Escolas deveriam estampar em seus sites, quanto pagam aos professores

O assunto preferido das rodas de conversa entre pais de classe media em festinhas de aniversário de criança, é a escola dos filhos. A pauta é mais ou menos a seguinte: quando as crianças ingressam na escola, é sobre a escola; quando a criança está para sair da escola, é sobre a escolha da próxima escola. Como sempre tem crianças entrando e saindo das escolas, os assuntos são os mesmos.

Especie de bloco de carnaval ao contrário em termos de animação dos adultos, encontros de pais em festas de aniversario só perdem em entusiasmo para reuniões de condomínio.

A primeira escola

Quando crianças pequenas ingressam na escola, nos primeiros anos de vida, começa a abrir a distância na formação intelectual entre quem frequenta a escola pública e quem pode frequentar a escola particular. Sempre há exceções mas a distância acontece até no nome, uma se chama creche, a outra, escola infantil. A creche tem excesso de crianças e escassez de professores. Muitos profissionais são excelentes mas as condições de trabalho comprometem o resultado. Nesta fase, a classe media brasileira faz de tudo para evitar a escola pública.

Em outros países não é assim.

Na Alemanha, filhos de ricos e de pobres frequentam as mesmas escolas públicas. Os ricos pagam, mas pagam menos que aqui. Será que não é assim que se contrói um país?

A escolha da segunda escola: ensino primário

Em uma dessas reuniões de aniversário, uma mãe contou que para escolher a próxima escola da filha, visitou 22 escolas em todos os cantos da cidade. Ela até criou uma planilha para não esquecer de perguntar algo e anotar tudo que considerasse importante. Acabou escolhendo a escola que era mais perto da própria casa. Pedi mas ela não me passou a planilha.

Escolas viram prisões psíquicas no 1o. ano

Algo que chama a atenção para quem conhece boas escolas infantis e visita escolas que tem o 1o. ano, sejam públicas ou particulares, é a tremenda distância que as separa (infantis das do 1o. ano) em termos de compromissos da criança e volume de atividades. Não se permite que as crianças brinquem. Em media, elas tem apenas 30 minutos de tempo livre no parquinho, duas vezes por semana.

30 minutos de parquinho por semana é pior do que uma prisão, em que os detentos tem direito a banho de sol de 15 minutos, todos os dias.

Perfis de escolas

É fascinante observar escolas particulares a partir do ensino primário, você tem um painel socio-cultural riquíssimo de como é a educação no país. Escolas de linha religiosa colocam flores de plástico na capela; escolas ricas agora colocam placas bem visíveis da Unesco e da Google, uma ao lado da outra para mostrar ao visitante o quanto seus valores humanistas convivem bem com os últimos avanços tecnológicos (beira o bizarro a implantação do Google Education nas escolas mas isso é tema para outro post…).

Pergunto: Como uma escola de linha religiosa pode dar aula de religião e de Ciências ao mesmo tempo? Em uma a vida provém da vontade de Deus, na outra, a Ciência explica de forma completamente diferente. Deve confundir os alunos.

Outra questão é a confusão quanto ao bilinguismo, nova moda nas escolas particulares. Em uma das escolas que visitei, ouvi (acredite ou não), um professor misturando tudo e dizendo algo como:

_Pegue sua bag, Luiz Antonio!

Seria espetacular se as crianças dominassem e valorizassem o próprio idioma, mesmo porque o idioma estrangeiro nunca será primeira língua de uma pessoa. Pode-se aprender em outros momentos e ambientes, ao longo da vida. Ou quer que seu filho vá trabalhar na IBM quanto tiver dez anos?

Qualidade de ensino e salário de professor

Anos atrás houve grande debate sobre salários de professores e nível da qualidade do ensino. Foram publicados artigos em revistas de grande circulação nacional e veiculadas reportagens em programas de tv. A ideia apregoada era mais ou menos a seguinte: não haveria relação real entre salário dos professores e qualidade de ensino, pelo menos, se tomados os resultados de grandes exames nacionais, tais como o Ideb, por exemplo. É algo discutível mas alcançou grande repercussão, a ponto do seu autor ser ameaçado de morte e desaparecido da tv e das revistas, desde então. Ver[1].

Algo sobre o qual me convenci é de que a qualidade da escola depende da qualidade dos professores, seja ele da escola pública ou da particular. E salário tem relação com isso.

Parece óbvio mas quando você visita escolas ricas e suntuosas a procura de uma nova escola para seu filho, corre o risco de esquecer e tomar a decisão errada. Lembrar disso ajudaria a entender porque o valor da mensalidade não garante qualidade do ensino e nem mesmo segurança para os filhos. Ver [2].

Escolas particulares de bairro podem ter ensino muito melhor, repito, depende muito mais dos professores.

No passado, já foi sugerido que o desempenho no IDEB fosse divulgado para os pais na porta das escolas. Ver [3].

Um aspecto importante de toda esta discussão é o que realmente acontece em algumas escolas públicas país à fora que as tornam tão melhores do muitas escolas particulares dos grandes centros (ver a figura no início deste texto).

Uma visão unicamente monetarista da educação é um grande erro e o tiro sai pela culatra. Pode-se pagar muito caro por algo ruim porque o alto valor pago pelos pais não ecoa no bolso dos professores, mas somente dos donos das escolas. E são os professores os ativistas da qualidade de ensino.

Daí, finalmente, emito uma modesta sugestão:

O valor que se paga aos professores deveria ser divulgado na porta e nos sites das escolas particulares.

Essa sim seria uma inovação disruptiva no campo educacional!

[1] < https://veja.abril.com.br/educacao/gustavo-ioschpe-derruba-12-mitos-da-educacao-brasileira/ >

[2] < https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,professor-de-escola-particular-de-sp-e-preso-em-operacao-contra-pornografia-infantil,70003201960 >

[3] < https://www.camara.leg.br/noticias/373358-divulgacao-do-ideb-na-entrada-das-escolas-divide-opinioes/ >

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