Engolimos plástico. Eu e você.

O filme WALL-E é, de longe, o melhor filme de animação que já assisti. Depois de tornar o planeta Terra inabitável de tanto gerar lixo, os habitantes do planeta dão o fora daqui e passam a viver em uma gigantesca espaçonave da empresa Buy-n-Large, cujo lema é “Tudo, todo o tempo”. Os ocupantes da nave tem todo tipo de conforto material, consomem à exaustão, mal precisam se mexer. Mas estão solitários, entorpecidos, meio loucos…a ilusão de felicidade não poderia durar muito tempo. É um filme nada inocente, com uma bela mensagem ecológica.

Lego no corpo

Ingerimos plástico sem perceber e não é pouco. O equivalente a um pequeno tijolo de lego por mês (ver [1]). Nesse ritmo, uma pessoa com 40 anos já teria engolido quase um kit de lego inteiro. Mas os plásticos não estão só no que engolimos, eles estão cada vez mais fazendo parte de nós, e não há metáfora nisso.

Cientistas encontraram microplásticos em uma amostra de placenta humana(ver [2]). Na prática, isso significa a possibilidade, sem exagero, de mutações cromossômicas no ser humano…o advento do homem de plástico, como dizia a velha música do Show da Vida das noites de domingo, parece que vai virar realidade (ver [3]).

Recicláveis não reciclados

Quem separa lixo reciclável em casa tem com o que se espantar. Mesmo uma pessoa que more sozinha ou um casal, gera em media, mais de meio metro cúbico de lixo reciclável por semana. No imaginário dos separadores domésticos mais descolados e otimistas, o lixo reciclável vai para pequenas cooperativas que fornecem materia prima para a fabricação de óculos, quadros de bicicleta e blusas de moleton. Pena que não é assim. Não existe esse mercado de moletons de material reciclado, armações de óculos e coisas do tipo…se existe ainda é muito incipiente e continuará sendo por décadas. Parcela centesimal de lixo gerado nas casas é reaproveitada (ver [5]).

E como a maioria das pessoas sequer separa o lixo em suas casas, quase todo o plástico acumulado vai direto para os lixões. O esgotamento dos aterros sanitários faz com que alguns municípios do interior de São Paulo vendam lixo uns para os outros.

Agora que engolimos e processamos plásticos, o lixão somos nós mesmos.

O crime ambiental nosso de cada dia

No domingo você vai na praça e paga R$ 5,00 por um suco que vem em uma inocente garrafinha plástica. Leva 180 segundos para tomar o conteúdo, se tomar devagar, mas a natureza levará dois séculos para degradar a embalagem. Na verdade, não se sabe quanto levará, fala-se até em 400 anos (ver [3]). Não se sabe porque o primeiro produto plástico fabricado ainda não se degradou, não temos a medida.

O primeiro brinquedo de plástico fabricado no mundo ainda está por aí nos assombrando. É maldição da AnneBelle que tem mesmo seu fundo de verdade.

O escritor Douglas Rushkoff diz que precisamos nos tornar observadores de fluxos e reconhecedores de padrões em nossas realidades locais e comunidades. Só assim podemos começar a ter alguma noção do que está acontecendo além de nossa experiência imediata (ver [4]).

Recentemente, um vídeo correu a Internet mostrando um tsunami de plásticos na Praia de São Conrado, no Rio de Janeiro. O filme correu o mundo…péssimo exemplo para a humanidade.

Quanto mais garrafas pet consumimos, maior o tsunami. Temos que ser apanhados pelo tsunami para acordar? Quem se responsabiliza ?

Se você não pode medir, não pode gerenciar

É atribuído a Peter Drucker, o guru da gestão, a famosa frase de que o que não se pode medir, não se pode gerenciar. Dito de outra forma, se não quantificamos o que acontece, não temos como atuar. Não que a quantificação por si resolva, mas por meio dela passamos a nos preocupar, nos incomodamos e passamos a querer agir.

Uma ideia

Tire a balança do banheiro e coloque na área de serviço. Em vez de se pesar, pese seu lixo. Comece a pesar quanto de lixo plástico você gera. Conte quantas embalagens plásticas você gera por dia/semana/mês. O esforço valerá mais do que plantar árvores.

A cada ciclo, antes de levar a caixa/saco plástico para o descarte, jogue no chão da sala todo o lixo reciclável que acumulou naquele período. Com o tempo, acho que o lixo tenderá a diminuir.

A foto abaixo é de 3 dias de “ajuntamento” de lixo na minha própria casa. Joguei tudo no chão da sala. E comecei a medir/pesar/contar. A turma dos polímeros assusta.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Você e eu precisamos gerar menos lixo, é obvio. A espaçonave do Buy-n-Large nunca existirá ou só existirá para os muito ricos.

[1] Cientistas acham microplásticos em placenta humana pela 1ª vez… – https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/ansa/2020/12/10/cientistas-acham-microplasticos-em-placenta-humana-pela-1-vez.htm?cmpid=copiaecola

[2] Ingerimos um lego https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/12/ser-humano-ingere-a-cada-mes-um-tijolo-de-lego-por-meio-de-microplasticos.shtml

[3] < https://www.ecycle.com.br/8207-tempo-de-decomposicao-do-plastico.html >

[4] Team Human, livro de Douglas Rushkoff

[5] < https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/01/16/campinas-recicla-6percent-do-lixo-em-ecopontos-e-prefeitura-ve-indice-abaixo-do-esperado.ghtml >

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