Para onde irá a ambiguidade humana se IA tomar conta de tudo?

O pintor espanhol Pablo Picasso [1881-1973] foi um dos maiores artistas do século XX. Tinha uma técnica incrível, pintou quadros fabulosos e inúmeros autoretratos. Mas o último quadro do Picasso foi motivo de piada à época: pintou a si mesmo de forma grosseira como o desenho feito por uma criança…onde foi parar a técnica de Picasso?…muitos perguntaram. Lembro desta história quando em uma coleção das mil obras-primas de arte mais importantes de todos os tempos (ver[1]), figura só um único quadro de Picasso e é exatamente o último autoretrato.

Os críticos reconheceram depois: o artista ao retratar a si mesmo diante do seu próprio fim, pintou o tempo !

A ambiguidade e as nossas fraquezas são parte da condição humana, manifestam-se em nossos erros e acertos, levam-nos ao inesperado, à ambiguidade e a criações geniais…resistirão à Inteligência Artificial (IA) em que tudo é calculado para buscar a “perfeição” ?

A IA vai lenta e silenciosamente tomando conta das atividades humanas: algoritmos predizem, sugerem e controlam nossas ações. Pense em atividades em que as habilidades dos computadores são determinantes: cálculos rápidos, busca, comparação de padrões, seleção de informações. Profissões que dependem dessas habilidades vão perdendo espaço para as máquinas: da área de Direito à Engenharia, da Arquitetura à Medicina. Isso só para mencionar as atividades e profissões mais prestigiadas, o que dizer de todas as outras.

O que será dos professores frente à Inteligência Artificial?

Quando se fala em IA na educação, confesso que para mim é vago o que poderá trazer de positivo para os professores: customizar o aprendizado para que o aluno controle o que precisa saber? …customizar o ensino para que o professor saiba com mais rigor o que o aluno ainda não sabe ? Isso cabe bem em turmas gigantes…turmas pequenas não precisam de IA para esse fim. Há um fator de escalabilidade embutido no discurso de IA na educação.

Quando ouvir alguém falar de IA na educação da próxima vez, preste atenção e observe que é ou um empresário da educação, ou um político ou um tecnófilo vendendo soluções de algum tipo…raramente será a fala de um professor.

Encontrei três exemplos no campo das artes em que os algoritmos não poderiam prever ou planejar…fogem ao padrão computacional:

#1 – Cena final do filme Dr. Strangelove (1964, dir. Stanley Kubrick)

#2 Clementina de Jesus cantando no Teatro Municipal de São Paulo:

#3 – Banda Ratos de Porão se apresentando no programa do Gugu:

Insisto em perguntar:

Algoritmos de Inteligência Artificial seriam capazes de programar ou predizer momentos geniais e históricos produzidos pela mente humana como estes ?

[1] Livro: 1000 Obras-primas da pintura, de Victoria Charles (editora WMF Martins Fontes).

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