Como fazer uma Dissertação de Mestrado: uma análise reflexiva

TEXTO REPRODUZIDO!

Sobre a ironia do processo Raul Sidnei Wazlawick, Dr. (Autor especialmente

convidado: Luiz Fernando Jacintho Maia, Dr.)

1 Introdução

Após acompanhar o processo de desenvolvimento de várias dissertações de

mestrado e várias bancas avaliadoras, após conversar com alguns colegas e

perceber que todos enfrentam situações semelhantes com seus orientados,

chegamos à conclusão de que seria necessário escrever um pequeno ensaio

sobre o processo de realização de um mestrado, especificamente na área de

informática na educação.

Este trabalho utiliza a ironia, o que para quem não sabe, é uma forma de

discurso que busca usar o humor para trazer uma mensagem. Como existe muita

gente sem senso de humor é necessário deixar bem claro que os conselhos

deixados abaixo não são para ser seguidos em sua forma literal. Eles trazem

mensagens implícitas, que se você olhar com discernimento poderá perceber

fatos e situações que acreditamos são quotidianas na vida acadêmica. Outros

fatos e situações são completamente irreais, mas nós os achamos engraçados

e incluímos assim mesmo.

Este trabalho é direcionado aos estudantes de mestrado, especialmente aos

de informática na educação, que poderão achar aqui excelentes dicas sobre o

que não se deve fazer durante o mestrado.

Não pretendemos aqui ridicularizar pessoas reais, mas se você seidentificar com alguma das situações descritas abaixo, bem… quem mandou

você agir assim? Não nos culpe!

 2 O Processo de Orientação

2.1 Como se Comunicar com o Orientador

Durante o mestrado é interessante que você desapareça por uns três ou

quatro meses, e depois telefone para o seu orientador, de preferência em um

sábado à noite ou domingo pela manhã, para dizer que está desesperado com o

seu trabalho. Orientadores adoram ouvir que seus alunos estão desesperados.

Isso os deixa satisfeitos, pois cumpriram seu primeiro dever, que é o de

desesperar os alunos. Você já deve ter percebido isso, quando após a

primeira conversa seu orientador lhe passou 45 artigos em inglês e 2 livros

em eslovaco para você ler e apresentar uma análise crítica em duas semanas.

Bem, depois de ficar feliz com sua condição atual, seu orientador vai

perguntar o que você fez nestes três ou quatro meses. Diga que você não

teve muito tempo (ou seja, nenhum tempo) para dedicar à dissertação porque:

a) O serviço na firma tem lhe ocupado muito;

b) Você viajou muito;

c) Você teve problemas em casa;

d) Você está com fobia de dissertação e a psicóloga ainda não conseguiu

tratar isso;

e) O cachorro comeu seu trabalho; ou

f) Qualquer outra desculpa esfarrapada.

Outra forma interessante de abordar seu orientador é lhe enviar um e-mail e

quinze minutos depois ligar para ele perguntando se ele leu o seu e-mail.

Como ele certamente não leu, porque estava fazendo coisas menos

importantes, isso já o deixa na defensiva.

Mas se você realmente quer ficar por cima, faça o seguinte:

a) Envie e-mails para seu orientador a partir de um endereço falso. Sempre

que ele tentar responder, vai receber seu e-mail de volta.

b) Telefone para o escritório dele nos horários em que você sabe que ele

está em aula. Faça isso durante umas duas semanas. Deixe sempre recado para

ele retornar a ligação e um número de telefone que não existe.

c) Finalmente, descubra quando seu orientador viaja e vá ao seu escritório

nestes dias. Reclame com todo o mundo que você nunca o encontra e que ele

não responde os seus e-mails nem seus telefonemas.

Pronto, você já conseguiu um respeito profundo pelo seu orientador e a

partir de agora ele vai deixa-lo em paz.

 2.2 O que Ler

Quando o orientador exigir que você leia alguma coisa, não faça isso. É

melhor tentar tirar a dissertação da sua imaginação, pois a leitura de

textos científicos pode poluir suas idéias com coisas estranhas como

“estado da arte”, “trabalhos relacionados”, etc. Lembre-se, não estamos

interessados em arte, nem em relacionamentos, mas em computação.

Se o orientador lhe pedir para ler alguma coisa em inglês, diga que isso

leva muito tempo e exija bibliografia em português. Sempre existe alguma

tão boa quanto, mesmo que seja de 15 anos atrás.

