Inovação disruptiva em educação, segundo Christensen

Clayton Christensen, um dos autores mais respeitados na área da inovação, morreu esta semana aos 67 anos. Ver [1]. Christensen cunhou a expressão e o conceito de inovação disruptiva. Um dos livros mais importantes que li na vida sobre educação foi escrito por ele: Inovação na sala de aula: como a inovação de ruptura muda a forma de aprender, editado por aqui em 2009. Ver [2].

Abaixo, procuro resumir algumas ideias de Christensen sobre inovação e ilustrar alguns tipos de inovação em educação.

Inovação incremental, inovação radical e inovação disruptiva

A inovação incremental é sustentadora de uma situação anterior, já a inovação radical abala, modifica ou mesmo substitui uma situação anterior. Ambas são muito diferentes de inovação disruptiva!

Segundo Christensen, pode-se pensar a inovação em termos de “consumo” existente ou potencial. Onde houver “consumo cativo” a inovação buscará analogia ou adaptação em diferentes graus, a reforma será então absorvida fazendo da inovação um elemento para conservação. Em educação, substituir a lousa e o giz por um aparato de lousa eletrônica ou acesso à Internet, por si mesmo, não altera a essência do processo. O objetivo da inovação incremental é manter o sistema em funcionamento quando ele apresenta sinais de desgaste ou tem que responder à concorrência; visa manter os clientes atuais e conquistar outros da concorrência. Quem se beneficia é o sistema pré-estabelecido que consegue suporte para se manter funcionando por mais tempo, não os alunos, no caso da área educacional, que em termos de aprendizado, ficam na mesma ( o livro apresenta inúmeros exemplos disso). A tecnologia de adaptação não leva à ruptura (novas versões do Moodle…por exemplo).

Existem bons exemplos de inovações incrementais e radicais na forma de ouvir música. O advento do MP3 distribuído de graça pela Internet, é inovação disruptiva: quase ninguém compra mais CDs.

A inovação disruptiva é uma categoria própria, rompe completamente com padrões porque traz um novo conjunto de atributos.

Inovação disruptiva: voltando ao “não consumo”.

Para a mudança disruptiva se impor em qualquer área, inclusive em educação, ela deveria que concorrer com o “não consumo”, isto é, a lacuna ou demanda potencial ainda reprimida, talvez oculta. No “não consumo” não há elementos prévios para adaptar ou substituir, prevalece a intuição do inovador de que existe um potencial de interesse das pessoas pelo novo sistema. Esse interesse se desenvolve lentamente, ocorre na forma de uma mudança gradual nas práticas e hábitos. Após um período, porém, com um gradiente de crescimento cada vez mais acelerado, poderá se converter em uma nova mentalidade ou um novo sistema capaz de subverter ou romper totalmente a ordem anterior. Isso teria ocorrido no campo da cultura e da indústria algumas vezes no passado, com a invenção do automóvel, as gravações musicais em disco e a invenção da própria fotografia, que alterou o status da pintura.

Estaria ocorrendo hoje com as comunicações móveis, com a indústria de entretenimento em geral e veículos autônomos.

Abolir o uso de combustíveis fósseis seria hoje uma tremenda inovação disruptiva.

Evidentemente a área educacional está sujeita aos mesmos processos.

Inovação disruptiva em educação

Há inúmeros casos de “não consumo” no espaço da educação: interação entre escolas para troca de experiências sobre como desenvolver algum tema ou projeto; estudo integrado de ciências a partir das características do local onde vivem os estudantes; autoavaliação do aluno; trabalho colaborativo entre professores de diferentes disciplinas e séries ou unidades escolares; ensino adaptativo; crianças de diferentes idades e níveis estudando juntos, etc. Talvez alguns desses “não-consumos” oportunizem inovações distuptivas.

Inovação disruptiva é diferente de inovação radical porque reúne um público novo, sem a inovação, esse público não existiria.

Um exemplo de inovação disruptiva seria tornar o ensino superior público, universal e gratuito, sem nenhuma trava para quem tivesse interesse em estudar. Todos os cursos acessíveis, vagas ilimitadas, nenhum custo. Ou ainda, conforme sugeriu uma vez, o educador Rubem Alves, extinguir o vestibular para tornar o processo mais justo…

Já imaginou a confusão?

[1] < https://www.theverge.com/2020/1/24/21080578/clayton-christensen-disruptive-innovation-apple-netflix-steve-jobs >

[2] CHRISTENSEN, C. M. Inovação na sala de aula: como a inovação de ruptura muda a forma de aprender. Tradução Raul Rubenich. Porto Alegre: Bookman, 2009.

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