Startups fabricam palavras. Eu pivotei isso

A arte é parte da cultura mas grandes obras de arte mudam a própria cultura. O filme A Laranja Mecânica (1971, dir. Stanley Kubrick), inspirado no livro homônimo de Anthony Burgess, é exemplo disso. Mas tem um detalhe no livro/filme que causa estranhamento e incomoda muito no início: a linguagem dos personagens.

Adotam uma especie de gíria adolescente (chamada nadsat) que combina palavras de diferentes idiomas: russo, eslavo, alemão… Você descobre o que significam pelo contexto em que aparecem (no livro tem um glossário nadsat no final, ali é mais difícil de acompanhar).

Por exemplo, na cena em que os quatro personagens planejam o programa que farão depois, o lider Alex, protagonista, diz o seguinte:

_E lá estava eu, Alex, e meus três medicamentos Pete, Georgie e Dim, e estávamos sentados no bar de laticínios Korova, tentando decidir com nossos funis o que fazer à tarde. -Alex.

Inventar palavras

Inventar palavras é divertido e trocadilhos com palavras devem ser uma das formas de humor mais antigas que existem. Está na literatura grega clássica e na obra de Shakespeare, por exemplo.

Crianças também adoram inventar palavras. Um erro comum dos adultos é ficar corrigindo as palavras que as crianças inventam.

_Primeiro, Segundeiro, Terceiro, Quarteiro…assim a pequena L. de quatro anos, foi aprendendo o sentido de numerais ordinais.

Com o tempo, vamos perdendo a coragem com as palavras novas, o número de palavras que conhecemos se estabiliza, a menos que você estude outro idioma.

Startups são usinas de palavras

Participei de algumas reuniões de empresas startups e é engraçado o que fazem com as palavras. Pensei que daria um estudo então comecei a anotar o que ouvia. É a explosão de estrelas do neologismo moderno.

Algumas frases que ouvi estão abaixo…entender o que está sendo dito, nem sempre é fácil. Aqui vão algumas frases:

1 – Escapamos no último report.

2 – Precisamos ver o pipeline de entrevistas.

3 – By the way é isso que acontece.

4 – Entendo o push do André mas e daí?

5 – Tem o go fast mas precisamos mudar o farol.

6 – A gente vai empurrar a data de start.

7 – Esse assunto ainda está no meu to do.

8 – Não consegui organizar o nível de assesment que me pediram.

9 – Se entra no canal de organic, precisamos conversar.

10 – O Leo pode dar um overview com base na dashboard.

11 – Já recebi o primeiro dev.

12 – É preciso dar o input nos primeiros passos.

13 – Precisamos planejar diferente para o próximo take.

14 – É preciso escopar melhor depois.

15 – A gente pivotô e tem o bolo para dividir fifty-fifty.

16 – Trabalhamos como accent da empresa.

17 – Vamos começar a dar um fade out neste assunto.

18 – O ideal seria caminhar no modelo safe.

Claro que algumas palavras foram apenas incorporadas do Inglês no sentido original mas outras adquirem um terceiro sentido. Há um hibridismo maluco nessa mistura. Repare bem nos itens 14,15 e 16.

Na obra de Anthony Burgess, a ideia da gíria foi causar certo estranhamento e mostrar a alienação dos personagens. Nas startups, a razão porque fazem isso, já não sei. 

Preciso escopar isso para pivotar depois.

[1] http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br/index.php/revistamosaico/article/view/634

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