Tempo de refletir: como éramos e o que nos tornamos depois

É fascinante olhar como as crianças se comportam quando não estão sendo controladas pelos adultos e estão longe da tevê e das telas eletrônicas. Visite uma escola infantil e observe como as crianças, quando ainda bem pequenas, são totalmente diferentes umas das outras. Tem em comum uma curiosidade incansável, a alegria e o gosto por querer aprender o tempo todo. Até que chegam os adultos e querem ensinar e controlar. Crianças felizes atraem adultos autoritários que querem controlar as crianças. Quando não conseguem, as crianças se refugiam em algum lugar, quando estão em casa o refúgio é na televisão ou no celular. Bom lembrar que muitos celulares são fabricados graças ao trabalho escravo de…crianças a partir de 5 anos !

O Menino no Espelho

Já imaginou se, enquanto crianças, pudéssemos nos encontrar com nossa versão adulta e vice-versa? O escritor Fernando Sabino [1923-2004] testou esse argumento em um romance chamado O Menino no Espelho. Ver [1]. O encontro se dá no início e no final do livro.

O que determina o que nos tornamos depois?

Difícil responder, não é só a escola ou a família, talvez tenha a ver menos com aprendizado de conteúdos e mais com emoções e auto-controle, que desconheço de onde vem.

Em um experimento clássico de Psicologia, um pesquisador colocou um prato de doces diante de crianças de 4 anos de idade, explicou que precisava sair da sala por um momento e que, quando retornasse, se os doces ainda estivessem ali, cada criança receberia dois doces, em vez de um. Resultado: um terço das crianças atacou os doces imediatamente, um terço tentou se conter mas acabou sucumbindo em vários estágios e o último terço conseguiu esperar pela recompensa em dobro. O mesmo grupo de crianças, então adultos, foi pesquisado muitos anos depois para ver o que estavam fazendo. Aqueles que controlavam melhor as emoções quando pequenos, haviam se saído muito melhor nos campos social e educacional. O terço dos mais afoitos desenvolveu problemas com drogas e álcool.

Conclusão possível: se sabemos resistir ao desejo desde pequenos, podemos ter gratificação maior depois.Ver [2].

Outros fatores tem enorme participação em nossa formação: carga genética, ambiente social, tudo aquilo que a neurociência explica, e claro, a escola…

Mas via de regra, vamos combinar, o adulto é uma versão piorada da mesma pessoa em versão criança. Pelo menos era o que pensava o escritor Alexandre Dumas [1802-1870] inconformado que estava com a estupidez dos adultos a sua volta. É dele a famosa frase:

Como é que, sendo as crianças tão inteligentes, a maior parte dos homens é tão estúpida? Deve ser fruto da educação!

Onde foram parar os melhores alunos da sala?

Agora ficou muito fácil bisbilhotar a vida dos outros, dado que a maioria das pessoas está com a vida escancarada nas redes sociais. Basta lembrar o nome e mais algum detalhe específico e pronto, sabe-se tudo sobre o que aconteceu com qualquer um. Descobre-se até quantos filhos tem hoje aquela sua paquerinha da 6a. serie.

Irá confirmar, provavelmente, que sucesso acadêmico não é sinônimo de sucesso pessoal ou profissional porque encontrará contra-exemplos aos montes.

Quando à vida escolar, fico pensando se a gestão da memória não apenas sobre o que aconteceu na escola mas sobre a própria escola e o destino de seus alunos, não deveria ser mais valorizada. Caberia alguma gestão do conhecimento: experiências que aconteceram, atividades que deram certo, outras que fracassaram, porque alguns alunos se tornaram pessoas realizadas e a interferência da escola nisso, enquanto outros ficaram pelo caminho. Com isso, alguma noção de melhoria contínua poderia compor a formação da instituição escolar.

Em geral a escola evolui pouco porque não registra, não reflete ou não mede, seu próprio desempenho. As novas experiências parecem não aproveitar o que aconteceu antes, como na mitologia de Sísifo (subir e descer a montanha com a rocha, eternamente).

Minha vida, minha escola

Parar tudo e pensar no que estamos fazendo com nossas vidas (e com as vidas das crianças que fomos e o adulto que nos tornamos) é mais do que fazer promessas vazias de Ano Novo. Não é perder tempo… é olhar para trás e para frente, o que, em si, é parte de nós.

Mas depende de se conseguir abrir a porta de um templo interior. As chaves não estão nas series de tevê, nas redes sociais ou no celular!

Desta vez teria que ser diferente afinal entraremos em um túnel pandêmico em 2021 sem saber o que nos espera na outra ponta…

Sugiro um filme que considero maravilhoso…tem algo a ver com tudo dito até aqui. Feliz 2021!

[1] https://medium.com/@pisi774/o-menino-no-espelho-fernando-sabino-ac30678718ab

[2] Livro: A Era da Loucura, de Michael Foley

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