Feedback: algumas ideias de como (não) fazer

Avaliação e feedback compõem ingrediente importante para o aprendizado, quanto a isso todos os professores concordam. O que talvez nem todos concordem é o que vem a ser feedback. Normalmente há ausência de feedback em quase todas as salas de aula. Isso é irônico se pensarmos que uma das mais nobres funções do professor seria justamente a de dar feedback adequado para os alunos (ver[1] e [2]).

O que não é feedback

Em engenharia, feedback é representado pela figura:

Um processo P qualquer tem uma entrada, alguma coisa acontece em P e é gerada uma saída. De acordo com a saída realimenta-se o processo buscando melhoria. 

Na área educacional esta visão seria generalista e redutora. A menos que se considere educação como sinônimo de ensino e testes como sendo feedback. O diagrama carrega uma ideia de transferência: o professor transferiu… será que o aluno recebeu? Quanto? A nota serviria para isso. Só que testes não são feedback e educação não é só ensino!

A nota que o aluno obteve se refere a algo que passou, o aluno não terá as mesmas aulas que já teve. Enquanto feedback é olhar para o futuro, notas olham para o passado. Aqui começa a ideia de feedback: olhar para o presente mirando o futuro.

Elogios e comentários pontuais também não são feedback. Assim como as notas, as anotações feitas pelo professor na lateral das provas também não são.

Pesquisas indicam que a maioria dos estudantes não entendem as anotações que os professores fazem ao lado da folha de prova (ver [2]). Escrever qual é a resposta certa ou qual deveria ser a expressão correta também não é feedback.

O problema de se supervalorizar a nota é o aluno só querer satisfazer a demanda do professor e não nutrir seu próprio aprendizado.

O que é feedback em educação

Feedback tem relação com o onde eu estou e como eu posso melhorar com apoio do feedback que recebo. Feedback é comentar sobre a performance do aluno enquanto ela acontece. É a evidência trazida pelo feedback que confirma ou desmente a corretude das minhas ações. Praticamente não existe métrica objetiva em feedback, é algo que busca interiorização.

Um bom exemplo de feedback é o que acontece entre um instrutor de ginástica e seu aluno no momento do exercício. A criança sabe que vai cair se não se equilibrar mas precisa aprender a se equilibrar para não cair. O feedback é importante e necessário. A ação do instrutor é justamente a de ser o responsável por dar respostas frequentes e imediatas segundo o efeito das ações da criança. Ela se corrige.

Feedback serve para se saber onde se está no meio do caminho do que se quer.

Imagine-se em viagem em um rodovia, sem GPS ou celular. Alguém lhe diz no posto de gasolina como chegar a seu destino. Esse alguém o orientou sobre como ir mas isso ainda não é feedback. Neste exemplo, feedback poderia ser as placas na rodovia que vão assegurar que você está no percurso certo.

Desse modo, feedback não tem nada a ver com rotular ou julgar, e sim dar suporte situacional à performance.

Como deve ser o feedback?

 Como já foi dito, a orientação dá a direção mas é o feedback que nos diz onde estamos. Por isso feedback precisa ser direto, útil, de uso imediato, cordial, contínuo, não codificado.

Feedback precisa ser também amigável, direto, realista e específico. O feedback serve principalmente para o auto-ajuste.

Feedback não é colher opiniões sobre um ato realizado, é um gerador de fluxo de influência de mão dupla: serve tanto para quem recebe quanto para quem dá o feedback (ver [1]).

Importante: feedback não é blá blá blá e não depende só do professor

Wiggins (ver [1]) dá um exemplo interessante de como o feedback ensina a auto-avaliação, a importância de exemplos comparativos e de como a habilidade de testes de performance pode ser auto-sustentadora:

O professor Ralph ensina seus alunos sobre soldas de canto. A tarefa deles é, então, produzir uma solda de noventa graus que esteja “dentro do padrão”. O teste é conduzido da seguinte forma: Quando o aluno soldador pensa que uma dada solda pode ser aceitável, ele deve trazê-la a uma mesa onde há várias soldas concluídas, cada uma com o nome de um ex-aluno. Além disso, existe uma caneta marcadora. O aluno deve escrever seu nome na solda e colocá-lo junto com os demais. O que acontece, é claro, é que as mentes mudam no caminho.

Observei um garoto sair alegremente – aparentemente pronto para colocar seu produto na mesa. Ele pegou uma caneta mas então resolveu inspecionar as outras soldas. Ao olhar para uma solda em particular, todo o seu semblante mudou. O que tinha sido um sorriso tornou-se uma carranca preocupada. Seu olhar foi para frente e para trás entre sua solda e a que estava sobre a mesa – a outra que era claramente superior à sua. Um momento depois, ele silenciosamente colocou a solda exemplar de volta na mesa e voltou para sua estação, com um pouco de um olhar furtivo (como se esperasse não ser visto tendo prematuramente apresentado sua obra) para trabalhar mais e refazer sua própria solda.

Como promover feedback por meio da tecnologia no ensino remoto ?

O feeedback tem clara aderência com metodologias ativas de ensino-aprendizagem tais como portfólios e aprendizagem por projetos, entre outras abordagens

Ao fim de um projeto, a título de entrega, o professor pode sugerir que os alunos publiquem seus projetos como em um mural, usando o software PADLET:

Alunos publicam seus “posters” digitais e os colegas podem inserir comentários nos trabalhos uns dos outros. Desse modo, sem que o professor precise falar coisa alguma, inicia-se um processo de feedback cruzado entre os estudantes. Alunos tem feedback por meio da própria observação sobre como poderiam ter feito melhor. Sabem que precisam voltar ao trabalho.

Em um segundo momento, cada equipe de cada projeto recebe também feedback do professor, mas não pelo que realizou mas sim pelo que ainda pode realizar para que os trabalhos e o mural fiquem ainda melhores. Em resumo, existem “várias entregas” quando se valoriza o aprendizado por feedback.

Feedback é contínuo, direto, precisa ser cordial. Não é um número, um carimbo, uma censura e nem tampouco um elogio. Feedback age sobre o presente almejando o futuro.

Dar bom feedback é almejar ser desnecessário!

—-

[1] Wiggins, G. (1993). Assessing student performance: Exploring the purpose and limits of testing. San Francisco: Jossey-Bass. 

[2] FINK, L. D. (2019). Creating Significant Learning Experiences: An Integrated Approach to Designing College Courses. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.

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