Como engajar alunos no on-line ?

Engajar alunos em aula é desafio tão antigo quanto as próprias escolas. Gravuras medievais retratam alunos dormindo, conversando ou distraídos enquanto o professor está falando.

Bom lembrar que isso em si não é um problema para o professor e pode até que se deseje que seja assim. Muitos professores preferem que os alunos não participem porque tem uma programação de aula apertada para cumprir, o debate de assuntos colocaria tempo e conteúdo em risco e até a própria autoridade do professor. Tem também o pior dos riscos que é tornar público que os alunos não estão entendendo nada.

Mas se o objetivo da aula é o aprendizado do aluno (e para isso ela serve) seria bom que o aluno participasse do evento-aula, não é mesmo?

Inúmeros autores apontam que participar de discussões, ter experiências significativas (diretas e indiretas) e refletir sobre o próprio aprendizado, são condições necessárias para o aprendizado significativo, aquele que fica no aluno após o termino do curso (ver [3]).

Nos cursos presenciais, os desvios de atenção com os quais estávamos acostumados eram basicamente conversas com o colega sentado ao lado ou uso do celular,…o professor podia intervir. Sem o face a face do presencial, na tela do computador o aluno tem um clique de botão para aparecer/desaparecer e então fazer o que quiser enquanto o professor está explicando.

E se o aluno não aparece ao vivo na tela, o professor não tem como saber nem mesmo se ele está “presente”ou fazendo qualquer outra coisa. O aluno pode estar rindo da própria aula com os colegas pelo celular ou estar longe do computador. E mesmo que o aluno apareça em algum canto da tela e com a câmera aberta, pode estar olhando e ouvindo qualquer outra coisa ao mesmo tempo.

A turma do fundão é a turma da câmera fechada ?

No presencial, existe o mito antigo de que os alunos mais interessados sentam na frente, enquanto os menos interessados sentam no fundo, a famosa turma do fundão. Mas eu cansei de testemunhar exatamente o contrário: os “melhores” sentados no fundão, vi isso quando era aluno e depois quando virei professor. Não dá para dizer que quem não abre a câmera não está interessado ou não queira participar da aula.

Os alunos estão a uma mesma distância do professor no on-line, a um clique de aparecer ou não aparecer. Muitos alunos não abrem a câmera por timidez, porque há outras pessoas por perto, ou ficam constrangidos com o ambiente onde estão…Pesquisas apontam que alunos introvertidos tem melhor ganho no ensino on-line do que os extrovertidos na forma escrita porque podem expor melhor suas ideias sem mostrar a voz ou a própria imagem (ver [1] e [2]).

Alunos bem sucedidos no on-line são aqueles capazes de pensar antes de responder e comunicam-se bem por escrito (entre outras características). Isso nada tem a ver com a câmera estar aberta!

Professor precisa se preparar para o on-line

Professores e alunos precisam ser preparados para as aulas on-line (ver [2]). A tentação de copiar posturas do presencial para o on-line é muito grande mas não dá para transferir tudo, aliás só é possível transferir de forma direta, muito pouco do presencial para o on-line. Mesmo a duração da aula não pode ser a mesma, como se o tempo passasse de forma diferente. Perde-se e ganha-se nessa transposição.

No on-line, professores deixam de ser palestrantes isolados e precisam se preocupar em manter certo grau de interação com a turma. Para isso, os objetivos de cada aula precisam estar claros, as atividades devem ser engajadoras e o feed-back programado. Dito de outro modo, os alunos precisam realizar alguma coisa a cada aula. Pelo menos é isso que está dando certo em várias partes do mundo (ver [3]).

O professor pode considerar que os alunos não precisam abrir a câmera mas precisa apresentar alternativas para deixá-los atentos. Abrir a câmera por si mesmo não muda nada.

Criar um protocolo

Do lado do aluno, no início de um curso, ele precisa dizer se tem equipamento, se está no celular ou no computador, se tem microfone ou câmera, se prefere falar ou escrever. São insumos básicos para o professor criar em conjunto uma especie de protocolo da aula.

O protocolo deve incluir algo importante: pedir para que o aluno avise o professor se ele precisar se ausentar por alguns minutos e, quando ele retornar, avisar novamente o professor. Isso evita que perguntas do professor caiam no vazio, constrangendo e esfriando uma aula que poderia estar indo bem.

Como manter a atenção do aluno no on-line é a pergunta de um milhão de dólares mas valorizar a participação dos alunos, não reproduzir o presencial cegamente, não obrigar que os alunos abram as câmeras e criar um protocolo já aponta um caminho.

[1] PALLOF, R.; PRATT, K. O aluno virtual: um guia para trabalhar com estudantes on-line. Porto Alegre: ArtMed: 2004.

[2] PALLOF, R. Lições da sala de aula virtual: as realidades do ensino on-line. Porto Alegre: Penso, 2015.

[3] FINK, L. D. (2019). Creating Significant Learning Experiences: An Integrated Approach to Designing College Courses. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.

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