Só com seu CPF já sabem tudo sobre sua vida digital!

Achei um candidato para vereador na minha cidade que se apresentou como Professor Ronaldo. Por sorte não era eu e o candidato recebeu apenas um único voto. Piada pronta, divertido brincar me fazendo passar pelo candidato nas minhas redes.

Em uma postagem no Facebook, agradeci com ironia o grande apoio do eleitorado. Disse que embora tivesse recebido só um voto, o importante é que tinha sido um voto de coração. Postei a seguinte imagem que é legítima e que tirei do site UOL Eleições:

Em questão de minutos algumas pessoas reagiram. A maioria entendeu a piada mas nem todo mundo, alguns conhecidos não entenderam. Meia hora depois tinha gente me questionando se era verdade mesmo que eu tinha sido candidato, porque razão tinha recebido só um voto, etc. Ao ter que me explicar, perdeu a graça para mim e tirei a postagem do Facebook.

As redes sociais tem um poder que ainda não conhecemos bem

Comportamento nas redes

Questão freudiana a se desvelar, a forma como as pessoas usam as redes sociais diz muito sobre elas. Inegável que desfile o que temos de raso, nossas fraquezas disfarçadas e nossa vaidade. Na rede-ostentação tem espaço para o carro novo, o feto no útero, a promoção, a viagem, a namorada, o filho, o gato que morreu, o novo emprego incrível, o prato de macarrão…em qualquer ordem. Em tempos de boçalidade federalizada, parece que pega mal não ostentar de vez em quando.

O que diriam grandes figuras históricas do passado sobre redes sociais? E os personagens dos romances?

Segundo o historiador Leandro Karnal, Hamlet seria hoje o anti-facebook. Para o heroi shakesperiano, etiqueta não tem nenhum valor, o importante é o que você é e não o que aparenta.

Mas por outro lado, publicar algo opinando sobre algum tema serio (qualquer opinião) é caminho curto para ser mais perseguido do que ignorado. Um enxame de reações agressivas é a resposta para qualquer postagem um pouco mais polêmica ou opinativa. Entre ser perseguido, ignorado ou mostrar ao mundo como se é feliz e bem-sucedido, ainda que de mentirinha, quase todo mundo opta por este último caminho.

Internet Ad aeternum 

Sabemos pouco sobre as redes. E temos pouca ideia de como operam seus algoritmos mas sentimos os efeitos do poder que acumulam e de como se apropriam de nosso poder de escolha (ver [2]).

A ideia de tempo e, portanto, de memoria é diferente para as máquinas e isso nos confunde no uso das redes. Não há tempo para as máquinas, tudo é o agora. Daí ter que estar disponível o tempo todo virou regra do jogo. A privacidade das pessoas, subjetividade ou mesmo memoria ou esquecimento não está na agenda dos algoritmos.

O que publicamos ou fazemos na Internet é registrado e os rastros ficarão para sempre em alguma parte da rede.

Seria bom esclarecer junto aos estudantes que aquilo que eles postam nas redes não sairá de lá nunca mais (ver [3]).

A carreira de uma pessoa pode ser destruída pelo que ela postou em algum ponto lá atrás no passado. A foto vexatória da festa de formatura, o e-mail agressivo ou o post maluco…nada disso que um dia entrou na rede está necessariamente apagado, pode estar enterrado em algum ponto da rede como uma ossada que um dia será revelada. E é só questão de tempo: a rastreabilidade de tudo que se publicou ou se publica na Internet só aumenta, algoritmos de pesquisa estão cada dia mais poderosos e essa nova forma de arqueologia passou a valer muito dinheiro, de uma forma ou de outra.

Saber tudo de uma pessoa só com o CPF dela

Recentemente um amigo me mostrou um serviço da Internet que destrincha a vida de uma pessoa como uma laranja: onde trabalhou, onde morou, quais as placas dos carros que teve (sim, isso mesmo!), que redes sociais frequentou ou frequenta, quem são seus seguidores, quem segue, etc…Parece cena de filme policial. Aliás, de certa forma dá poder de polícia a qualquer um.

Quer lembrar as placas dos carros que teve? Consulte a Internet !

Curiosamente não é considerado um software de uso ilegal, diga-se. É um agrupador de informações pessoais usado por muitas empresas de crédito e RH, por exemplo. Sem login/senha, devassa inumeros sistemas de informação e o resultado é assustador.

Em uma das formas de utilização, basta saber o CPF para invadir como uma escavadeira a vida da pessoa.

Veja o vídeo abaixo sobre o software Maltego , lembrando que existem outros vídeos similares e outras ferramentas.

Seria bom saber onde fica a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) frente a esse tipo de ferramenta. Não sei a resposta.

Mas ensinar as pessoas a lidar com informação no mundo digital, sobretudo aquela que diz respeito a sua própria vida deveria estar na pauta educacional. Evitar se expor demais ou revelar o CPF por qualquer motivo, seria uma das primeiras lições.

É questão de tempo para o candidato real monovoto que citei no começo vir atrás de mim. Mas não votaria nele não.

[1] < https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/eleicoes/2020/noticia/2020/11/17/candidato-a-vereador-faz-campanha-com-numero-errado-e-so-descobre-na-hora-da-votacao.ghtml >

[2] < https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/miguel-nicolelis-nossa-forma-de-aprender-e-por-meio-do-contato-social/ >

[3] < https://archive.org/ >

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