Do Dr. Google ao Dr. Watson: tecnologia obriga a repensar interações humanas

Será que estamos preparados para entender o alcance e os limites que o uso crescente do computador pode representar? A relação médico-paciente é das mais sensíveis e ilustra bem como as interações humanas estão se modificando em função do uso das novas tecnologias.

Cena 1. O paciente entra no consultório já com o diagnóstico pronto, seguro do tratamento que precisa e sabe até qual o medicamente deverá ser prescrito, tudo graças ao prodigio do Dr. Google. O caso é simples…desta vez o médico concorda com tudo, suspira e lembra que um dia quis ter uma banda de rock.

Cena 2. Um paciente entra no consultório, o médico o examina apressadamente e pede para ele aguardar um pouco. Na sequência, ele senta de costas para o paciente e consulta o Google, tudo bem ali na frente do paciente. Como este reage? Na hora acha estranho mas fica quieto, depois comenta com os amigos e todos acham um absurdo. Jura que não vai voltar.

Cena 3. Paciente no consultório mas desta vez o médico pergunta e conversa bastante. Em seguida consulta no computador um site especializado, depois consulta outro site e depois outro, e aí pára e parece refletir… Instantes depois dá um diagnóstico claro e pormenorizado olhando para o paciente. O paciente acha que aquele é um bom médico e recomenda aos amigos aquele profissional atento, cuidadoso e atualizado.

Quais as diferenças?

Nas cenas 2 e 3, o médico consultou bases de dados mas só na cena 3 o paciente se sentiu bem atendido. Bom lembrar que na cena 2, consultar o Google poderia ter sido para alcançar um site altamente especializado cujo endereço ele não lembrava, mas o paciente nao entende assim.

O problema não está no uso de uma base de dados externa, mas no contexto em que isso acontece.

Não dá mais para saber tudo e, talvez, nem muito

O volume de informações novas que são geradas a todo instante, torna quase impossível conhecer todos os avanços científicos em qualquer área. Problemas mais ou menos complexos já requerem (e irão requerer cada vez mais) formas de consulta a bases de dados digitais simplesmente porque são dados demais e os avanços não cabem na cabeça de ninguém. Um especialista em uma área específica da medicina precisaria estudar 20 horas por dia para ler todos os artigos que são publicados para se manter atualizado. Ver [1].

Se o médico não consegue acompanhar todas as novidades da área, um sistema de inteligência artificial pode ajudar. Afinal, se todos os estudos até aquele momento forem reunidos, isso permitirá definir tratamentos específicos e com mais chances de darem certo. Ainda caberá ao médico decidir, mas de forma muito mais rápida e atualizada. Pelo menos é o que se busca com IA na área médica.

Dr. Watson

A IBM tem projetos de Inteligencia Artificial voltados para a saúde com o uso da plataforma Watson. Ver [1]. A ideia é trazer hipóteses e insights ajudando a melhorar qualidade de vida, salvar vidas e curar doenças. Vai afastar o médico do paciente? De alguma forma sim, uma vez que a conversa “beira-leito” tende a ser cada vez mais “beira-tela”. E para complicar mais, como na cena 1, sistemas especialistas podem com o tempo, tomar o lugar do médico em algumas circunstâncias. Alguns tipos de auto-diagnóstico ou diagnóstico por aplicativos tendem a a progredir rápido. Ver [2].

O que incomoda mesmo é a impressão do que o médico parece dar mais atenção ao computador do que ao paciente.

Quando a tecnologia parece mais afastar as pessoas do que aproximá-las, é necessário repensar a abordagem e reconfigurar o contexto. A solucão é complexa, passa por resignificar as interações pessoais e tornar mais claros quais são os novos papéis.

No caso de consultórios, inclui estar mais perto do paciente do que do computador e permitir que o paciente veja o que o médico está fazendo na tela. Desde que não seja ver os gols da rodada. Ver [3].

—-

[1] Repensando a medicina | O que é o Watson? < https://www.youtube.com/watch?v=AERYD5kHfRY >

[2] < http://www.oncoguia.org.br/conteudo/sistema-utiliza-camera-do-celular-para-detectar-cancer-de-pele/12503/7/ >

[3] < https://aaronneinstein.com/2012/07/21/seven-tips-to-prevent-medical-technology-from-ruining-the-doctor-patient-relationship/ >

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close