Conteúdo para EAD: o que aprendi fazendo e revisando materiais

Se o número de vagas em cursos EAD já se iguala ao dos cursos presenciais (ver [1]), o papel de quem prepara os conteúdos (o “conteudista”), precisaria ser reavaliado.Tirando os casos em que empresas terceirizadas fornecem os materiais ou em que as disciplinas são adquiridas prontas, cabe à IES contratar pessoas para que desenvolvam os materiais das disciplinas dos cursos.

Participei de vários processos de seleção de conteudistas, fui aprovado em alguns e não fui aprovado em outros. Olhando os contratos que firmei ao longo dos anos e as cláusulas de produção, noto que, pelo menos no espaço de dez anos, os modelos de produção se parecem ou se pareciam muito entre si. Mas, por outro lado, o valor pago ao conteudista foi caindo ao longo do tempo!

Quanto se paga para produzir material EAD?

Em um fórum EAD, depois de muito insistir e ouvir “depende” dezenas de vezes, consegui arrancar um número que pareceu consensual: R$50,00 por página, no melhor cenário.

Hoje há menos ênfase nos conteúdos escritos, pelo menos se o indicador for o número de páginas de texto destinado a cada aula de uma disciplina. Ao mesmo tempo, os vídeos estão mais curtos e fracionados, libertando-se do antigo formato de aula-karaokê. Ver [2].

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Talvez em pouco tempo deixe de existir o termo “videoaula”, dada a criação de novos formatos em vídeo.

Em lugar do conteúdo excessivo, fala-se agora em ensinar empatia, criatividade e trabalho em grupo. Ver [3]. Uma das razões é que todos os conteúdos estão em algum lugar da rede e é só procurar.

Mesmo com a relevância dos conteúdos escritos em queda e o movimento de terceirizar materiais, ainda há instituições menores ou novas IES entrantes no mercado que contratam conteudistas. Sobre isso, apresento três mitos que encontro muito disseminados entre os meus colegas da área.

Três mitos que cercam a produção de conteúdo EAD

Mito 1 – “_Um bom professor é capaz de escrever um bom material didático.”

Dar aulas é bem diferente de escrever material, assim como falar bem não é o mesmo que escrever bem. O bom professor não necessariamente escreve bons materiais mas, diga-se, não deixa de ser bom professor por esse motivo.

Mito 2 – “_Escrever material didático é fácil.”

Quem acha isso nunca escreveu um, de verdade ou então tem real habilidade porque faz disso sua profissão. Não é fácil transpor conteúdos!

Mito 3 – Dá para viver de produção de conteúdo

Se você desenvolve uma disciplina, consegue desenvolver apenas uma disciplina e isso já toma muito tempo, estimo meio período ao longo de umas oito semanas. A menos que copie tudo, o que também é uma solução possível, como dizia Umberto Eco. Ver [4].

O que credencia alguém a produzir conteúdos ?

Não sei a resposta, apenas acho que a contratação de conteudistas precisa ser aprimorada e não ocorrer na base de chamar o amigo professor. _Ter mestrado ou não? _Ter currículo lattes ou não? _Ter experiência acadêmica ou de mercado? São reflexões necessárias para quem contrata, do contrário, cada material sai de um jeito.

Existe outra forma de produzir material?

Minha posição pessoal é polêmica. Depois de muitos anos acompanhando o desenvolvimento de materiais, estou convencido de que professores, em geral, não deveriam escrever material para cursos de graduação EAD.

Em lugar disso, o material poderia ser produzido por profissionais de texto: jornalistas ou pessoas habituadas a escrever, que dominem fontes de informação, saibam apresentar diferentes ângulos de um mesmo assunto e produzam material compreensível e atualizado.

O papel do professor seria muito mais nobre: preparar o plano de ensino da disciplina, definir objetivos e habilidades, revisar tecnicamente o material e ainda elaborar as atividades e os exercícios. O professor responderia pela qualidade do produto e não pelos textos! Evidentemente a figura do tutor precisaria ser respaldada pelo professor, isso, no mínimo.

Nunca vi um professor conteudista elaborar o plano de ensino da disciplina que produziu.

Um ou mais escribas EAD poderiam escrever várias, muitas ou até todas as disciplinas de um curso, sob a supervisão técnica e intelectual de professores gabaritados. Seriam capazes de escrever de forma eficiente e o processo se aceleraria. Todos ganhariam, sobretudo os alunos.

Claro que há exceções…

Quanto aos vídeos das aulas? Não sei responder!

[1] < https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/09/19/pela-1-vez-vagas-no-ensino-superior-a-distancia-superam-as-no-presencial.htm >

[2] < https://ronaldobarbosa.pro.br/2019/01/02/ead-mania-de-aula-e-o-karaoke/ >

[3] < https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/01/cursos-de-pos-graduacao-ensinam-criatividade-empatia-e-trabalho-em-grupo.shtml?utm_source=linkedin&utm_medium=social&utm_campaign=compli>

[4] ECO, U. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva. 2000.

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