Quando feedback ao aluno vira sistema de suporte ao usuário

A avaliação é um oceano em que poucos se arriscam a mergulhar mas em que todos nadam. Todos falam e fazem avaliações o tempo todo mas quase ninguém entende muito bem o que é. Tente lembrar agora o nome de algum autor na área de educação especializado na área de avaliação! Também não me lembro…

Uma boa avaliação passa não só por saber fazer boas perguntas, mas interpretar adequadamente as respostas, dar um retorno crítico porém construtivo de forma que o estudante sinta-se encorajado a aprender mais. Mas há um passo anterior à elaboração de boas perguntas. Antes das perguntas vem a elicitação de objetivos de aprendizagem. Sem objetivos claros e conhecidos, não faz nenhum sentido avaliar.

A nota é só um número…aliás, quem criou as notas nas provas e trabalhos e por que variam de 0 a 10, você sabe?

Supervalorizar as notas ou desvalorizá-las demais gera problemas. Quando a nota-numero é supervalorizada, os alunos esforçam-se mais e podem aprender mais motivados que estão por alcançar boas notas. Mas em algumas universidades de ponta mundo afora, quando estudantes não conseguem lidar com pressão e stress para atingir resultados esperados, vem a depressão e aumentam casos de suicídio. Ver [1]

Por outro lado, com a nota desvalorizada, muitos alunos tem a nota inflacionada e são iludidos por ela como se possuíssem domínios e habilidades que na verdade, comparativamente, não possuem.

Um argumento justificacionista de professores e escolas para avaliações mal elaboradas é o famoso “deixa o mercado selecionar”.

Outro pensamento comum é que baixas notas afetam a auto-estima dos estudantes o que os levaria a desistir de estudar. Pode ser… Mas baixa auto-estima e o combate a ela também é usada para justificar outros males sociais como violência e marginalidade, difícil provar essa relação, pode ser até que seja o oposto. Aliás, não confundir auto-estima com amor-próprio, são bem diferentes. Auto-estima parece vir mais de fora para dentro, sendo alimentada pelo que os outros acham de você…amor-próprio é interno, não depende dos outros.

Pensando em auto-estima, aprendi que quando se elogia uma criança, o pior elogio que se pode fazer refere-se ao que ela tem como produto acabado: “inteligente”, por exemplo. Isso não constrói. Se você, de forma diferente, diz que ela é “esforçada”, isso sim é um elogio útil porque remete à superação e ao esforço. Elogios deveriam mobilizar e não paralisar. Chamar uma criança de “inteligente” a leva à acomodação. Ver [3].

Avaliação / feedback nas empresas

Talvez a pior interação social que as pessoas prefiram ter na vida seja o feedback dos chefes nas empresas. Mas ali, até onde sei, o problema do feedback foi resolvido com uma fórmula mágica, o chamado feedback “sanduíche”. A regra é a seguinte: se você vai dar feedback para alguém abaixo de você na hierarquia, tem que seguir uma sequência:

Primeiro elogie, depois critique (pode bater pesado..), mas aí finalize com outro elogio.

Robôs avaliadores nas escolas

Estamos entrando na era dos robôs/infobots avaliadores. Já começam a aparecer em cursos online e isso deve se ampliar cada vez mais. Ver [3]. Não sei como estão sendo programados mas suponho que a programação possa aproveitar as mesmas ideias usadas em sistemas de ajuda criados para dar suporte a sistemas de informação tradicionais tais como aplicativos de escritório, ERPs, jogos, etc. Aí entram algumas regras bem definidas. Tentarei resumir algumas delas aqui. Imagine-se amestrando um robô a dar mensagens de erro para o usuário, desculpe, ao aluno. Vamos a elas…

Robozinho: na hora de emitir mensagens de erro, lembre o que vou dizer

Mensagens de erro devem retornar ao usuário informação sobre as ações que foram feitas e quais os resultados obtidos, é um conceito forte da teoria da informação e controle. A ideia de mensagens de erro tem relação com feedback que o sistema deve fornecer ao usuário. A primeira impressão que os usuários podem ter de um sistema interativo depende das mensagens de erro do sistema. Usuários inexperientes podem começar o trabalho e cometer um erro inicial e poderão corrigir imediatamente se a mensagem de erro for eficiente. Por outro lado, podem desistir completamente de continuar a utilizar o sistema (vão desistir do curso) se a mensagem não for apropriada. Assim, projetos equivocados de mensagens de erro podem levar o usuário a rejeitar o sistema (vão embora da escola) em vez de aceitá-lo. Mensagens devem ser polidas, curtas, consistentes e construtivas. A mensagem deve oferecer meios construtivos para que se possa recuperar o erro, não deve “julgar” o usuário. Ver [4] e [5].

Resumindo, robozinho avaliador, lembre-se bem:

Mensagens devem ser curtas e orientadoras sobre como o usuário deve resolver o problema.

•   Evite termos pesados tais como FATAL, ERRO, INVÁLIDO, MAU, ILEGAL.                

•      A percepção do usuário em relação ao sistema tem muito a ver com mensagens de erro (não podemos perder alunos por sua causa!).

•      Mensagens de erro deveriam servir para orientar o usuário e não para condená-lo. Cuidado com a auto-estima do aluno!

Concluindo…

A interação aluno-professor por meio de feedback é a alma do ensino e da aprendizagem. Infobots/robôs são imitadores, continuam não sendo pessoas, ainda que as imitem bem. Mas para dificultar a imitação, a cultura de avaliação por parte dos professores precisaria ser ampliada.

Além disso, os estudantes deveriam ter o direito, pelo menos, de saber se o tutor dele nos ambientes online existe de carne e osso ou se é uma imitação. Professores bem formados são menos imitáveis e dependendo de como lidam com os alunos nos processos de avaliação e feedback, tem oportunidades para serem mais valorizados!

—-

[1] < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/27/eps/1543332171_826777.html >

[2] <https://larmontessori.com/2012/03/01/a-crianca-para-montessori/ >

[3] < https://apublica.org/2020/04/laureate-usa-robos-no-lugar-de-professores-sem-que-alunos-saibam/ >

[4] BARBOSA, S.D.J. Interação humano-computador. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

[5] PREECE, J., Rogers, Sharp, H., Benyon, D., Holland, S., Carey, T. Design de interação: além da interação humano-computador. Porto Alegre: Bookman, 2013

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