Afinal, para que servem as universidades ?

A visão mais comum que se tem sobre tecnologia é a visão intrumentalista, a de que nenhuma ferramenta é boa ou ruim, tudo depende do uso que se faça dela. É uma visão útil para quem cria tecnologia e também por quem a consome. Raramente empresas que desenvolvem tecnologia partem de preocupações filosóficas ou éticas, costumam deixar isso para um segundo plano (ver [1]). Afinal as empresas e pessoas querem resolver seus problemas e ponto final. É uma visão ingênua, ou nada ingênua, e não há neutralidade. Para haver algum debate ético sobre usos da tecnologia, é necessário ir além desta visão.

Diplomas Google

Recentemente foi noticiado que a Google entrou de vez no mercado educacional, quando na verdade ela está no mercado educacional faz tempo embora desta vez seja diferente. Em breve (outubro), a Google passará a oferecer cursos voltados para formar profissionais em seis meses de curso: analista de dados a gerente de projeto, de designer de interface a especialista em suporte de TI. É só o começo, muitos outros cursos virão.

Não são apenas cursos de curta duração, são cursos alternativos aos diplomas universitários, em concorrência declaradamente aberta. Enquanto os cursos superiores de tecnologia tem no mínimo 2 anos de duração no Brasil, os da Google durarão seis meses (ver [2]). A Google argumenta que os cursos tradicionais não estão dando conta da demanda, estão afastados demais da realidade e ainda que os melhores cursos são muito caros e, portanto, inacessíveis para a maioria dos estudantes.

Crescimento da Google na área educacional

Bom lembrar que a área educacional está sendo engolida pela Google já faz tempo e que tem sido alimentada pelas próprias instituições de ensino que agora começam a acordar. Começou anos atrás quando os sistemas de email das universidades públicas foram migrando para a Google. Estudantes universitários, de repente, viraram embaixadores Google dando palestras puramente promocionais em departamentos e institutos acadêmicos (vi alguns). Nunca vi ninguém protestar quanto a isso. Não haveria conflito de interesses?

Não à toa, com a crise trazida pela pandemia, as ferramentas de uso mais disseminado nestas instituições passaram a ser o GoogleClassroom e o Google Meeting.

O olho que tudo vê

A interferência da Google na educação atinge outros níveis escolares também. Antes limitada a parcerias um tanto pontuais com escolas particulares, agora está assumindo a área tecnológica de muitas escolas públicas de educação básica país afora por meio de suas ferramentas ditas gratuitas. Na sala de aula virtual, mediante controle de tarefas realizadas/não realizadas via Google Classroom,  é possível saber se os alunos estão participando das atividades ou não e ainda comparar o desempenho dos alunos, professores e escolas. Pode ser um instrumento valioso para gerenciar o ensino e mitigar evasão dos estudantes. Mas é uma ferramenta potente para cercear a autonomia do professor, obrigado a publicar as atividades padronizadas para não atrapalhar os gráficos e as métricas do sistema. A avaliação padronizada vindo de fora para dentro das escolas vencerá de uma vez por meio da Google.

Digressão: para que servem as universidades?

As universidades mais antigas do mundo tem cerca de 800 anos. É das poucas instituições projetadas para resistir às pressões externas. Servem para gerir conhecimento: criar, avaliar, manter e disseminar conhecimentos. Mas para que a universidade consiga realizar esses papeis, uma serie de condições são necessárias. Universidades precisam de autonomia pois é difícil prever com antecedência o valor potencial de conhecimentos novos. A universidade proporciona ainda à sociedade uma maneira segura de especular sobre o futuro, encorajando a investigação e o desenvolvimento de inovações que podem não trazer benefícios a curto prazo ou não levar a lugar algum, mas que precisam acontecer. Outro papel fundamental da universidade é a capacidade de desafiar pressupostos ou posições de agentes poderosos fora da própria universidade como governos ou a indústria quando em conflito com evidências ou princípios éticos ou ainda com o próprio futuro da sociedade. A liberdade acadêmica permite que se faça perguntas importantes e embaraçosas a governos e corporações. Assim, o ensino universitário está ligado a uma noção de liberdade, crítica e de autonomia que são imprescindíveis para o desenvolvimento das sociedades (ver [3] e [4]).

Mas sejamos realistas…

Você acha que a questão de autonomia e liberdade acadêmica tem algum interesse para empresas que valem 1 trilhão de dólares ? ?

Voltando ao conflito diploma-Google versus diploma universitário, pode-se argumentar que os professores queiram resguardar seus empregos relativamente confortáveis e estáveis nas universidades públicas ou que esteja na hora das instituições de ensino superior se reinventarem e se preocuparem mais em dialogar com o mercado de trabalho. Tudo isso tem seu fundo de verdade.

Mas a formação deveria estar voltada somente ao mercado de trabalho ? Vai ter emprego para todo mundo? Vamos todos trabalhar na Google?

E quanto às instituições de ensino particulares, estão preparadas para concorrer com a Google daqui para frente?

—-

PS: se você se interessou por este tema e gostaria de aprofundá-lo, recomendo a leitura do livro de Nicholas Carr do qual extraí um trecho dedicado exatamente à Google e seus efeitos:

[1] Nicholas Carr: What the Internet is doing to our brains

[2] https://www.sunoresearch.com.br/noticias/google-diploma-concorrencia-universidades/

[3] https://opentextbc.ca/teachinginadigitalage/

[4] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/por-que-universidades-sao-importantes#10

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