As mídias sociais nos transformam em répteis

Ao longo da historia da tecnologia, tomando os últimos 50 anos, é possível classificar os cientistas da computação mais notáveis em dois grandes grupos: os cientistas humanistas e os cientistas otimistas pragmáticos.

Entre os humanistas estão Seymour Papert, Alan Kay, Joseph Weizenbaun, Jaron Lanier, Douglas Rushkoff, Sherry Turkle, entre outros. Entre os pragmáticos estão Kevin Kelly, Erick Schmidt, Steven Johnson, Joseph Aoun e, claro, Bill Gates…Estes últimos cantam/cantaram o samba-exaltação da tecnologia, segundo o qual tudo está indo bem e tende a melhorar. Mas para isso você precisa se informar sobre as mudanças e pegar as ondas certas.

Já entre entre os cientistas humanistas reina um certo ceticismo e até pessimismo. Eles tem razões para isso. Participaram da construção da Internet ou até se anteciparam a ela, alguns ajudaram a construir as premissas da inteligência artificial e da realidade virtual.

Foram otimistas pragmáticos no passado mas um dia mudaram de ideia radicalmente. Viram que a tecnologia on-line se desviou da proposta inicial (em que tudo deveria ser “de graça e para todos”) e se tornou parte do problema que deveria resolver.

Papert, depois de 40 anos desenvolvendo software e hardware onde procurava valorizar a criatividade e inventividade das crianças, reconheceu que perdera o jogo, que a tecnologia educacional da forma como acontecia, iria apenas reforçar a educação instrucionista mais tradicional sem que as crianças aprendessem mais ou melhor. Weizenbaun espantou-se com a facilidade com que as pessoas podiam ser iludidas por meio de um bot rudimentar que ele havia criado nas horas vagas e que imitava a conversa humana. Espantado e inconformado, largou a Computação e foi para a Filosofia investigar como funcionava a mente humana. Jaron Lanier, artista de espírito anárquico, foi também um entusiasta pioneiro da realidade virtual e escreve hoje sobre como algoritmos de empresas como Facebook e Google interferem e empobrecem a vida interior (e exterior) das pessoas.

Evito usar redes sociais, assim como evito usar drogas. (Jaron Lanier)

Douglas Rushkoff, em seu último livro Team Human, descreve uma serie de argumentos para confirmar a tese de que a substituição das pessoas pela tecnologia pode estar nos levando à destruição como espécie. Segundo ele, as novas tecnologias estão desenvolvendo interfaces unicamente ou para controlar as pessoas ou para substituí-las.

Para o autor, o aparato tecnológico atual construiu uma complexa estrutura de poder que aposta no isolamento das pessoas e na previsibilidade dos comportamentos. E com isso inaugura um novo tipo de controle social inédito na história da humanidade.

Pensar, sentir, conectar pessoas…são riscos para esse modelo e precisam ser combatidos porque enfraquecem as megacorporações que querem tomar conta de tudo.

A educação, por exemplo, que deveria servir para expandir as mentes dos trabalhadores é usada agora para tornar recursos humanos mais eficientes para as empresas, sem que eles precisem investir diretamente nisso.

Ao contrário de Marshall McLuhan que um dia proclamou que “os meios de comunicação seriam extensões do homem”, segundo Rushkoff, nossas instituições e tecnologias servem para mitigar ou reprimir o homem, são meios para encurtá-lo. Estaríamos assim empoderando uma tecnologia anti-humana. A presunção de inferioridade dos humanos seria um dos combustíveis necessários para controlar e substituir as próprias pessoas.

Rushkoff defende que a civlização chegou até aqui muito mais por meio da colaboração do que pela competição. Por isso ele apregoa necessidade de autonomia e interdependência para que as pessoas desenvolvam um senso extremo de colaboração. A dessocialização, em sentido contrário, operada pela tecnologia, necessita incentivar o individualismo e a conformidade. Deixar todos iguais dentro de um determinado padrão faz com que não haja variação entre os indivíduos e sem variação, não há mutação ou fluidez social. Isso seria contrário à evolução em que opera a própria natureza das especies ao longo de milhões de anos e que nos trouxe até aqui.

Aquilo que não pagamos com dinheiro, pagamos agora com dados pessoais. Humanos não são consumidores da mídia social como parece, são o produto.

Da autonomia & interdependência que geram força coletiva, as tecnologias das mídias sociais nos empurram para o individualismo. Atacam a socialização de diferentes formas: por meio da atomização do pensamento, do isolamento social, do aumento da competição e do abafamento da defesa colaborativa que só é possível construir em grupo.

Tudo ocorreria de forma a iludir uma vez que tecnologias de conexão não são necessariamente sociais. As plataformas parecem interativas e democráticas mas encobrem a degradação de nossos processos sociais. O tal empoderamento pessoal que as tecnologias cantam como sereias, seriam uma nova forma de dominação premeditada, segundo o autor.

Virando répteis

Segundo Rushkoff, as mídias sociais estão insuflando o lado réptil das pessoas. Répteis só enxergam presa e predador, matam ou morrem, não são animais colaborativos, não se comunicam, não confiam.

Mas o autor não é completamente pessimista. Se o problema todo é mesmo uma questão de design, então pode ser revertido.

O certo é que o organismo humano social deveria ser protegido de sua própria criação.

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