Outra coisa fundamental: jamais leia qualquer material que tenha menos de

10 anos de idade. Lembre-se que o tempo traz a maturidade. Assim, as idéias

de 10 anos atrás são muito mais sólidas do que qualquer coisa que foi

publicada semana passada. Uma bibliografia bem antiga e respeitável: isso é

o que dá substância a uma dissertação na área de computação.

 3 O Título da Dissertação

O título da dissertação é um ponto muito importante. É a primeira coisa em

que o leitor vai colocar os olhos. Portanto, faça ele grande. Três linhas

de texto e não se aceita menos! Coloque no título toda a informação

possível sobre o seu trabalho. Mesmo que o trabalho depois acabe sendo

desenvolvido de uma forma diferente que não tenha nada a ver com o título,

é absolutamente proibido mudar o mesmo, e você deve mantê-lo a todo o

custo. Muitos alunos perguntam se podem mudar o título do trabalho depois

que registraram o projeto no seu ingresso no mestrado e a resposta é

claramente “NÃO!”.

Sobre o formato do título, ainda é importante frisar que ele deve ter

obrigatoriamente dois pontos (“:”) em algum lugar, dividindo o título

principal do subtítulo. Você viu o título deste artigo? À guisa de exemplo,

considere a correta colocação dos dois pontos no título abaixo:

“Influência da salivação das formigas nas rachaduras das calçadas: um

estudo comparativo entre os métodos de diagonalização simples e

triangulação complexa”

Você não sabe, mas o título deste artigo tinha apenas duas linhas. Isso não

é desejável, mas colocado em fonte 20, como fizemos, conseguimos o efeito

apropriado, com o texto em três linhas.

Outra forma muito elegante de usar os “dois pontos” é quando você

desenvolveu um software/modelo/proposta/etc., que tenha como nome uma sigla

engraçadinha. Coloque o acrônimo antes dos dois pontos e o nome por extenso

logo depois. É possível ainda adicionar um subtítulo, mas a maioria vai

achar suficiente apenas o acrônimo e sua explicação por extenso. Veja o

exemplo abaixo:

“PATETA: Parâmetros Associados de Testes Empíricos para Tratamento

Alternativo”

Observação: a palavra “empírico” é muito empregada em dissertações na nossa

área. Procure usa-la sempre que possível. “Dialético” também é importante;

mesmo que você não saiba o que é isso, use!

Se você for louco para publicar seu trabalho em inglês, use siglas

charmosas como: “SHIT: Software & Hardware Integration Technology”, ou

“CACA: Computer-Aided Cognitive Adaptation”.

Se você não conseguir produzir um título longo, use o algoritmo a seguir.

Escreva o assunto. Ex.: “Hipermídia adaptativa”

Acrescente no início: “um modelo de”. Ex.: “Um modelo de hipermídia

adaptativa”.

Acrescente no fim: “para uso no processo de ensino/aprendizagem”. Ex.: “Um

modelo de hipermídia adaptativa para uso no processo de

ensino/aprendizagem”.

Acrescente no início: “um estudo prático visando uma proposta de”. Ex.: “Um

estudo prático visando uma proposta de um modelo de hipermídia adaptativa

para uso no processo de ensino/aprendizagem”.

Acrescente no final o famigerado “dois pontos” e a frase “uma nova

abordagem”. Ex.: “Um estudo prático visando uma proposta de um modelo de

hipermídia adaptativa para uso no processo de ensino/aprendizagem: uma nova

abordagem”.

Use todas as regras ou apenas um sub-conjunto delas. Tanto faz! Você está

chegando lá…

 4 Tempos Verbais

Todos sabem que uma dissertação de mestrado é um trabalho individual. Por

isso use sempre o plural majestático. Veja abaixo alguns exemplos

interessantíssimos:

“Nossa proposta visa construir um sistema que…”

“Acreditamos que a interação dos alunos com o sistema…”

“Nós vos concedemos o título de Sir …”

Outra coisa que dará muita credibilidade ao trabalho é o uso da mesóclise

pronominal. Seguem exemplos:

“A experimentação do processo far-se-á através de…”

“Nossas hipóteses confirmar-se-ão após…”

“Fi-lo porque qui-lo.

