Movimento anticiência e o que podemos aprender com os polvos

Em entrevista recente na TV Cultura, no programa Roda-Viva [1], o ambientalista Carlos Nobre falou sobre queimadas na Amazônia e o desastre ambiental no litoral brasileiro. Segundo Carlos Nobre, não há como fazer a reengenharia do processo para saber o momento e ponto exatos em que começou o vazamento. A única certeza é que as consequências são imprevisíveis para a vida marinha e humana, e não só para as populações que vivem da pesca e coleta de mariscos. Muitos mais, inclusive nós, podem ser afetados. Um desastre sem precedentes que não tem protocolo de ação, não se sabe o que fazer…

Mas de tudo que o cientista disse na televisão, o que mais chamou a atenção é de que haveria um movimento anticiência, não só no Brasil como em várias partes do mundo. Daí a crença de que vacinas fazem mal, de que nunca fomos à Lua, de que a Terra é plana…

Se você estiver olhando o mar no horizonte e avistar um barco ao longe, verá a ponta do mastro. À medida que o barco se aproxima, conseguirá ver a parte inferior da embarcação.

Ajuda a entender que a Terra não pode ser plana??

O melhor jeito de acreditar na Ciência é estudá-la.

O desprezo pela ciência aliado à ganância extrema, leva às queimadas, aos derramamentos de óleo, ao aquecimento global, etc. Obviedade como o formato quase esférico da Terra.

Um ponto de partida para estudar Ciência e aprendizagem: moluscos

Para muitos, o nome mais influente da educação no mundo é o do suiço Jean Piaget[1896-1980]. Ele era biólogo e estudou o desenvolvimento dos moluscos em muitos lagos da Europa. Estava interessado em saber como os moluscos se adaptavam ao serem transferidos de um ambiente a outro e descobriu que suas estruturas se alteravam à medida que o ambiente mudava. A capacidade de adaptação dos moluscos é tão grande que o animal que vive na água salgada consegue se adaptar e viver na água doce (observe os estranhos mexilhões que aparecem em alguns rios brasileiros, por exemplo). Aos 21 anos, Jean Piaget já havia publicado 25 trabalhos profissionais e era considerado um dos poucos especialistas em moluscos do mundo. Portanto, um dos nomes mais importantes da educação foi um cientista experimental e se interessou pelo desenvolvimento das pessoas a partir da observação direta da natureza (comportamento de moluscos).

Moluscos gigantes: polvos

O polvo é um tipo especial de molusco, o invertebrado mais inteligente da natureza e ainda hoje considerado pouco estudado. Assim como seus parentes menores, tem incrível capacidade de adaptação mas também outras característica únicas. O polvo possui a capacidade de expelir tinta, de mudar de cor e de mudar sua forma para parecer um animal maior e mais perigoso, tudo a fim de se proteger. Pode se camuflar também como pedra ou alga, e se a situação se tornar realmente crítica frente o inimigo, consegue liberar um dos tentáculos, para confundir o predador.

Mas as surpresas ao pesquisar este animal não param por aí.

Embora tenha um cérebro completamente diferente do cérebro humano (está espalhado pelo corpo), ele tem uma incrível capacidade de aprendizagem.

Um pesquisador relata ter construído um robô submarino que ficava se movimentando em um grande tanque onde um polvo se encontrava. O polvo se “comunicou” com o robô e o desmontou peça por peça [1].

Polvos não suportam tanques e costumam sair deles, para dar uma volta e retornar depois (um pouco de exagero aqui mas há casos registrados). Piaget fez bem em estudar os moluscos pequenos…

Finalmente: o que podemos aprender com os polvos?

Inteligência tem a ver com resistência e adaptação. Em um mundo que muda tão rapidamente, precisamos enxergar a inteligência como a capacidade de adaptação e sobrevivência.

Mas o mais importante é que o misterio e a beleza da natureza e de animais incríveis que ainda pouco conhecemos, o desprezo e a soberba frente a isso, revela-nos a ignorância que paira sobre nossa percepção da natureza e sobre nós mesmos. Conseguiremos sobreviver mais duas ou três gerações à frente queimando florestas, despejando oleo nas praias, insistindo em combustíveis fósseis e gerando montanhas de resíduos plásticos?

Assim como o polvo Paul que adivinhava os resultados da Copa do Mundo (lembra?), aguardamos com ansiedade e preocupação até onde a ignorância pode nos levar [4].

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

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[1] https://www.youtube.com/watch?v=ccQTQieUZ-Q

[2] https://www.anda.jor.br/2013/08/polvos-solitarios-e-muito-inteligentes/

[3] http://sciam.uol.com.br/a-surpreendente-inteligencia-dos-polvos/

[4] https://noticias.r7.com/brasil/oleo-em-praias-nao-e-do-brasil-e-tem-um-pais-no-radar-diz-bolsonaro-07102019

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