O que aprendi sobre educação ao cair do skate

Compramos coisas.

Na hora dos brinquedos para o filho, quando é possível, vale mais a pena comprar um skate ou patins?
Skate é mais barato porque vale por dois: pode ser usado tanto por uma criança quanto por um adulto…
E se você sempre quis andar de skate mas nunca conseguiu… então na compra do skate para a filha tem a chance de realizar um sonho secreto sem escandalizar.

Assim, eu e L. de 6 anos saímos no sábado decididos a buscar o skate.

O primeiro desafio é ficar em pé nele.
L. subiu no skate e eu fiquei segurando. Fui repreendido pela vendedora dizendo que se eu segurasse L., ela não ia aprender nem a ficar em pé no skate.
L.conseguiu ficar em pé e se posicionou pé ante pé na plataforma de madeira sem se apoiar. E aí remou com um passo e o skate se deslocou lentamente…eu não disse nada, ela tentou sozinha.
E lá estava eu segurando de novo e a vendedora vindo dizer “se você ficar segurando, ela não vai…”.

Larguei e L. conseguiu se deslocar em linha reta um metro para lá e depois voltar um metro para cá.

Entao L, montada no skate foi em direção a uma prateleira e eu antevi o desastre…mas nada, L calculou bem a força, a distância e velocidade e só desceu o pé esquerdo na hora certa para freiar lentamente.

Tudo isso: subir e se deslocar um pouco sem apoio durou uns quinze minutos e nesse tempo L. estava muito concentrada, não falou nada, nem riu, nem comemorou.

Compramos o tal skate.

Saímos da loja e no estacionamento bateu a ansiedade e chegou a minha vez.
Subi no skate e, óbvio, caí em questão de nanosegundos. Foi patético, ralei joelho, cotovelo…ouvi as risadas…sobre isso, ok.
Mas aí pensei: pronto, traumatizei uma criança. Mas não, L. riu junto.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Uma hora depois, fomos a um espaço aberto e L. já andava assim:

Em minha carreira de professor, poucas vezes vi o progresso no aprendizado de alguém acontecer tão claramente como em L. no skate, pensei com meus hematomas.

Aprender e aplicar o que se aprende em um caminho tão curto e interessante.

Aí lembrei de alguns autores:

John Holt: aprendemos melhor se não somos ensinados…alguém falando nas nossas orelhas o tempo todo não é o mais importante.

Maria Montessori: o aprender está em todas as pessoas, mas o aprender depende de liberdade, autonomia e trabalho. “Ajude-me a aprender sozinho” é lema montessoriano.

E tem as ideias gerais de aprendizagem ativa:

Aprendemos melhor tendo experiências diretas, observando e refletindo sobre como estamos indo…e aí na sequência, podemos aperfeiçoar a forma como fazemos, podemos observar e refletir novamente… aprender é seguir em frente neste ciclo.

O aprendizado não é linear ou segmentado, é um processo de auto-inclusão, é mesmo uma espiral que se abre, com raio cada vez maior.

E tem o tempo da aprendizagem que é o tempo de quem aprende, não de quem ensina.

Por isso ainda não desisti da ideia de andar de skate.

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