O último exemplo não consiste de uma mesóclise, mas mostra o efeito

fantástico que se pode obter usando ênclise no final de uma frase. É de

muito bom gosto e elegância.

Outra coisa, que você já deve ter observado, se leu uma dissertação em

computação, é que primeiro parágrafo da introdução deve ter necessariamente

um adjetivo megalomaníaco, que mostre a grandeza do seu trabalho. Seguem

exemplos:

“O impressionante crescimento da Internet nos últimos anos…”

“É cada vez maior o interesse pela informática na educação…”

“A cada dia mais e mais pessoas se conectam ao maravilhoso mundo da era

digital…”

Segue normalmente ao parágrafo com o adjetivo megalomaníaco um parágrafo

ressaltando as famigeradas “novas tecnologias”. Todos sabem que essas

“tecnologias”, sejam quais forem, tem mais de 20 anos, mas como você está

lendo a bibliografia de 15 anos atrás, continue dizendo que elas são novas.

 5 O Editor de Texto

Uma vez um mestrando de alhures me procurou durante um congresso e

perguntou se a “tese” deveria ser escrita com Latex. Eu perguntei o porquê

da questão, e ele me disse que o orientador dele achava que assim o

trabalho ficaria mais “científico” do que se ele usasse o Word. A resposta

nesse caso é que o orientador dele está redondamente enganado! O motivo

para usar Latex é que assim ele vai levar tanto tempo para editar o texto

que seu mestrado vai durar bem mais que os 18 meses recomendados pela CAPES

e assim ele pode manter a bolsa por mais tempo.

 6 A Estatística

Você já deve ter ouvido falar que a estatística é nossa amiga. Isso é

verdade. Aplicando os questionários certos da forma certa você pode provar

qualquer coisa que queira.

Apenas para exemplificar, conta a lenda que um especialista em marketing

resolveu fazer uma pesquisa para saber se as pessoas costumavam responder

questionários enviados para suas casas. Ele elaborou um belo questionário

onde a principal pergunta era se a pessoa costumava responder questionários

enviados à sua casa. De 1000 questionários enviados pelo correio ele

recebeu de volta apenas 50, dos quais 49 responderam “sim” a esta pergunta.

A conclusão, a partir do material recebido, era que 98% (49/50) das pessoas

costumam responder questionários enviados a suas casas.

Portanto, quando você quiser avaliar seu software educacional, faça um

questionário para os alunos com perguntas do tipo “você gostou do

software?” (eles sempre gostam), “você acha que iniciativas deste tipo

deveriam ser feitas mais seguidamente?” (todos respondem que sim, porque

enquanto estão brincando com o software não estão tendo aula), “você

aprendeu alguma coisa com este software?” (todos respondem que sim. Ninguém

admite que não aprendeu nada para não passar vergonha. É como aquelas

pessoas que riem sem entender a graça da piada. Você já percebeu que a

quantidade de gargalhadas é sempre maior e seu volume mais alto quando a

palestra é em Inglês?), etc.

 7 Os Capítulos

Toda dissertação de mestrado em informática na educação se divide em quatro

ou cinco capítulos. A seguir passamos a analisar cada uma das partes

constitutivas em suas características próprias.

 7.1 A Introdução

O primeiro capítulo da dissertação deve ser a introdução. Neste capítulo

você deve fazer um longo apanhado de toda a história da informática no

Brasil e no mundo. De preferência inicie na pré-história. Se você não sabe

nada sobre o assunto, não tem problema. Copie de outra dissertação. A banca

vai adorar ler e vai aprender um pouco sobre este importante assunto tão

atual “neste final de milênio”.

Outra coisa fundamental na introdução, especialmente se você trabalha com

informática na educação, é fazer uma defesa sobre a importância e

atualidade do uso dos computadores nas escolas e como estes professores

reacionários não querem saber de usar o computador porque “tem medo”. Nunca

é demais repetir isso. Se você quiser também reclamar do governo que nunca

dá verbas para a educação, este é o lugar para fazer isso.

Em hipótese alguma fale de seus objetivos no trabalho na introdução e nem

dê pistas sobre o que você fez na dissertação. Para que adiantar

informações que podem ser tranqüilamente lidas quando o leitor chegar no

capítulo 4?

