Sabemos mais do que somos capazes de dizer

PRECISÃO

No início do século XX, Frederick Taylor [1856-1915] estava preocupado com eficiência dos operadores de máquinas nas fábricas. Recrutou um grupo de operários, pegou um cronômetro e começou a medir quanto tempo levavam para realizar as tarefas. Fez vários experimentos chegando a um conjunto de instruções precisas sobre como cada operário deveria trabalhar. O que chamaríamos hoje de um “algoritmo ótimo” ele chamou de “gerenciamento científico”, buscando o máximo de eficiênciavelocidade produtividade. Taylor mudou a forma de configurar as linhas de produção nas fábricas para sempre.

O crítico social Neil Postman sintetizou o gerenciamento científico das empresas criado por Taylor em seis pilares ou sentenças (ver [1]):

1 – O objetivo do trabalho humano é a eficiência.

2 – O cálculo técnico é sempre superior ao julgamento humano.

3- Não se pode confiar no julgamento humano porque ele é ambíguo e de uma complexidade desnecessária.

4 – A subjetividade é um obstáculo ao raciocínio claro.

5 – O que não pode ser medido ou não existe ou não tem valor.

6 – Assuntos de interesse das pessoas são melhor conduzidos por especialistas.

O sistema de Taylor continua bem vivo nos dias de hoje nas fábricas e também fora delas. Busca-se continuamente o máximo de eficiência, velocidade e produtividade agora via tecnologia digital (Indústria 4.0). Taylor mudou a forma como lidávamos com a produção, enquanto empresas de tecnologia ou mesmo a Google, mudam a forma como lidamos com informação, mas ambas seguem os mesmos princípios (leia novamente os seis pilares). Apenas na sentença 6 troque a palavra “especialistas” por “algoritmos”.

IMPRECISÃO

Michel Polanyi [1891-1976] foi um cientista contemporâneo de Einstein, quase foi indicado para o Nobel de Química (um filho e dois alunos alcançaram o prêmio). Na década de 1930 viu aumentar a pressão sobre os cientistas em prol dos esforços de guerra e passou a se preocupar com os modos de produção do cientista e a escrever sobre a noção de liberdade em Ciência. Exilou-se na Inglaterra e depois fugiu para os Estados Unidos, trocando definitivamente a pesquisa aplicada pela Filosofia da Ciência. Escreveu textos críticos à centralização da economia, analisou o papel do cientista na sociedade e criticou a pretensa objetividade científica no sentido de só se aceitar o que pode ser provado. Uma voz no deserto dizendo que a inventividade dos cientistas não tinha a ver só com rigor do métodos e métricas.

O livro mais famoso de Polanyi foi publicado em 1958 e se chama Conhecimento Pessoal, nele o autor mergulha na raiz filosófica do conhecimento e propõe uma nova epistemologia. O conhecimento tácito ou pessoal que ele comenta está internalizado nas pessoas, é difícil de explicar e não se externaliza facilmente por meio de palavras (ver[2]).

Segundo Polanyi, todas as pessoas teriam alguma parcela desse conhecimento “pessoal” ou “tácito” (não confundir com conhecimento subjetivo). Para alguns intérpretes, Polanyi estaria falando de intuição, para outros, de religiosidade e fé.

O insight mais importante de Polanyi que está presente no livro e talvez em toda a sua carreira é resumido em uma só frase:

“Sabemos mais do que somos capazes de enunciar”.

Essa frase aparentemente simples, carrega muitos sentidos interessantes teve grande repercussão no universo das ciências sociais e também na gestão das empresas. Deveria ser mais lembrada e tentarei explicar a razão…

Na década de 1990, autores japoneses interessados em uma teoria da inovação, resgataram as ideias de Polanyi e a aliaram à cultura japonesa do silêncio, da contemplação e da meditacão. Criaram uma teoria de criacão do conhecimento que serviu de base para muitos estudos sobre inovação discutidos até hoje.

Um dos pilares a que chegaram analisando processos de inovação no Japão é de que as pessoas inovadoras podem ser inovadoras sem saber e sem serem capazes de explicar a própria inovação (ver[2]). Inovação não está restrita a equipes de marketing ou de engenharia, pode estar na mente de um humilde funcionário, da limpeza ou da portaria da empresa.

A ideia central é a de que inovação depende da mudança e troca entre diferentes formas de conhecimento: basicamente a transformação do que conseguimos expressar explicitamente e aquela que não conseguimos (tacitus =silencioso).

Na área educacional, as ideias de Polanyi ecoaram na obra de Donald Schon (reflexão sobre a prática) mas em outros trabalhos e autores menos conhecidos também.

Se não conseguimos expressar tudo que sabemos, não faz sentido querer ensinar tudo ou criar cursos e tutoriais sobre qualquer coisa.

Indo em sentido contrário, dos teóricos da inovação de volta à educação (sob a influência de Polanyi), aprendemos muito o tempo todo também pela observação pura e simples, pelo exemplo e até pelo silêncio por meio de experiências compartilhadas.

E nem percebemos o quanto aprendemos…por isso não precisamos medir o tempo inteiro (base do taylorismo cada vez mais presente em educação).

Isso não quer dizer que aprendemos sozinho ou que não precisamos de mestres: aprendemos quando estamos abertos para aprender. Por meio de experiências compartilhadas entramos em algum tipo de sintonia com o que não sabemos. É o que acontece um pouco na relação entre pai e filho, entre mestre e aprendiz, no aprendizado pelo exemplo, insisto.

Isso exige tempo, paciência, mais perguntas do que respostas, menos números e mais contemplação, menos imediatismo e muito mais reflexão.

Cabe perguntar:

Qual influência tem sido mais forte na área educacional, a visão de previsibilidade e eficiência de Taylor ou da imprecisão e da inovação de Polanyi ? O que isso muda em termos de formação de pessoas ? E em termos de mundo?

[1] POSTMAN, N. Tecnopolio: a rendição da cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994. 221 p.

[2] POLANYI, M. Personal Knowledge towards a post-critical philosophy. Chicago: The University of Chicago Press, 1958.

[3] NONAKA I., TAKEUCHI, H. Gestão do Conhecimento. Porto Alegre: Bookman, 2008.

Um comentário em “Sabemos mais do que somos capazes de dizer

  1. Excelente post. Ótimas reflexões e indicações de leitura. Obrigada.

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