenas três parágrafos sobre Bachelard, para começar a escalada:

(1) Para Bachelard, o conhecimento se desenvolve por meio de rupturas com o conhecimento usual, seja ele o conhecimento científico pré-estabelecido ou o senso comum. O ponto principal é saber questionar, elaborar problemas, lidar com dificuldades reais. Mas isso tem que ser feito de forma rigorosa, de forma a banir os obstáculos falsos e dificuldades imaginárias. Por isso Bachelard defende métodos claros e rigor científico. Para Bachelard, quem pesquisa deve ter apetite por problemas difíceis.

(2) A pedagogia de Bachelard é a da ruptura, ruptura que se sobrepõe ao olhar da prática cartesiana, busca o complexo e o inesperado. A atividade de pesquisa se daria em um ambiente de dúvida e de inquietação. Caberia ao professor despertar, estimular, provocar, questionar e se deixar questionar pelos alunos. O ato de pesquisar implica o exercício radical da dúvida.

(3) O saber fechado e estático dá lugar ao saber aberto e dinâmico, capaz de se reconstruir e de se retificar. Pesquisa e ensino se articulam em processos interligados e interativos no qual se pode criar uma cultura em que o mestre se torne o aluno e o aluno se torne o mestre. A objetividade científica só é possível quando se rompe com o objeto imediato, quando se rechaça a sedução da primeira escolha, quando se contradiz os pensamentos que nascem da primeira observação.

Onde e como aplicar tais ideias?

Complicado responder…depende das visões e possibilidades de cada pessoa. O melhor deve estar por vir então devo continuar a escalada que mal comecei… mas convido você a se arriscar também na aventura. Parece que vale a pena!

Sugestão: comece pela serie editada pelo próprio MEC, a Coleção Educadores.

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LINK: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/ResultadoPesquisaObraForm.do?skip=0&co_categoria=133&pagina=1&select_action=Submit&co_midia=2&co_

——

[1] https://homepages.dcc.ufmg.br/~dorgival/misc/ironia.html

[2] https://www.infoescola.com/ciencias/epistemologia-de-bachelard/

[3] MOREIRA, Marco Antônio; MASSONI, Neusa Teresinha; Epistemologias do Século XX, EPU, São Paulo, 2011.

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