Mercado de palavras na era digital: já pensou sobre isso?

Por meio da linguagem adquirimos novas formas de significar, de dar sentido, de nos conectar, coordenar, imaginar e aprender. Por isso grandes pensadores da cognição foram também pensadores da linguagem: de Jean Piaget à Paulo Freire, entre inúmeros outros. Em algum momento nas últimas décadas entrou em debate o uso de tecnologias digitais e outras áreas das Ciências Humanas. A mistura é necessária e bem-vinda.

Tecnófilos costumam ser péssimos filósofos e filósofos costumam ser péssimos tecnófilos.

E os pensadores mais inovadores da tecnologia foram ou são também críticos de mídia ou teóricos da linguagem, de Mark Bauerlein à Sherry Turkle; de Neil Postman à Seymour Papert e Marvin Minski; de Janet Murray à Douglas Rushkoff. A lista de pensadores digitais migrantes da área de Letras para a área de tecnologia é vasta.

Novas palavras

Uma vez que as tecnologias digitais condicionam novas interações entre as pessoas e o que elas fazem no mundo, as tecnologias digitais forçam a criação de novas palavras.

Vão aparecendo novos verbos associados a interações digitais tais como “tuitar”, “blogar”,”trolar”, “googlar” e novos substantivos tais como “youtuber”, “stalker”…

Ao mesmo tempo que novas palavras são criadas, as tecnologias modificam também o sentido das que existiam antes. Pense na palavra “perfil” ou na palavra “comunidade”, por exemplo. O sentido delas mudou desde que o Orkut foi criado. Depois que o sistema organizador de conteúdos do Orkut foi extinto, o novo sentido permaneceu associado à palavra.

A expressão “rede social” foi solapada de vez e virou sinônimo de Facebook. Recuperar o real sentido das coisas com as palavras adequadas a elas seria um exercício intelectual muito saudável de se fazer.

O Facebook ( ou mesmo a Google com seu sistema de anúncios) em lugar de rede social, por exemplo, poderia seria definido como um dos “imperios de modificação de comportamentos” (ver[1]).

Mercado de palavras

Anúncios no Google são vendidos por meio de palavras, isto é, palavras são as mercadorias. Como em todo mercado há uma dinâmica própria neste mercado, alguns itens/palavras são mais valiosos do que outros e isso pode variar…

Você pode testar isso usando a ferramenta Ngram Viewer, da Google que apresenta a frequência com que incidem determinadas palavras no acervo Google Books (ver[2]). Fornece uma ideia de quanto estão valendo as palavras no mercado. Mas melhor ainda é usar o próprio sistema de anúncios da Google, líder suprema do mercado de palavras.

A importância das palavras se dá pela frequência com que aparecem ou são buscadas, não pelo significado intrínseco delas, isso dá o que pensar, não acha?

Registro de palavras

Nessa gênese de novas palavras vão acontecendo distorções malucas pelo caminho. Por exemplo, algumas palavras, de forma nada incidental vão ganhando sentido religioso ou até divino.

Pense na palavra “seguidor”, por exemplo. Se você tem muitos seguidores é um “influenciador”, caminha pelo deserto virtual e as pessoas o seguem. Quanto mais seguidores, mais importante será (bom lembrar do outro filme, A Vida de Brian e a confusão com o Messias).

No limite, um influenciador de sucesso ou “pregador” de algum tipo de tecnologia pode alçar à categoria de “evangelista”. Se tiver sucesso, pode se tornar um evangelista da Microsoft (ver [2]).

Falta pouco para a tecnologia virar religião de uma vez!

Isso não é tão original assim e aqui me lembro de um paralelo curioso. Em um dos filmes da serie O Planeta de Macacos, a divindade era uma bomba atômica (Beneath the Planet of Apes,1970, dir. Ted Post).

E vamos nos acostumando com tudo isso.

Quando as buscas e anúncios no Google passarem a ser por sonsdesenhos ou aromas, novos mercados deverão se abrir. Vá reservando os seus.

PS: Nessa linha, uma das últimas expressões que causam estranheza para mim é pensamento computacional mas isso é tema para outro post…

[1] < https://www.youtube.com/watch?v=qQ-PUXPVlos&t=7s >

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