Se o seu orientador for daqueles dinossauros que ainda pede que se escreva

objetivos no capítulo introdutório, faça de forma que ninguém desconfie do

assunto da dissertação. Abaixo são citados alguns objetivos genéricos que

você pode perfeitamente usar em seu trabalho. Não se importe em copiar,

afinal texto é para ser copiado mesmo:

“Nosso objetivo é melhorar a qualidade do computador na escola”;

“Nosso objetivo é aprimorar nossos conhecimentos nessa importante área”;

“Nosso objetivo é trazer uma contribuição para essa área tão fundamental”.

Existe um tipo de orientador ainda mais reacionário que pede “objetivos

específicos”. Os objetivos específicos servem apenas para uma coisa: para

deixar o mestrando fulo da vida porque tem que escrevê-los. Nós realmente

recomendamos que você escreva objetivos específicos, porque a banca vai

pedir. Ou você pode usar isso como bode (fig. 1), deixando de escrever os

objetivos específicos para que os membros da banca não percebam outros

problemas mais graves no seu trabalho. Figura 1: O Bode – o bode é um erro grosseiro inserido

de propósito em um trabalho que impede os avaliadores de encontrarem os verdadeiros erros importantes.

Em hipótese alguma os objetivos específicos devem trazer alguma informação

sobre o trabalho. Use como objetivos específicos uma listagem daquelas

atividades que são óbvias em qualquer dissertação. Dê a elas um grau de

importância maior usando alíneas com figuras complexas como carinhas

risonhas e, se possível, coloridas. Exemplo de objetivos específicos:

: Estudar o assunto;

: Implementar o protótipo;

: Colher resultados;

: Escrever a dissertação;

: Agradar a banca.

Outra forma de causar um excelente impacto com o seu trabalho é usar e

abusar das partículas “re” entre parênteses para que uma palavra possa ser

lida de duas formas. Segue um exemplo: “Neste trabalho queremos (re)pensar

a educação para (re)elaborar e (re)organizar esta área de forma a

(re)alizar uma significativa contribuição.”

 7.2 Revisão Bibliográfica

A lei de ouro da dissertação em informática na educação estabelece o

seguinte:

“Toda dissertação de mestrado em informática na educação deve ter como

capítulo 2 um apanhado da teoria de Piaget e Vigotsky”

Lembre-se, essa regra é fundamental. Algumas dissertações mais antigas

apresentavam apenas Piaget no capítulo 2. Hoje é inaceitável um trabalho

que não resuma Piaget e Vigotsky. Mesmo que você não seja da área, nunca

tenha ouvido falar nestes caras, e não vai usar nada deles na sua

dissertação, é importante que você os cite, senão os pedagogos podem achar

que o seu trabalho não tem fundamentação.

Aliás, a regra de prata, que sempre acompanha a regra de ouro diz o

seguinte:

“O capítulo 2 é o único lugar da dissertação onde Piaget e Vigotsky são

citados”

Isso implica que a partir do capítulo 3 você deve esquecer completamente

[Image]

estes camaradas. Isso vai ser mais fácil se você procurar não entender o

trabalho deles quando estiver copiando aqueles longos parágrafos do livro

“Para entender Piaget” ou “Vigotski for dummies”.

Não se preocupe também com o fato de que as teorias de Piaget e Vigotsky

serem contraditórias em muitos pontos. Afinal, isso é problema dos

psicólogos. Se você é formado em computação e durante o projeto alguém

questionar como você vai absorver estes conhecimentos de outras áreas, diga

que você tem uma tia que é psicóloga e que ela vai lhe passar estes lances.

 7.3 Desenvolvimento

O capítulo com o desenvolvimento do trabalho deve ser o mais curto

possível. Nunca pode ocupar mais de 10% da dissertação. Na nossa área é

importante que os trabalhos não sejam práticos. Análises, comparações,

avaliações, etc.: estas são as palavras chave. “Metodologia” também é uma

palavra excelente para produzir nada. Veja os exemplos de desenvolvimento

abaixo:

“Uma análise comparativa entre X e Y” – não faça comparação nenhuma. Apenas

descreva X e Y separadamente. Não tire conclusões.

“Avaliação do processo Z”. Avalie de acordo com a sua cachola. Nada de usar

metodologia de avaliação. Afinal você não encontrou nenhuma na bibliografia

que você não leu.

“Uma proposta de metodologia para W” – proposta de metodologia é um

desenvolvimento excelente para sua dissertação. “Proposta” significa que

você não se compromete em desenvolver nada; está apenas propondo.

