Curso on-line pode ser tão bom quanto um curso presencial?

Se você comparar os valores das mensalidades de cursos universitários de um ano atrás (início de 2020) com os valores atuais (fevereiro de 2021), vai se espantar. Os valores, em media, caíram pela metade ou até menos para quem está ingressando nos cursos: o mercado mudou completamente. Muitas pequenas instituições de ensino lutam agora para sobreviver, enquanto grandes grupos educacionais demitem professores e investem pesado em tecnologia e marketing para “escalar” as vendas já que o ticket baixou, vale tudo.

A separação que havia antes da pandemia que distinguia ensino presencial e EAD se dissolveu. O on-line misturou-se ao presencial. Aliás, ninguém mais lembra que EAD existia muito antes dos computadores, em cursos por correspondência, por exemplo. A sigla EAD tende a desaparecer e com o afastamento social, o presencial “puro” também foi embora. Não voltará.

Por outro lado. as pessoas precisam estudar de uma forma ou de outra. Será que a sociedade resolveu a charada da educação investindo todas as fichas em cursos on-line?

Para tentar responder, vale refletir se cursos on-line podem ser tão bons quanto cursos presenciais tradicionais.

Para começar, um bom curso on-line é superior a um curso presencial ruim, parece óbvio.

Mas será que um curso on-line de alta qualidade pode ser tão bom quanto um curso presencial de alta qualidade ?

Um modelo de comparação

Um curso presencial ou on-line pode ser interpretado de acordo com três dimensões, de acordo com o que um estudante faz ou recebe (ver [1]):

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Em qualquer contexto, os estudantes precisam: (i) receber informações, (ii) realizar experiências e (iii) refletir sobre o próprio aprendizado. Colocado dessa forma, o modelo atende a um amplo espectro de situações de ensino e aprendizagem presentes em cursos de qualquer nível e de qualquer área.

Bom lembrar que no aprendizado passivo tradicional só interessa “Receber informações e ideias” e praticamente não há espaço para “Experiências” e “Reflexões”. Já no aprendizado ativo entram claramente as três dimensões operando de forma harmônica, com ênfase muito maior em Experiências e Reflexões. A melhor combinação gera o melhor aprendizado ativo mas isso varia (fatores situacionais), se estamos falando de um monge em um templo ou se estamos falando de um jovem ultraconectado à tecnologia desde que nasceu (ver [3]).

Voltando… como fica a comparação entre o presencial e o on-line? Olhando cada uma das dimensões em casos extremos: presencial com livro texto mais professor palestrante (aprendizado passivo) e, na outra ponta, curso on-line enriquecido com momentos síncronos e assíncronos somado a muito esforço e criatividade por parte do professor.

Dimensão 1: Receber informações e ideias

O aprendizado on-line é igual ou superior ao tradicional porque toda forma de conteúdo pode ser postada e derivada da Internet. As fontes de informação são muito maiores e variadas do que em um livro-texto tradicional. As fontes são também atualizadas, podem ser ricamente ilustradas com áudios, vídeos, animações, simuladores, entrevistas…tudo disponível a qualquer um, a qualquer hora.

Dimensão 2: Reflexões

Estudantes podem refletir na velocidade e profundidade que quiserem, podem compartilhar e discutir de inúmeras maneiras. Há pesquisas que mostram que estudantes intovertidos no presencial conseguem se sobressair no espaço on-line quando na forma escrita (ver [2]). Em resumo, no on-line, pelo menos em tese, os estudantes podem pensar e ter tempo de compor ideias antes de discutir os temas. Isso não tem a ver com encontros síncronos ou ferramentas de mensagens de voz instantâneas, é o pensar antes de escrever.

Dimensão 3: Realizar experiências

on-line permite certa riqueza de experiências embora mediadas por computador. Podem ser diretas ou por observação. Ocorrem fora da sala de aula mesmo porque não há sala de aula. Mas pode ser equiparada ao da sala de aula tradicional também: estudos de caso, simulações, jogos, são inúmeras as possibilidades. Basta o professor pesquisar, ter autonomia e,de novo, criatividade nas propostas.

Recentemente temos acompanhado em tempo real as imagens de Marte, por exemplo, quase em tempo real. Um professor de Geologia poderia solicitar aos alunosque analisarem a Geologia de Marte por meio dessas imagens. Isso não é interessante?

Bom lembrar que dependendo do curso, há serias limitações inclusive legais. Na área da Saúde, por exemplo, a simulação do contato com o paciente está longe da realidade embora haja progressos notáveis nesse sentido também.

Quase conclusão

O aprendizado on-line é forte em prover informações e ideias e adequado para diálogos reflexivos. Não é trivial prover experiências no on-line que sejam significativas embora muitos progressos estejam acontecendo. À medida que professores forem encontrando caminhos para fazer isso mais efetivamente, o bom ensino on-line pode ser comparado ao ensino presencial, sem remorso algum. Mas o curso on-line ruim é ainda pior do que o presencial ruim, como tentarei demonstrar…

Aula invertida

Na prática, os cursos híbridos poderiam combinar o melhor dos dois mundos: do on-line e do presencial. A tendência é haver cada vez menos encontros presenciais face a face e tais encontros cada vez mais dispensáveis.

A ideia de aula invertida se encaixa bem aqui: usar o on-line para prover informações e ideias (isto é, o conteúdo) e ricas discussões durante e após experiências presenciais. O aluno começa estudando sozinho e na sequência, no momento de experiência presencial ocorrem vários tipos de aprendizados, por exemplo, o de desenvolver trabalhos em grupo sobre estudos de caso, simulações, problemas reais, etc. Com o afastamento social, há de se trabalhar em grupos no on-line. (ver [3]). Isso é complexo, exige suporte da instituição, preparação previa detalhada.

Realidade… aqui sim a conclusão

Infelizmente, o ensino híbrido que mais se vê no mercado hoje é baseado na passividade, o da valorização do ensino e da desvalorização do aprendizado. O curso on-line ruim é, seguramente, pior do que o presencial ruim.

É o modelo em que só importa a Dimensão 1. Nessa visão, mais vale baixar o preço para “escalar” as vendas do que verdadeiramente apoiar o aluno em aprender. Experiências e Reflexões pouco significam e a legislação ainda não tem como intervir, sem contar a desculpa de que “cada um aprende a seu jeito”. Passa o curso, o aluno esquece tudo mas tem um diploma.

No on-line da passividade acontece assim, usando o mesmo modelo anterior:

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Aí fica baratinho mesmo para todos: o estudante fica sócio por um tempo limitado de um varal digital de conteúdos, não interage com ninguém, não reflete sobre coisa alguma…aprende pouco ou quase nada até o dia em que pega o diploma.

Bom evitar para não ter que começar tudo de novo…

[1] Bonwell, C. C., and Eison, J. A. 1991. Active Learning: Creating Excitement in the Classroom. ASHE-ERIC Higher Education Report, 1. Washington, D.C.: George Washington University.

[2] PALLOF, R.; PRATT, K. O aluno virtual: um guia para trabalhar com estudantes on-line. Porto Alegre: ArtMed: 2004.

[3] FINK, L. D. (2019). Creating significant learning experiences: An Integrated Approach to Designing College Courses. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.

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