Inovação de ruptura e o baralho na sala de aula

Educação tem um lado de ciência e um lado de arte. Um lado de previsibilidade e outro de imponderabilidade. São muitas variáveis em jogo, é difícil isolar uma da outra e o professor tem que tomar decisões rápidas, sob pressão, em situações que mudam o tempo todo. Li uma vez, não sei onde, que a área acadêmica em que mais se defendem dissertações e teses é a área educacional. Se dependesse do volume de pesquisas e publicações das faculdades de educação, teríamos um dos melhores sistemas educacionais do mundo. Mas caminhos que funcionam em educação não são fáceis de encontrar e quando encontrados, não valem para todos – mais fácil explorar Marte do que garantir que um modelo educacional funcione para tudo e para todos.

Inovação mantenedora e inovação de ruptura

O autor Clayton M. Christensen escreveu um livro importante chamado Inovação na Sala de Aula: como a inovação de ruptura muda a forma de aprender. Em lugar de um compêndio com repetição de teorias educacionais (muitos livros em educação são assim), a obra resulta de um levantamento com milhares de escolas e distritos escolares. O autor eleva o debate sobre o que é inovação educacional como nenhum outro que conheço. É um levantamento extenso relatando o que funciona e o que não funciona em educação, pelo menos nos Estados Unidos. Insiste na ideia de que as pessoas aprendem de formas diferentes, que o ensino padronizado está matando a vontade de estudar e que colocar o computador no centro das mudanças não tem levado a lugar algum.

Inovação disruptiva

Para a inovação disruptiva se impor em qualquer área, de acordo com Christensen, inclusive na área educacional, ela deve concorrer com o “não consumo”. “Não-consumo” é uma lacuna ou demanda potencial ainda reprimida ou desconhecida.

No âmbito do “não consumo” não há o que melhorar porque não há elementos prévios para adaptar ou substituir. Isso teria ocorrido no campo da cultura e da indústria muitas vezes no passado, na época da invenção do automóvel, das gravações musicais em disco, da fotografia, e estaria ocorrendo hoje com as comunicações móveis, filmes e música por streaming e carros elétricos . Pense em alguém que compre um patinete elétrico para se deslocar pela cidade e que nunca teria um carro ou moto: isso é atingir o não-consumo, a forma de inovação de ruptura ou disruptiva ao qual Christensen se refere. Inúmeras pessoas que não teriam um telefone fixo hoje não largam dos seus celulares.

Inovação sustentadora ou disruptiva em educação

Onde houver “consumo cativo” ( oposto ao “não-consumo”) a inovação buscará analogia ou adaptação em diferentes graus, a mudança será então absorvida fazendo da inovação um mero adereço para a conservação.

O objetivo da inovação sustentadora é manter o sistema em funcionamento quando ele se desgasta ou tem que responder à concorrência direta ou outros fatores situacionais.

Daí a razão das novas tecnologias trazerem pouco ganho em relação ao aprendizado dos estudantes: quem se beneficia é o sistema que consegue suporte para manter-se funcionando por mais algum tempo. A tecnologia de adaptação não leva à ruptura. Assim, substituir a presença física do professor pela presença on-line ou assistir a aula ao vivo ou pelo computador não altera a essência do processo. É o “não-consumo” que abre espaço para a inovação de ruptura.

Alunos e o baralho

Um amigo, professor J. , é formado em Pedagogia e em História pela USP. Tem mestrado em educação e especialização em educação especial. Leciona há muitos anos em escolas públicas de ensino medio, está no topo da carreira e é respeitado por todos os colegas. Pelo menos era. Quando encontrei J. um mês atrás, as mãos tremiam, andava devagar e cabisbaixo: J. está exaurido, de licença em licença, vive à base de remédios. Confessou para mim que não suporta mais a sala de aula, queria que tudo migrasse para o on-line para sempre a fim de não ter que cruzar a porta de uma sala de aula nunca mais. Pedi para ele me explicar melhor..ele resumiu…alunos preferem jogar baralho a assistir as suas aulas de História.

Não-consumo e a inovação de ruptura

Estima-se que 40 milhões de pessoas estejam fora da sala de aula por conta da pandemia. De cada 10 alunos que ingressam no ensino medio, apenas 6 terminam. Mas antes da pandemia, muitos alunos já estavam mentalmente fora da sala de aula embora estivessem dentro dela. Quando terminam tem aproveitamento em matemática inferior a 10% do que o desejável e em Português menos de 30%.

O “não-consumo”está diante do professor J. e o aflige, assim como a muitos milhares de outros professores.

O que era oportunidade de inovação educacional disruptiva virou agora necessidade. Ou vamos aos remedios.

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BATES, Tony. Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem. São Paulo: Artesanato Educacional, 2016.

CHRISTENSEN, C. M. Inovação na sala de aula: como a inovação de ruptura muda a forma de aprender. Tradução Raul Rubenich. Porto Alegre: Bookman, 2009.

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