Mudança no trabalho do professor: precarização e oportunidade

PARTE 1. Muito tempo atrás um amigo, professor de colégio, sentenciou: _Sou a favor da modernidade em todas as áreas mas em se tratando de educação, o que funciona melhor é o ensino autoritário tradicional. Era o professor mais querido da escola e não tinha nada de autoritário, pelo menos não parecia.

É difícil ser conservador em algumas coisas sem parecer velho e autoritário. O escritor David Foster Wallace [1962-2008] disse uma vez que tinha saudade do ensino à moda antiga porque ao ser mais exigente e menos divertido, as pessoas se educavam mais e melhor. E assim valorizavam a própria educação. Foster foi um escritor revolucionário e perturbador (ver [1]).

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Autonomia do professor no ZOOM

Em 1997 (e aqui em 2002) foi publicado o livro Autonomia do Professor, de José Contreras(ver [2]). É parte de uma literatura específica dedicada a investigar o trabalho dos professores. Usei o livro algumas vezes mas nunca o li inteiro, agora volto a ele porque ficou muito mais útil e atual pensar este tema.Veja um dos argumentos :

Quando se separa quem planeja de quem executa, o professor perde o controle e o sentido sobre o próprio trabalho. A submissão do professor ao controle externo faz dele um técnico.

Quando você separa a concepção da atividade da execução da atividade, o professor vira um técnico. Perde o controle e o sentido do próprio trabalho.

Em resumo, a precarização do professor nasce com a perda de autonomia e nisso a mudança que estamos assistindo na educação pode favorecer bem.

Explico: pense na conversão de aulas presenciais em aulas remotas, na proporção 1:1, isto é, a tentativa vã de reproduzir a mesma aula do professor na tela do computador ao vivo: mesmo assunto, duração, exercícios, perguntas, etc…pense na questão da autonomia do professor.

Na aula presencial, o professor planejava a sua aula e os métodos que aplicaria. Se no momento da aula, algo não funcionasse, se os alunos não se interessassem por algum motivo, o professor podia arriscar de imediato uma mudança de trajetória, uma inversão na ordem dos assuntos, uma movimentação nova… afinal, aula é materia em movimento (ver [3]).

Na aula remota, on-line ao vivo, o professor não tem essa liberdade. Alguém planejou o modelo para ele. A sala de aula está aberta o tempo todo. Ele perdeu certo grau de intimidade que tinha com o coletivo da sala quando fechava a porta da sala. Uma sala zoom é uma sala sem portas, devassável que pode acuar o professor porque tudo é gravado. O professor perde em autonomia e a aula tende à paralisia.

O professor assume seu papel de professor, em função da autonomia que possui.

Por outro lado, autonomia não é isolamento, autonomia é construída por meio de colaboração e compartilhamento e aqui entram oportunidades.

Não adianta chorar o leite derramado pelo corona, a questão da autonomia do professor precisa ser resgatada e a própria tecnologia poderia condicionar isso (mas é tema para outro post, PARTE 2).

Dizia Drummond :

O presente é tão grande, não nos afastemos…Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

 —

[1] < https://piaui.folha.uol.com.br/materia/eu-e-voce-segundo-david-foster-wallace/ >

[2] CONTRERAS, J. Autonomia dos professores. São Paulo: Cortez, 2002.

[3] < https://ronaldobarbosa.pro.br/2020/06/25/vem-ai-os-softwares-agregadores-de-aula-mas-o-que-e-uma-aula-2/ >

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