Dez competências para ensinar (revisitadas na pandemia)

O sociólogo suiço francês Philippe Perrenoud é famoso pelo aprofundamento da noção de “competência”. O ensino por competências está ligado a uma formação voltada ao agir. E o “agir” está ligado à perspectiva de que os conteúdos seriam parte dos recursos mobilizáveis na prática, de acordo com necessidades… daí vem a noção de “competência”, segundo o autor. Competência não se ensina, professores podem ajudar a desenvolver, não ensinar… depende do desenvolvimento da capacidade no sujeito de “mobilizar” conscientemente recursos, habilidades e conhecimentos diante de uma necessidade, de situações não previstas ou novas. Perrenoud escreveu o clássico “As 10 competências profissionais para ensinar” (ver [1]) , que poderia também se chamar “As 10 mobilizações de recursos cognitivos necessárias para ensinar”. São as seguintes (ver [2]):

1. Utilizar novas tecnologias : Porque a escola não pode ignorar que as crianças já nascem sob a égide do “clique”, e certamente não aceitarão um modo de aprendizagem ultrapassado, pouco instigante e lento. As novas tecnologias da informação e da comunicação transformam as maneiras de se comunicar, de trabalhar, de decidir e de pensar. O professor precisa lançar mãos das novas tecnologias com objetivos educacionais.

Em tempos de pandemia e afastamento social, esta competência ganhou enorme impulso. O risco é grandes empresas tomarem conta também completamente das escolas. Autoridades e gestores públicos forçarem o uso de determinadas ferramentas.

2. Administrar sua própria formação contínua: A escola não é um ambiente estável; o professor precisa estar sempre preparado para lidar e intervir em quaisquer situações que ocorrerem. Se o professor não cuidar do seu próprio crescimento, ninguém o fará. Essa decisão se consolidou na prática, pelos professores que buscaram cursos de extensão, de graduação ou de pós-graduação.

A necessidade de formação continuada recai agora sobre o professor: ficou mais fácil e barato seguir estudando, se o problema era acesso a cursos e materiais, isso praticamente acabou.

3. Organizar e dirigir situações de aprendizagem: Indubitavelmente, a capacidade de ensinar bem é uma nova competência porque o ofício de professor, conforme se sabe, não tem lugar nos dias de hoje. Inexiste padronização nos educandos: cada aluno vivencia de diferentes formas a aula de que participa. A nova ferramenta à disposição do educador consiste em conceber e criar situações de aprendizagem para envolver, diferenciar e criar situações que se traduzam em objetivos de aprendizagem. O professor deve dominar os saberes a serem ensinados, ser capaz de dar aulas, de administrar uma turma e de avaliar.

Enquanto o ensino medio transferiu para o online as aulas presenciais aparentemente com poucas baixas, o ensino das series iniciais com a pandemia se perdeu completamente, inúmeras escolas infantis estão fechando. Criar novas situações de aprendizagem sem haver contato entre professores e crianças exige enorme esforço. O risco é a padronização descer às series iniciais relegando o professor-educador à condição de técnico mais uma vez. Tomara que sejam rejeitadas as fórmulas prontas.

4. Administrar a progressão das aprendizagens: Conceber e administrar situações-problema ajustadas ao nível e às possibilidades dos alunos propiciam reflexões, desafios intelectuais e conflitos sociocognitivos. O professor deve dominar a formação do ciclo de aprendizagem, as fases do conhecimento e do desenvolvimento intelectual da criança e do adolescente, além de ser capaz de construir um sentimento de responsabilidade pelo conjunto da formação do ensino fundamental; observar e avaliar os alunos em situações de aprendizagem; fazer balanços periódicos de competências e tomar decisões de progressão; orientar os ciclos de aprendizagem: fazer interagir grupos de alunos com os dispositivos de ensino-aprendizagem.

A evolução da Inteligência Artificial ou recursos estatísticos avançados deve entrar nesta esfrea de atuação. Caberia ao professor participar dessa evolução.

5. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação: Administrar a heterogeneidade no âmbito de uma turma; abrir, ampliar a gestão de classe para um espaço mais vasto; proporcionar apoio integrado, trabalhar com alunos portadores de grandes dificuldades, sem todavia transformar-se em psicoterapeuta; desenvolver a cooperação entre os alunos e certas formas simples de ensino mútuo, criando uma cultura de cooperação por meio de atitudes e da reflexão sobre a experiência.

A diferenciação agora atingiu outras instâncias o que impacta diretamente em novos mecanismos de avaliação que tem que ser criados. Alunos tem equipamentos e conectividade em casa? Alunos tem disponibilidade dos pais para ajudá-los?

6. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho: Suscitar o desejo de aprender, oferecer atividades opcionais de formação, negociar com os alunos regras e outros acertos, por intermédio de um conselho eleito por eles; favorecer seus projetos pessoais.

O abandono escolar deve aumentar. NUnc afoi muito fácil equilibrar necessidades de formação com a motivação para estudar. Professores não tem mais como ficar de costas para os alunos nas telas do Zoom, pelo menos.

7. Trabalhar em Equipe: Motivar os alunos para que entendam que ninguém se sente bem “sozinho no comando”. O trabalho em equipe favorece o enfrentamento e a análise em conjunto de situações complexas e a administração de crises e conflitos interpessoais.

O trabalho em equipe no remoto funciona melhor do que no presencial, é minha aposta pessoal e porta de entrada de grandes oportunidades.

8. Informar e envolver os pais: Dirigir reuniões de informação e de debate, fazer entrevistas e envolver os pais na construção dos saberes. A participação é fundamental no processo de aprendizagem.

Pais nunca estiveram tão próximos das realidade escolar dos filhos como agora. A percepção dos pais sobre o trabalho dos professores ganha foco e intensidade, é aproveitar.

9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão: Prevenir a violência na escola e fora dela, lutando contra os preconceitos e as discriminações sexuais, étnicas e sociais, participar da criação de regras de vida comum referentes à disciplina na escola, às sanções e à apreciação da conduta; analisar a relação pedagógica, a autoridade e a comunicação em aula, desenvolvendo o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça.

Os dilemas éticos são ainda mais desafiadores para os professores. Há necessidade de se trabalhar questões ligadas a alfabetização informacional além do próprio letramento digital.

10. Participar da administração da escola: Não só os professores mas também o pessoal administrativo deve participar da gestão da escola, entendendo o projeto da instituição, aprendendo a administrar os recursos existentes não só na escola mas no seu entorno, com moradores, associação de pais de moradores, de forma a organizar e fazer evoluir, no âmbito da escola, a participação dos alunos.

Mudou a relação dos pais com a escola e a relação dos professores com os pais, por consequência, mudará também a relação dos professores com a própria escola.

Estas são ideias gerais, fragmentos a se desenvolver que merecem debate com os próprios professores.

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[1] PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar; trad. Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2008.

[2] CARNEIRO, C.D.R.; BARBOSA, R.; BACCI, D.L.C.; PIRANHA, J.M. 2020. Geologia como componente essencial na formação de professores. In: REIS, F.A.G.V.; KUHN, C.E.S.; CARNEIRO, C.D.R.; WUNDER, E. (Eds.) 2020. Ensino e Competências Profissionais na Geologia. São Paulo: Febrageo. p. xx-yy. (Cap. 4).

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