Receitas prontas não funcionam em educação

Quando tentei estudar música, disseram-me que a execução da partitura variava de intérprete para intérprete. Achei muito estranho isso se ali estavam colocadas com precisão as notas, pausas, andamento, ritmo..se tudo estava ali, como podia variar conforme a interpretação? Interpretação do quê?

Recentemente um amigo disse que lamentava ter vendido um vinil da 9a. Sinfonia de Beethoven. Era a gravação com uma orquestra e regência espetaculares mas a gravação era mono ! Comprou em CD com o maestro Karajan, Sinfônica de Berlin e tudo mais…e se arrependeu. Quem entende realmente de música clássica sabe dizer qual a melhor gravação das grandes obras e consegue explicar. Se as gravações fossem todas iguais, não haveria uma melhor. Sem contar a própria duração das execuções. Uma mesma sinfonia executada por orquestras e regentes diferentes pode ter até dois minutos de diferença nas execuções, isso para ficar só na duração.

Ler livros sobre música clássica, hoje em dia, é passatempo digno de um sultão.

Assim como as interpretações de música clássica variam muito, as receitas prontas em educação não resolvem: o resultado efetivo com os alunos varia de aluno par aluno, de escola para escola, de contexto para contexto.

O veneno das receitas prontas em educação

“Professores sempre querem receitas prontas”. A frase é de uma grande educadora brasileira mas poderia ser dita por qualquer um que trabalhe com formação de professores. Aliás, é o tipo de ideia que as pessoas tem e até falam sobre, mas raramente escrevem (por isso não vou referenciar o nome da educadora). Ouvi muitas vezes.

As receitas prontas em educação agora terão como fonte maior as “pedagogias ativas”. Mas “pedagogias ativas” não formam a resposta definitiva para os desafios metodológicos do aprendizado. Se assim fosse, estariam sendo praticadas na maior parte das escolas há muito tempo e, sabemos, até hoje só entraram em uma minoria de escolas. Cabe perguntar:

As pedagogias inovadoras do passado fracassaram? Estão ultrapassadas?

Uma interpretação para explicar o fracasso “na prática” ocorreria devido a fatores externos, como por exemplo, um certo relativismo exagerado por parte dos intérpretes, ou, por outro lado, a uma necessidade de pensamento único sobre os problemas de aprendizado. Assim, o fracasso estaria mais ligado a aplicações desvirtuadas, do que propriamente à essência das ideias originais. Ver [1]. Em outras palavras, o desvirtuamento das metodologias ativas deriva exatamente do emprego de receitas.

As reformas educacionais, estejam ligadas às pedagogias ativas ou não, perdem seus efeitos com o tempo porque caem na rotina e ficam descontextualizadas. Quando generalizadas, tornam-se apenas mais uma prescrição vinda do mundo externo para o interior das escolas. Ver [2]. Novamente as receitas envenenam a educação.

Riscos das aprendizagens ativas e o “vale-tudo” metodológico

As aprendizagens ativas podem levar a um verdadeiro “vale tudo” metodológico em que não se define claramente o currículo, nem as metodologias ou os papeis dos envolvidos Nesse sentido, pode até ampliar dificuldades ou obscurecer as propostas. Em uma abordagem em que os estudantes aprendem com base em pesquisa, por exemplo, pode-se indagar também:

Como fazer uma avaliação justa do aluno ? Como garantir que os conteúdos sejam abordados ? Como evitar o risco de “bagunça curricular”? Como garantir que os professores estejam exercendo corretamente seus papeis? Quais são esses papeis? Como preparar o professor para essa abordagem? Quem define e como se define a proposta de investigação que será encaminhada aos estudantes, etc.

Uma série de pre-requisitos complexos precisa ser atendida para compor uma proposta baseada na aprendizagem por pesquisa. Uma condição importante parece ser a de que o aluno deveria estar motivado para estabelecer relações entre os conteúdos que já conhece e os novos conteúdos que necessita conhecer. Assim, caberia ao aluno reconhecer suas próprias necessidades educacionais. Tal habilidade raramente está presente na média dos estudantes, mas existem outros aspectos igualmente importantes, tais como necessidade de auto-motivação, habilidades de relacionamento interpessoal, capacidade de síntese e poder de comunicação. Sem contar o risco da negligência deliberada em relação ao tratamento dos conteúdos. Lee Shulman, conhecido defensor da pedagogia baseada na solução de problemas, em um rasgo de realismo e auto-crítica, assinala ser muito difícil comprovar que o aluno por meio deste método aprenda realmente mais do que pelo método tradicional mas, por outro lado, assegura ser possível verificar ganhos na habilidade de pesquisar, de expor opiniões e de desenvolver uma atitude mais proativa e positiva em relação a desafios com que irá se deparar em sua trajetória profissional. Ver [4].

Se livros de auto-ajuda resolvessem, todos seriam felizes. Se receituários prontos resolvessem os problemas da educação, a fórmula teria sido encontrada e os países todo estariam empatados em primeiro lugar como detentores do melhor sistema de ensino possível.

[1] CARBONELL, J. A aventura de inovar: a mudança na escola. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

[2] HERNANDEZ, F. Trangressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

______. A organização do currículo por projetos de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

[3] OLIVEIRA, J.B.A. Reforma na educação: por onde começar. São Paulo: Ed. Alfa Eductiva, 2006.

[4] SHULMAN, L. Entrevista. ComCiência, 2010, no.115, p.0-0. ISSN 1519-7654

Obs: este post é um extrato da minha tese disponivel em:

Barbosa, R. (2013). Projeto Geo-Escola: Geociências para uma escola inovadora. Campinas: Inst. Geoc., Univ. Est. Campinas. 182p. (Dout.). URL: http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/287192

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