“Metodologia” significa que você realmente não vai produzir nada mesmo.

Escreva um “blá-blá-blá” e se alguém se queixar diga que esta é a sua

metodologia. Se algum xarope insistir em reclamar, mande olhar no texto: “a

metodologia está descrita lá”, você vai dizer, “é apenas uma proposta”.

Seguindo estes conselhos seu trabalho será um legítimo AMUTS, ou seja,

“Apenas Mais Um Trabalho Sobre…” (adaptação livre do termo inglês YAPA –

Yet Another Paper About…).

Sempre que você não souber como resolver um determinado problema em seu

trabalho diga que vai usar “técnicas de IA (Inteligência Artificial)”.

Ninguém se importa em saber quais são estas técnicas, nem você. Quando

chegar a hora é só pegar o livro da Elaine Rich e achar ali alguma

“técnica” que lhe ajude a resolver o problema de encontrar o último número

primo. “Use a força bruta”, dirá o livro. Então você pode começar a

espancar sua dissertação com violência.

 7.4 Capítulo das Conclusões

O capítulo de conclusões é de extrema importância para uma boa avaliação de

uma dissertação de mestrado. Os membros de bancas somente lêem os objetivos

e as conclusões da dissertação para ver se uns batem com os outros. Por

essa razão, os objetivos só podem ser escritos após as conclusões que,

aliás, devem ser o menos conclusivas possível.

Lembre-se que depois que Moisés desceu da montanha com as duas tábuas da

Lei contendo os dez mandamentos, tudo o que se seguiu tornou-se difuso e

relativo, inclusive as interpretações dos dez mandamentos (Diz a lenda que

eram 15 mandamentos em 3 tábuas de pedra, mas como era desajeitado para

carregar Moises deixou cair uma no caminho). Reforçando: evite, a todo

custo, ser conclusivo, permitindo diferentes interpretações por parte da

banca, podendo usar para tanto desculpas na linha de não ser partidário de

radicalismos, não ser fundamentalista etc.

Se for absolutamente indispensável que sua dissertação apresente conclusões

realmente conclusivas, siga o procedimento adotado por experimentados

avaliadores de cursos de pós-graduação, um segredo acadêmico conhecido por

poucos experimentados pesquisadores. O procedimento é constituído por três

passos:

a) Estabeleça as conclusões, de forma a agradar plenamente a banca

examinadora, sem criar complicações para você;

b) Gere os dados e observações que serão usados para justificar as

conclusões estabelecidas no passo anterior; e

c) Por último, descreva uma metodologia que leve, de maneira “racional”,

das observações às conclusões.

Esse procedimento já foi usado com sucesso em inúmeros trabalhos,

justificando conclusões como:

“A aranha, sem pernas, fica surda, pois não pula mais quando a gente manda”

Um último conselho: produza o abstract com um tradutor automático sobre o

resumo e não o revise, ou melhor, nem mesmo o leia. É um excelente bode

(ver fig. 1)!

 7.5 As Referências Bibliográficas

As referências bibliográficas são de extrema importância para a

credibilidade acadêmica de seu trabalho. Se tudo o que você disser em sua

dissertação estiver respaldado em adequadas citações de autores

respeitados, seu trabalho será considerado de bom nível acadêmico, mesmo

que não contenha nenhuma idéia original. Colocar idéias originais na

dissertação, sem o respaldo de que essa mesma idéia já foi registrada por

algum autor consagrado, pode ser extremamente perigoso. Os membros da banca

estarão atentos para essa situação e pegarão no seu pé.

Muitos orientadores insistem em que seus alunos listem as referências

bibliográficas em ordem alfabética do sobrenome do primeiro autor. Não faça

isso! Apenas para criar caso invente uma ordem qualquer, pois membros de

bancas de mestrado, normalmente, procuram verificar se as referências do

texto constam da bibliografia. Para que facilitar o trabalho deles?

Uma providência que pode facilitar muito a sua vida, na hora da defesa, é

colocar nas referências bibliográficas artigos de autoria de membros da

banca. Você pode encontrar essas referências consultando a plataforma

Lattes do CNPq, que deverá conter o currículo atualizado dos membros da sua

banca. Se os membros da sua banca não têm seus currículos na plataforma

Lattes, então você começa a ter razões para se preocupar.

