A falta que ela faz: História da Ciência

Existem palavras derivadas da ciência que ouvimos e que usamos com frequência mas cujo significado desconhecemos ou usamos de forma muito redutora. Entre elas estão as palavras “darwiniano”, “freudiano”, “piagetiano”… Não precisaríamos ser cientistas profissionais para usar algumas dessas palavras de forma um pouco mais adequada, bastaria ter alguma base em história da ciência – disciplina praticamente inexistente na formação de profissionais em todas as áreas. Isso é mais crítico ainda quando se trata de formação de professores.

E a historia da ciência ajuda ainda a enxergar os limites da própria ciência.

Projetos de aprendizagem baseados em pesquisa

Nestes tempos de afastamento social em que as escolas estão fechadas, a transmissão e gravação de aulas, sobretudo para ensino básico e médio, tendem a exaurir a paciência dos professores, dos alunos e dos pais. A logística de entrega das aulas online força uma compressão da carga horária e aí bate certo desespero nas escolas por não poderem baixar o valor das mensalidades. Isso as leva a pensar em alternativas pedagógicas.

Em lugar de repetir o ensino presencial, as escolas poderiam investir em projetos interdisciplinares baseados em metodologias de aprendizagem ativas com uso ostensivo da Internet.

Mas projetos interdisciplinares tem um problema, são…interdisciplinares e quase ninguém está preparado para isso.

O que é interdisciplinaridade mesmo? Ver[1]

Escolas com material apostilado condicionam os professores à entrega das aulas pré-escritas e pré-planejadas. Para os professores é muito difícil enxergar outra organização escolar que não seja aquela baseada na divisão rígida entre as disciplinas pois tudo funciona segundo esta divisão: divisão em series, em horários, em aulas, avaliações atomizadas…tudo organizado com rigidez militar para que um professor mal saiba o que o outro está fazendo junto a alunos de uma mesma serie e até de uma mesma turma. Projetos interdisciplinares, por outro lado, em lugar de dividir, multiplicam.

Neste cenário…

Como exigir do professor uma postura ativa por meio da elaboração de projetos interdisciplinares para que ele, por sua vez, possa exigir dos alunos uma postura também ativa?

A pouca valorização de história da ciência em cursos de formação de professores ajuda a explicar porque eles tem (nós temos) tanta dificuldade em desenvolver projetos interdisciplinares. A história da ciência ajudaria a entender os entrelaçamentos entre as disciplinas, como se operam as descobertas em ciência, algumas vezes de maneira formal e planejada mas também muitas vezes fruto de um certo caos criativo ou puro acaso.

Finalmente, a curva de Gauss

Estudar história da ciência e ter Gauss como exemplo momentâneo envolve descobertas surpreendentes. Sobretudo nesta época em que sua maior criação (a chamada “curva de Gauss”) estampa os noticiários diariamente. A sobrevivência de parte da humanidade depende de se alterar o traçado da famigerada curva, ok, mas vale aqui uma digressão.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

O alemão Carl F. Gauss [1777-1855] foi, provavelmente, o maior matemático de sua época. Foi também astrônomo e físico. Inventou instrumentos de observação utilizados em astronomia e abriu novos rumos em matemática com os números complexos, métodos dos mínimos quadrados, entre outros…em física estabeleceu a relação entre fluxo de campo com a carga elétrica (famosa Lei de Gauss). Mas em estatística, a distribuição normal de probabilidades se deve ao esforço de vários matemáticos, veja só, não somente a Gauss. Ele levou a fama sozinho junto ao público leigo mas outros conceberam esta distribuição ao mesmo tempo que ele.

Considerando esta semana de grande valor religioso (a Páscoa), o significado dela para os tempos em que vivemos e ainda a ideia recente de que todas as apostas de solução parecem recair sobre o poder da ciência, a personalidade de Gauss, resgatada via história da ciência, tem um ensinamento, no mínimo, interessante.

Gauss era um grande cientista mas também era extremamente religioso, lia o Evangelho todas as noites para se inspirar. Por isso é considerado por alguns biógrafos o “matemático de Deus”.

Neste caso, segundo um viés de história da ciência, entraria alguma modéstia ao papel que cabe à ciência para a resolução desta crise em que nos metemos, já que o dono da bola (e do gráfico) apelava à Deus.

Gauss declarou certa vez (ver [2]):

“Existe neste mundo uma alegria da mente que encontra satisfação na ciência e uma alegria do coração que se expressa principalmente nos esforços do homem para iluminar as preocupações e os pesares um do outro. Mas se o plano do Ser Supremo é criar seres em planetas diversos e conceder-lhes desfrutar de 80 ou 90 anos de existência, esse plano seria bastante cruel. Se a alma vive 80 anos ou 80 milhões de anos e um certo dia tem que perecer, esta vida é então um puro adiamento do patíbulo. Não contaria nada. Somos levados, por isso, à conclusão de que, para além deste mundo material, existe outro, puramente espiritual …” – C.F.Gauss

Para refletir nesta Páscoa tão singular..

[1] < https://osmurosdaescola.wordpress.com/2011/07/06/multi-pluri-trans-inter-mas-o-que-e-tudo-isso/ >

[2] < http://www.comunidadesiao.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4470:voce-conhece-carl-gauss-o-matematico-de-deus&catid=102:fe-e-historia&Itemid=82 >

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