5 mitos sobre desenvolvimento

Os estudos de mitologia comparada são belíssimos. Você aprende que existe uma raiz comum a todas as culturas e religiões. Aprende que as grandes questões do ser humano são ancestrais: o que somos, porque somos, o que buscamos…Não importa a época ou o lugar, geração após geração a humanidade volta-se a estas mesmas questões por meio de símbolos e narrativas de diferentes mitologias. Sobre este tema, confira o que puder do escritor Joseph Campbell [1904-1987], vai mudar sua visão de religião e, talvez, de mundo (ver [1]).

Mas na linguagem do dia a dia, usamos a palavra “mito” em um sentido mais simples. Usamos quando nos referimos a uma super celebridade que de tão celebridade, não coube em si e passou a ser consideradas um “mito”. Ou “mito” usado no sentido mais vulgar, de mentira.

Os mitos (no sentido da asneira mesmo) aparecem e desaparecem com certa regularidade. Mas alguns se fixam em algumas áreas, são repetidos à exaustão até que viram “verdade”, sem carregarem simbolismo algum e dos quais esquecemos tudo, até de onde surgiram, mas vez por outra, repetimos.

Mitos clichês dos treinamentos

Apresento aqui alguns mitos difundidos em escolas e ambientes de treinamento. Existem muitos outros mas vou ficar apenas em cinco deles:

Mito #1: Só aproveitamos 10% do nosso cérebro

Porque é um mito: o cérebro ocupa de 2 a 3% do peso do nosso corpo, mas consome 20% do oxigênio que respiramos. Em termos evolutivos, fica difícil acreditar que a natureza teria projetado um órgão para ser tão subutilizado. Se foi, deveríamos voltar à condição de poeira de estrelas.

Observação: porcentagem por porcentagem, 6% dos neurocientistas acreditam neste mito. Ver [6].

Mito #2: Estilos de aprendizagem e as porcentagens

Descrição do mito: aprendemos muito mais tendo experiências próprias, depois compartilhando experiências com os outros, e depois, no mínimo, fazendo cursos formais.

Porque é um mito: tem seu fundo de verdade, como todo mito, mas o mito está nas porcentagens…de onde elas vieram? Não há evidências! O que importa é saber pensar, de uma forma ou de outra. Ver[5].

Mito #3: Estilos de aprendizagem: [fazer/ ver/ ouvir ]

O que diz o mito: é parecido com o anterior mas este mito carrega uma pergunta: _Qual o seu estilo de aprendizagem? Algumas pessoas aprendem melhor por meios visuais, outras escutando, outras fazendo…

Porque é um mito: existem dezenas de outros estilos que podem ser apresentados, ainda não se provou que uma pessoa seja de um ou de outro estilo. É fato que algumas pessoas se lembram mais do que ouviram e outras se lembram mais do que viram, mas essa é discussão de outra especie. Ver [4] e [5]. Bom lembrar que teorias importante viram mito quando são distorcidas para virarem receitas e passam a ser mal interpretadas, como a teoria de Gardner sobre inteligências múltiplas, por exemplo.

Mito #4: Pirâmide do Aprendizado

Porque é um mito: mais um caso típico em que ninguém sabe de onde veio a pirâmide ( temos fixação por pirâmides desde o antigo Egito). O órgão que se diz autor da teoria (NTL – National Training Laboratories), alega atualmente que perdeu os dados da pesquisa. Considera-se que figura seja baseada em outra figura, esta voltada para o acúmulo de experiências, do autor Edgar Dale, de 1946. Na versão original a figura não tinha porcentagens. As porcentagens que aparecem foram totalmente inventadas, assim como a relação com métodos de aprendizagem ativo/passivo que alguém achou bacana agregar à figura. Ver [3] e [4].

Mito #5: Pirâmide de Maslow

Este é um mito campeão!

O que diz o mito: existiria uma escala de necessidades humanas que é atendida da base até o topo, conforme a descrição da figura. 

Porque é um mito: existem várias pirâmides diferentes referenciadas como pirâmides de Maslow, com diferentes faixas e atribuições, o que indica que poucos conhecem bem a teoria. O psicólogo Abraham Maslow foi um pesquisador serio mas nunca disse que a base era a mais importante do que o topo como muitos pensam e a figura sugere. Ele fez muitas outras figuras além desta. Passados vinte anos da publicação, o próprio Maslow publicou outro artigo dizendo-se surpreso por não ter sido questionado, uma vez que ele próprio considerava que a figura piramidal estava errada. Parece que não queria ser lembrado por isso e até se arrependia dela. Para entender a teoria é preciso ir muito além da figura que vemos por aí. A teoria não é bem representada pela figura, o que faz dela um mito .Ver [4], [5] e [6].

Conclusões

Sem base científica, certas “verdades” são somente mitos. Uma imagem pode ser atraente e até convencer muitas pessoas mas isso não basta. Muitos acreditarem em algo não basta para fazê-lo verdadeiro. Você pode dizer que temos cientistas de um lado e do outro, aqueles que afirmam que existem inteligências múltiplas ou inteligência emocional e outros, no extremo oposto, que dizem que não, não existe nada disso. A polêmica é essencial mas com base em estudos reais e em uma ciência real. O açúcar já foi o vilão número 1 da saúde, hoje deixou de ser.

Exigir das pessoas em cursos e treinamentos alguma base comprobatória do que dizem não está errado, afinal na era da superficialidade, buscar evidências tornou-se necessário. A ideia aqui foi apenas mostrar que mitos convencem e estimulam a cegueira intelectual tomando lugar das perguntas certas que deveríamos fazer… do tipo de onde vem esses dados?

____

Em tempo: A pandemia nos faz lidar diariamente com mitos diversos (magia da cloroquina, ineficácia de afastamento social, a não necessidade de uso de máscaras…). Mitos também matam, já passamos a marca de 200.000 !

—-

Referências:

[1] < https://www.jcf.org/ >

[2] < https://www.youtube.com/watch?v=kFzT03JL9X0 >

[3] < https://br.pinterest.com/pin/738449670122305824/ >

[4] < https://www.youtube.com/watch?v=E7qthFaegy0 >

[5] Livro: Urban Myths about Learning and Education – de Pedro de Bruyckere

[6] < https://files.eric.ed.gov/fulltext/EJ1094203.pdf >

3 comentários em “5 mitos sobre desenvolvimento

  1. Excelente informação. Eu já conhecia todos esses mitos e acreditei neles porque
    foram compartilhados por “especialistas”. Interessante como mesmo pessoas de alta qualificação profissional acabam caindo na armadilha. E como ainda somos muito ingênuos com informações que recebemos. Eu fiz uma análise parecida esses dias, sobre a figura de um contrato de trabalho de professora, de 1923, que vem sendo compartilhada nas redes. Me parece que é um mito também.

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    1. Muito obrigado, Tatiane, pela leitura e comentários. Veja como nós, professores, também divulgamos fake-verdades, sem perceber. Abraço

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