Outro lance que pode impressionar a banca é colocar nas referências

bibliográficas o nome de um figurão da área e, em lugar da referência do

livro ou artigo, um lacônico “comunicação pessoal”, seguido de uma data.

No meio do texto lembre-se: jamais ler os originais, use sempre “apud”, se

um texto é bom o suficiente para ser citado por alguém, certamente será

ótimo quando você o citar de novo sem ler a fonte original.

 8 O Texto Final

Para defender a sua dissertação, você precisa escrever o texto final, que

será distribuído para os membros da banca e se constituirá na peça central

de sua acusação e execração pública. Esse documento deve ser redigido

dentro de normas e preceitos rígidos, estabelecidos pela metodologia

científica, para ser respeitado como tendo um mínimo valor acadêmico.

Alguns alunos começam, precoce e furiosamente, a produzir páginas e páginas

de texto, que somente vão contribuir para aumentar sua frustração quando o

orientador mandar retirar essas páginas do texto final. “Puxa! Depois de

todo o meu trabalho, não vou aproveitar esse texto?”. O melhor é evitar de

escrever qualquer coisa antes de ter uma idéia completa da dissertação, do

que deve ser escrito e do que não deve ou não precisa ser colocado, ou por

ser óbvio ou muito trabalhoso de escrever. Com essa idéia clara, você não

vai precisar mais do que uma semana para passar tudo para o papel!

Ao longo do processo de orientação evite a todo o custo passar qualquer

coisa escrita para seu orientador, pois isso só lhe criará problemas

adicionais. Use desculpas clássicas, como: “só falta descrever o

protótipo”, “falta fechar a bibliografia”, estou revisando a ortografia”,

ou, até, “não consegui imprimir”. Quando, finalmente, você passar o texto

completo para seu orientador, duas semanas antes da data marcada para a

defesa, será tarde demais para ele solicitar qualquer alteração que não

seja superficial. Imponha sua decisão, personalidade e independência:

afinal, você é, praticamente, um Mestre!

 9 A Defesa da Dissertação

Normalmente uma dissertação é apresentada em 50 minutos. É fundamental que

você divida a apresentação em pelo menos oito partes e gaste 45 minutos

inteiros na primeira parte. Você vai poder perceber como a banca estará

relaxada quando após 45 minutos você disser “agora que vimos a introdução

vamos dar uma olhada no que dizem os 81 autores citados na revisão

bibliográfica”.

Lembre-se de abusar das transparências. O mínimo para 50 minutos de

apresentação é 100 transparências. Como você vai gastar 45 minutos nas

cinco primeiras, restarão apenas 5 minutos para as 95 restantes. Assim,

você poderá apresentar o grosso do trabalho a uma taxa de aproximadamente 3

segundos por transparência. Reclame que teve pouco tempo para apresentar.

Uma história verídica relata que uma vez um candidato reclamou que não

poderia falar tudo o que ele sabia em 50 minutos. O presidente da banca foi

direto: “Então fale BEM DEVAGAR E PAUSADAMENTE!”.

Depois da sua apresentação, tenha paciência. Este é o momento de glória dos

membros da banca. Cada um vai agradecer o convite, lhe dar os parabéns pela

escolha do tema, tão difícil, desafiador e multi-disciplinar, e em seguida

vai tentar reduzir você a cinzas. Cada erro, cada vírgula de seu trabalho,

que não estiver de acordo com a opinião da banca será delatada em público.

Neste ponto é importante observar que você deve se lembrar sempre de

colocar “bodes” no trabalho, ou seja, aqueles pequenos erros grosseiros na

forma, na paginação ou nas referências bibliográficas, que fazem com que os

membros da banca se satisfaçam em delatar a sua incapacidade em escrever um

texto bem acabado e não percebam os erros muito mais profundos e

importantes que o seu trabalho realmente possui. É muito mais fácil arrumar

um bode do que um erro real.

Você já viu alguma vez um membro da banca dizer simplesmente: “Seu trabalho

está muito bom! Pode ser aceito como dissertação de mestrado e encerro aqui

a minha fala.”? Não! Neste momento os membros da banca sempre têm algum

defeito a apontar, mesmo que seja imaginário. Se você fosse membro de uma

banca avaliadora você se sentiria bem se não encontrasse nenhum erro? Não!

Isso provaria que o candidato ao mestrado é mais inteligente do que você.

