Por que somos tão fascinados por zumbis?

História real. Um teste sobre ética e empatia foi aplicado junto a calouros de medicina de uma universidade pública e, ao mesmo tempo, com estudantes da periferia da mesma cidade e faixa etária. O vestibular de medicina é de 300 candidatos por vaga, os aprovados são máquinas de competir. Os estudantes da periferia, como sabemos, tem poucos recursos a favor deles.

O teste era mais ou menos este:

Um barco está prestes a afundar, é preciso sacrificar algumas pessoas para evitar um naufrágio em que todos morrem. Alguns terão que ser jogados ao mar. Você irá decidir quem será jogado. No barco há velhos, crianças, adultos solteiros, adultos casados, mulheres, pessoas doentes, etc. Como escolher quem será jogado ao mar?

Resultado do teste: a turma de calouros de medicina fez as escolhas rápido, de forma objetiva e direta. Não importa aqui tanto o que disseram. Quanto ao pessoal da periferia, a maioria dos estudantes não soube escolher e muitos morreriam junto com quem estivesse no barco.

Esta experiência que ouvi em recente reunião de docentes, objetivava refletir sobre questões de ética e valores humanos e, claro, faz pensar também sobre como se formam as elites no Brasil.

Tudo isso para dizer que, em nossa época, as pessoas estão ficando menos importantes! Repare nos noticiários, filmes e programas de tv, de forma geral…

Já zumbis e robôs, ao contrário, estão crescendo muito em popularidade.

Na mesma proporção que aumenta o desprestígio do ser humano, cresce a cultura dos zumbis e de robôs inteligentes. Será mera coincidência?

A cultura dos zumbis

A palavra zumbi (ou zombie) é variação da palavra africana nzambi, que significa espíritos dos mortos. No século XVII, os negros trazidos da África para trabalhar no Haiti como escravos, eram explorados quase até a morte nos canaviais. Muitos escravos cometiam suicídio na esperança de que, com a morte, estariam livres do sofrimento e poderiam retornar à África.

Desde então e, melhor, desde os filme de George Romero, da década de 1960, a fama dos zumbis só aumentou. Existem alusões a zumbis por toda parte na cultura de hoje, em desenhos, filmes, jogos, música, bonecos e até alimentos. Mas a mania vai ainda mais longe, as pessoas querem fazer parte da zumbisfera: em diversas partes do mundo há associações de combate a zumbis, cursos preparatórios para exterminar zumbis, guias para proteger sua família deles, armas especiais e até estudos acadêmicos sobre ataques zumbis. Ver [1] e [2].

Não é difícil perceber que zumbis existem de verdade: remetem a expatriados, refugiados, doentes contagiosos, e viciados em crack nas grandes cidades. Fica mais suportável naturalizar essas tristes realidades colocando, de alguma forma, essas pessoas na condição de zumbis, e muitos se divertem.

O escritor Michael Foley explica porque zumbis desbancaram os vampiros no imaginário do pesadelo popular coletivo. Enquanto vampiros representam uma individualidade fora dos padrões e do controle social, zumbis não tem identidade, formam um bloco e agem em bloco. Já o vampiro é da elite, tem nobreza e individualidade, mas é um rico do mal, melhor que desaparecesse.. Ver [3].

A cultura do robôs inteligentes

Se você assistiu à serie de ficção científica WestWorld, sabe que a conclusão final do último capítulo é clara: robôs são muito mais interessantes do que as pessoas. Eles conseguem se passar por pessoas, mas pessoas não tem a competência para se passar por robôs. Essa informação entrou e caiu bem na cabeça de milhões de pessoas! Ver [4].

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Como dizia o músico Itamar Assumpção em uma de suas músicas: Porcaria na cultura tanto bate até que fura!

Juntando tudo: pessoas, zumbis e robôs

O raciocínio é mais ou menos este: se nos parecemos com robôs e zumbis, somos tipo-zumbis e somos detestáveis como zumbis. Agora robôs são iguais a nós, tem carisma, brincam com crianças e ainda são mais espertos. Portanto é melhor desvalorizar as pessoas e trocá-las por robôs. Será??

Douglas Rushkoff, escritor, pergunta: O que fazem os zumbis? São parecidos com a gente, andam por aí em grupo, procuram alimento, matam uns aos outros… assim como nós próprios, humanos. Só que parecer é diferente de ser. Ver [4].

Zumbis se parecem com pessoas, mas pessoas não se parecem com zumbis.
Por isso não podem ser iguais.

Se quisermos que sobre alguma coisa daqui a algumas décadas, precisamos resgatar a importância e singularidade das pessoas.

Com todas as ambiguidades, paradoxos, fraquezas e emoções. É bom ser um humano!

[1] < https://www.independent.co.uk/news/science/how-long-humans-survive-zombie-apocalypse-scientists-a7513941.html >

[2] < https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/zombie-apocalypse-survival-plan-guide-kit-uk-london-manchester-a8577556.html>

[3] < http://www.michael-foley.net/blog >

[4] < https://www.youtube.com/watch?v=Is1YUQVYkvY >

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