Criatividade e como somos ensinados a nos livrarmos dela

Saber o que faz bem é saudável mas saber o que faz mal também é. Não querer estar perto do erro é tão forte que preferimos nem falar dele e assim vamos desenvolvendo uma espécie de síndrome de avestruz (“se eu não vejo, então não existe”). Resultado: deixamos de aprender com as experiências que dão errado.

O que atrapalha o desenvolvimento da criatividade ?

Inúmeros livros, cursos e palestras tratam do tema criatividade e de como ela pode ser desenvolvida.

Mas nunca vi um material dedicado a discutir como atrofiamos, diminuímos e sufocamos a criatividade nossa e das outras pessoas. Há o risco de acusação de preconceito contra certos tipos de música, filmes, atitudes, etc.

Ao encorajar estudantes a serem criativos, estimulamos a habilidade de geração de ideias. É tema relevante porque sem a capacidade de gerar ideias, perdemos uma parte do que chamamos de “humanidade”.

Criatividade sufocada desde criança

A criatividade das crianças começa a morrer na escola quando damos a elas desenhos prontos para pintar. E piora quando censuramos as cores escolhidas que não tem conexão com a realidade: o caramujo não pode ser vermelho, a nuvem não pode ser roxa, etc.

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Quando erra e pinta fora do limite, a criança é corrigida também. Quando o desenho não se parece com o que os adultos acham que deveria parecer, ela é corrigida de novo. E assim vai interiorizando que não pode cometer erros ou que é melhor não ultrapassar os limites do óbvio.

Vamos ensinando à criança que ela não deve se arriscar nas ideias e comperde-se um dos combustíveis principais da criatividade que é justamente a liberdade de errar (ver [1]). É a ação da escola-gaiola como dizia Rubem Alves mas que se aplica a outras atividades que realizamos fora dela também, inclusive em casa, casa-gaiola.

Pense em fazer algo “da maneira errada”. Vai descobrir formas novas ou melhores de fazer as coisas. R. S. Wurman

Por meio de exames de tomografia cerebral sabe-se há muito tempo que a atividade cognitiva de quem assiste tevê é inferior a de quem está dormindo (ver [2]). E provavelmente superior a de quem troca mensagens instantâneas no celular.

Criatividade exige paciência, profusão de ideias, tempo, calma e maturação. A tecnologia digital funciona à base de retorno e gratificação imediatos. Criatividade não combina com isso.

A maioria dos adolescentes sucumbem ao retorno imediato da Internet, tevê e videogame. Mas criatividade não tem pressa e não requer retorno imediato…são mundos diferentes.

Visões de criatividade e de pensamento criativo

Psicólogos da Universidade de Yale dizem haver três tipos de criatividade: criatividade sintética, criatividade analítica e criatividade prática (ver[1]):

criatividade sintética é a criatividade com a qual estamos acostumados, aquela capaz de gerar ideias novas e interessantes a partir de conexões que as pessoas em geral não são capazes de fazer espontaneamente. A criatividade analítica é tipicamente o pensamento crítico. Todos tem boas ideias e más ideias mas algumas pessoas tem muitas ideias. É a criatividade analítica que consegue separar uma da outra, permitindo testar as melhores. E existe uma outra criatividade, porque só ter boas ideias não basta, é preciso convencer as outras pessoas, é a chamada criatividade prática. Esta última transforma teoria na prática, fazendo com que as ideias abstratas virem resultados ou que tem potencial para virar realidade e conquistar a audiência.

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Quando a pessoa tem muita habilidade analítica em detrimento das outras duas, ela fala muito e realiza pouco. Quando prevalece o pensamento prático, a pessoa não prescinde de criatividade. Quando tem mais pensamento sintético, tende a ser uma pessoa “criativa” mas correndo o risco de não saber aplicar as suas ideias e a gerar algum tipo de resultado. As três criatividades (analítica, prática e sintética) precisam andar juntas.

Finalmente…

As pessoas querem saber o que funciona e o que não funciona para estimular a criatividade, e eu também quero. Mas entre o preto e o branco existem infinitos tons, e é aqui que entra a criatividade: no terreno da incerteza e do espanto.

Uma coisa é certa: a importância da escola e das casas como espaços para se desenvolver ou abafar a criatividade.

[1] Sternberg. R & Wendy Williams. How to develop student creativity. Alexandria: ASCD, 1996.

[3] Turkle, Sherry. Alone together : why we expect more from technology and less from each other / Sherry Turkle.

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