Webinares sobre educação e o caranguejo gigante

O filme O Elo Perdido (2009, dir. Brad Silberling), tem uma cena em que um caranguejo gigante se aproxima de forma ameaçadora de um grupo de viajantes. Quando o bicho está bem perto das pessoas e levanta as garras para devorar todo mundo, cai de repente e desaparece em uma especie de fossa com água fervendo. Instantes depois salta vermelho cozido e cai em pedaços. Virou comida farta para o grupo.

A cena me reporta um pouco ao que está acontecendo em educação nestes tempos de pandemia: um evento súbito mudou o destino; o que era medo da tecnologia virou algo favorecedor; escolas e professores que temiam serem devorados pela tecnologia agora vão se nutrir dela… Mas a imagem do caranguejo exterminador que vira comida de primeira, lembra-me também o teor dos webinares sobre educação que tenho assistido. Deixo a você pensar quem é caranguejo e quem é viajante mas ajudará se ler até o final.

Um webinar pra chamar de seu

Executivos da educação tem tido muitas chances de promover o que estão fazendo nestes tempos de pandemia e tem o apoio de grandes veículos de comunicação. Não culpo ninguém por fazer ou assistir, sempre é bom ventilar ideias. Mas apresento algumas delas que eram alguma novidade apenas uma semana atrás e já soam repetitivas. Viraram um mantra do mercado educacional repetido em quase todos os webinares:

  • “A educação nunca mais será a mesma depois da pandemia,”
  • “Quem duvidava do EAD agora vai adotá-lo.”
  • “O processo de mudança na educação agora se acelerou.”
  • “A escola virou blended offline/online na marra.”
  • “Escolas e professores reticentes com o uso de tecnologias digitais agora terão que utilizá-las.”
  • “Professores estão dando show com o uso das tecnologias.”

O que ainda não vi em nenhum webinar

Fala-se muito sobre plataformas e tecnologias sobretudo as próprias que os apresentadores representam. Quase nada se fala sobre metodologia…é menos importante?

Vou tentar algum contraponto. Pode-se falar muito sobre como usar tecnologia na educação sem exaltá-la.

Antes da pandemia, muitas tecnologias inovadoras estavam em curso na área de educação e agora serão tremendamente facilitadas. Por exemplo, as tecnologias de reconhecimento facial e de bots.

Por meio de reconhecimento facial em salas de aula físicas não é preciso fazer chamada para registrar quem está presente. Mas a tecnologia vai muito além disso: pode apontar quem está atento, com dúvidas, distraído, com sono, olhando para o lado, etc.. Se você é professor ou aluno e não se preocupa com isso, poderia começar. Existe diferença entre aparentar estar e realmente estar; quem usará essa informação e para quê? Reconhecimento facial será muito, mas muito mais fácil de implementar agora. Salas de aula online (e mesmo escritorios virtuais) farão a festa do reconhecimento facial.

As tecnologias de bots (softtwares de conversação) aplicadas à educação tendem a produzir muito em breve tutores artificiais. Assim, materiais autoinstrucionais que antes não contavam com tutoria, agora terão bots como tutores. Com o tempo muitos professores perderão oportunidades no ensino online em função de tecnologias que imitam conversação humana. O espaço perdido no ensino presencial agora ruma a ser perdido também no virtual. Bom lembrar que bots não sabem do que estão falando, apenas imitam a fala de uma pessoa – isso tem implicações para além da filosofia, entramos em uma área de engenharia social, assunto que não cabe aqui discutir.

Por fim… na linha do que não vejo ser dito em webinars mas gostaria…

Muitas professoras de series iniciais gravam vídeos de suas atividades mas agem de forma infantilizada. Estão estranhas ou falsas na frente da câmera, segundo as próprias crianças, seus alunos. Obrigadas a falar em falsete ou a atuarem como artistas amadores sem preparo, esquecem-se de que seus esforços virarão piada (e já estão virando e viralizando) cedo ou tarde. Despreparadas para o audiovisual, educadores não deveriam se submeter a qualquer coisa.

A lista poderia ir mais além…onde estão os professores nos webinars? onde entra a formação dos professores daqui para frente? E as metodologias, o que significarão? etc, etc…

Na imagem inicial, para não esquecer, quem mais poderia ser o caranguejo gigante e os viajantes?



Em tempo: < https://apublica.org/2020/04/laureate-usa-robos-no-lugar-de-professores-sem-que-alunos-saibam/#.Xqwvg07pQ7U.whatsapp >

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