Isso não pode acontecer em hipótese alguma. Por isso é que os avaliadores

se esmeram na leitura do trabalho até encontrarem um erro. Então eles têm o

que falar da defesa. Concluindo: não esqueça do bode! (ver fig. 1)

 9.1 A Impossibilidade da Aprovação sem Observações

Existe uma prova matemática de que um membro de banca sempre pode ter o que

reclamar em uma dissertação. A seguir faremos a demonstração:

Seja a o número de capítulos de sua dissertação. Seja b um número inteiro

entre 1 e a: 1 d b d a. Seja f(b) o número de páginas no capítulo b, onde

f(b) e 1.

Seja x um número irracional positivo, que chamaremos de limiar de

intolerância do membro da banca. Seria absurdo se este número fosse inteiro

ou fração, portanto, por redução ao absurdo, só pode ser irracional.

Para qualquer valor de f(b), se f(b) < x o membro da banca dirá que o

capítulo b está muito curto, para qualquer b.

Se f(b) > x o membro da banca dirá que o capítulo b está muito longo, para

qualquer b.

É impossível que f(b) seja igual a x porque x é irracional e f(b) é

inteiro.

Portanto o membro da banca sempre terá muito o que dizer sobre a sua

dissertação. . C.Q.D.

Se sua dissertação também tiver alguma demonstração como essa, não esqueça

de mudar a fonte das variáveis para “symbol”. Letras gregas sempre dão

muito mais confiabilidade às suas provas. Apenas certifique-se de saber

como pronunciar o nome da letra, para não passar vergonha na hora da

defesa.

 9.2 Como Saber se um Membro da Banca não leu a sua Dissertação

É fácil saber se um membro da banca não leu a sua dissertação. Em geral,

ele não vai abordar questões de conteúdo; vai se prender a observações

sobre o resumo, o tamanho dos capítulos, a quantidade de referências

bibliográficas, e vai perguntar onde você pretende aplicar este trabalho

depois que for concluído.

Quando você perceber que um membro da banca não leu seu trabalho, você tem

duas possibilidades:

a) Desmascará-lo em público, perguntando o que ele achou sobre a quadratura

do círculo que você não escreveu na dissertação. Quando ele disser que

achou o relato interessante você diz: “Há! Eu nunca falei sobre isso no

texto!”.

b) Aceitar o fato e deixar seguir o baile.

Como a primeira opção pode acabar em uma anulação da defesa, ou pior, nas

vias de fato, cremos ser melhor você optar conservadoramente pela segunda

opção. Mas nunca deixe de comentar este fato com seus amigos nas rodinhas

de cerveja: “Lembra do professor Fulano? Pois é! Ele nem leu minha

dissertação, mas achou ótima!”.

 10 Depois de Formado

Depois de formado, nunca admita que você trabalha com informática na

educação, a não ser que você queira ouvir do seu interlocutor tudo o que

ele sabe sobre esse assunto, que o sobrinho dele de 13 anos fez um programa

para ensinar, e que ele manja tudo de informática na educação, que sabe

mais que os doutores da universidade, etc.

Ao invés disso, invente nomes esotéricos para sua área de pesquisa, como

“matética computacional”, “semiótica da telemática”, “cognição multievolutiva”,

“maiêutica transcendente” etc. Ninguém vai querer seguir uma

conversa se você disser que está aplicando técnicas de hipo-renderização

bi-polinomial em assíntotas de marcações não-lineares. Se você quiser

realmente espantar a pessoa ofereça-se para entrar em detalhes.

Jamais use termos de uso comum como “inteligência artificial” ou “realidade

virtual”. Infelizmente os não iniciados já se apropriaram destes termos, a

partir de filmes de Hollywood. Se você entrar numa discussão sobre estes

assuntos com eles você vai arrumar uma úlcera.

Finalmente o trabalho futuro! Você deve imediatamente após o mestrado

engajar-se em um programa de doutorado para agradar a banca que tanto quer

ver seu trabalho ter continuidade. Mas lembre-se, assim como o curso

superior serve para dar direito a cela especial, o doutorado tem uma

serventia muito importante: quando, em uma discussão, alguém lhe impuser

sua posição dizendo disser “Eu sou doutor!”, você pode responder “Grande

coisa! Eu também sou!”.

TEXTO REPRODUZIDO!

Sobre a ironia do processo Raul Sidnei Wazlawick, Dr. (Autor especialmente

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