Afinal, para que servem os professores?

Tempos atrás postei que um dos efeitos da atual crise seria o aparecimento exponencial de bots (softwares que “aprendem” e se “comunicam” imitando pessoas) na área de ensino. Disse que os cursos online sem professor, chamados autoinstrucionais, seriam transformados com o uso de bots imitadores de tutores.

Na semana seguinte ecoou o escândalo de que um grande grupo educacional estava usando bots em seus cursos, em substituição a tutores, sem avisar os alunos. Ao mesmo tempo, e não por acaso, muitos professores de cursos EAD estavam sendo demitidos do mesmo grupo educacional. Ver[1].

Uma frase famosíssima sobre o ato de ensinar que já vi sendo usada com sentidos completamente diferentes, é do dramaturgo Bernard Shaw :

Quem sabe faz. Quem não sabe, ensina

O que ele quis dizer com isso, exatamente? É um ataque ao professor ou uma exaltação do aluno?

A profissão docente é das mais antigas e importantes, tendo em vista que as demais, em sua maioria, dependem dela. De Platão a Rousseu, do professor Raimundo a Mario Sergio Cortella, muitos falaram e escreveram sobre a importância do papel do professor na formação do cidadão.

Sabemos que o exercício da profissão docente requer qualificações acadêmicas e pedagógicas, objetivando transmitir e ensinar a matéria em estudo da melhor forma possível ao aluno.

Robôs tomando lugar de professores

Fiquei curioso para saber se o professor poderia ser substituído por um robô. A tentação de dizer “claro que não!” é muito grande mas isso com base em quê? Então fui pesquisar rapidamente em documentos oficiais sobre o papel do professor.

Descobri que o INEP fez um levantamento em diferentes países (Austrália, Canadá, Cingapura, Chile, Cuba, Estados Unidos e Inglaterra) para chegar a um conjunto de atributos mínimos necessários à carreira docente. Ver [2]. Eis os 20 atributos.

O professor:

1. Domina os conteúdos curriculares das disciplinas que leciona, o que inclui a compreensão de seus princípios e conceitos.

2. Conhece as características de desenvolvimento dos alunos, suas experiências e contexto em que vivem, e como esses fatores afetam sua aprendizagem.

3. Domina a didática das disciplinas que ensina, incluindo diversas estratégias e atividades de ensino.

4. Domina o currículo ou as diretrizes curriculares das disciplinas que leciona.

5. Organiza os objetivos e conteúdos de maneira coerente com o currículo, os momentos de desenvolvimento dos alunos e seu nível de aprendizagem.

6. Seleciona recursos de aprendizagem de acordo com os objetivos de aprendizagem e as características de seus alunos.

7. Seleciona estratégias de avaliação coerentes com os objetivos de aprendizagem, a disciplina que ensina e o currículo, permitindo com que todos os alunos demonstrem o que aprenderam.

8. Estabelece um clima favorável para a aprendizagem, baseado em relações de respeito, equidade, confiança, cooperação e entusiasmo.

9. Manifesta altas expectativas em relação às possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento de todos os seus alunos.

10. Estabelece e mantém normas de convivência em sala de aula, de modo que os alunos aprendam a ter responsabilidade pela sua aprendizagem e a dos colegas.

11. Demonstra valores, atitudes e comportamentos positivos e promovem o desenvolvimento deles pelos alunos.

12. Comunica-se efetivamente com os pais de alunos , atualizando-os e buscando estimular o seu comprometimento com o processo de ensino aprendizagem dos alunos.

13. Aplica estratégias de ensino desafiantes e coerentes com os objetivos de aprendizagem e com os diferentes níveis de aprendizado dos alunos.

14. Utiliza métodos e procedimentos que promovem o desenvolvimento do pensamento e da busca independente do conhecimento.

15. Otimiza o tempo disponível para o ensino, garantindo o máximo de aprendizagem de cada aluno durante toda a duração da aula.

16. Avalia e monitora o processo de compreensão e apropriação dos conteúdos por parte dos estudantes.

17. Busca aprimorar seu trabalho constantemente a partir de diversas práticas, tais como: a reflexão sistemática de sua atuação, a auto-avaliação em relação ao progresso dos alunos, as descobertas de pesquisas recentes sobre sua área de atuação, e as recomendações de supervisores , tutores e colegas.

18. Trabalha em equipe com os demais profissionais para tomar decisões em relação à construção e/ou implementação do currículo e de outras políticas escolares.

19. Possui informação atualizada sobre as responsabilidades de sua profissão, incluindo aquelas relativas à aprendizagem e ao bem -estar dos alunos.

20. Conhece o sistema educacional e as políticas vigentes.

Não é pouca coisa! Dos 20 atributos, quantos podem ser desempenhados por um robô/computador ? Um, ok, no máximo, um e meio.

Não discuto que em algumas áreas o papel dos professores seja menos importante hoje em dia ou que sua função esteja mudando. Historicamente, no terreno movediço das profissões, algumas foram desaparecendo (o ascensorista, sapateiro..) enquanto outras profissões foram ou estão desaparecendo agora (tradutores), enquanto outras surgem (lixeiro de dados, por exemplo).

É fato também que em algumas áreas não precisamos de professores, ou precisamos cada vez menos, e é na experiência prática que se comprova isso. Eu diria até que, tristemente.

Na área de tecnologia existem escolas sem professor, os alunos aprendem em vôo solo, tiram dúvidas em softwares tutoriais e uns com os outros. Aprendem linguagens de programação, por exemplo. Ver [3].

Mas aqui o risco que se corre não é o de deixar de aprender programação, é o risco de deixar a tecnologia amestrar as pessoas. Há uma grande perda quando as pessoas não trocam experiências entre si. E aprende-se muito com pessoas mais velhas … será só experiência? Aprende-se sobre pessoas com pessoas…Aprender diz respeito só ao conteúdo? Volte aos 20 itens anteriores, e veja que o conteúdo é só o primeiro item!

Trocar professores por tecnologias de ensino não é educar, é amestrar as pessoas.

Tento aqui me justificar com a frase de José Ortega Gasset:

Se ensinares, ensina também a duvidar daquilo que estás a ensinar.

PERGUNTO: Será que um robô/computador ensinaria um ser humano a duvidar do que ensinou a ele, pessoa ?

[1] <https://apublica.org/2020/05/apos-uso-de-robos-laureate-agora-demite-professores-de-ead/ >

[2] < http://consultaexamedocente.inep.gov.br/publico/download/Referenciais_para_o_Exame_Nacional_de_Ingresso_na_Carreira_Docente.pdf >

[3] https://itforum365.com.br/42-a-escola-gratuita-sem-professor-que-ensina-programacao-no-brasil/

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