Paulo Gaudêncio: psicanálise e educação

Seja qual for a área em que você atue, sempre interessa saber mais sobre motivação, liderança, decisões, trabalho em equipe. E no plano pessoal interessa saber mais sobre amor, vícios, maturidade, envelhecimento…não há uma ementa completa sobre estes assuntos.

Pensamos muito sobre eles mas agimos da forma diferente da que pensamos ou gostaríamos e aí entra a Psicanálise.

O psicanalista Paulo Gaudêncio [1934-2017] para mim é uma referência muito importante.

Eu o encontrei em um posto de gasolina entre São Paulo e Campinas em um domingo de manhã, cerca de onze anos atrás. Algumas de suas ideias estavam encapsuladas em um daqueles livrinhos de rodoviária, neste caso de posto de gasolina.

Era um livro sobre liderança muito fácil de ler mas com ideias, para mim, originais e profundas (ver[1]).

Veio bem a calhar naquele momento profissional. Eu atuava em um projeto de pós-graduação de um grande grupo educacional e precisávamos com urgência de inspirações e ideias diferentes.

Compartilhei os insights do livro com a minha equipe da pós e logo fizemos contato com o autor do livro, Paulo Gaudêncio.

Com ele promovemos aulas ao vivo via satélite, palestras presenciais, gravamos cursos e outros projetos em conjunto. O livrinho sobre Liderança que já era best-seller foi relançado por nós em nova edição. Sucesso total.

Paulo formou-se na primeira turma de Medicina/Psiquiatria da USP mas nunca gostou de receitar remedios, por isso migrou da Psiquiatria para a Psicanálise.

Indivíduo fala uma coisa, age o que sente…eu tenho que colocá-lo em contato com o que ele sente, apresentá-lo para si mesmo…

Ainda jovem, tornou-se um psicanalista reconhecido.

O sucesso das aulas na PUC-SP renderam-lhe um convite da TV Cultura para apresentar um programa inovador chamado Jovem Urgente (ver [1]).

Corria 1969. Jovem Urgente foi primeiro programa da tevê a dialogar abertamente com jovens e como nào poderia deixar de ser, foi o primeiro programa de tevê a ser censurado.

No total, foram exibidos 32 programas.

Na época, 1969, o país vivia o período mais agudo do regime militar. Realizar o programa era um risco permanente para sua equipe. A gota d’água foi um capítulo dedicado à discussão da sexualidade. O tema provocou a imediata e indignada reação dos grupos conservadores. “Jovem Urgente” foi o primeiro programa de televisão a sofrer censura e sua exibição foi proibida em todo o território nacional. E Gaudêncio foi afastado da Fundação Padre Anchieta, entidade mantenedora da TV Cultura (ver[1]).

Paulo Gaudêncio fez outros circuitos originais.

Foi psicólogo dos jogadores corintianos por nove meses. Com a Psicanálise de Gaudêncio o time não foi bem, perdeu o campeonato mas ele se saiu com esta:

O Corinthians é maior do que eu !

Teve participações no programa Café Filosófico (ver[2]) e Provocações (ver [3]), entre outros. Dava regularmente cursos e palestras em empresas e nunca deixou de atender no Instituto que levava seu nome.

Acho que Paulo Gaudêncio iniciou o caminho que hoje é bem explorado (e monetizado) por nomes como Leandro Karnal, Sergio Cortella, Pondé entre outras estrelas da divulgação filosófica.

Dom Quixote sou eu!

Como embaixador da equipe da Pós e “descobridor” de Paulo Gaudêncio, fui várias vezes até seu instituto para planejar os projetos. Mas Paulo parecia não gostar muito de planejar, adorava sim era contar histórias.

Qualquer conversa fortuita virava um assunto interessante…cinema, literatura, música e futebol…reflexões e aprendizado o tempo todo.

Impossível sair das reuniões sem algo novo e importante para pensar. Cercado de imagens e estatuetas de Dom Quixote espalhadas pelas mesas e paredes, dizia que ele era o próprio personagem de Cervantes encarnado.

Trago uma reflexão de Paulo Gaudêncio que combina com estes tempos atuais:

O outro lado da crise: As pessoas costumam associar crise a sofrimento, o que é um equívoco, no meu entender. As crises são processos saudáveis de adaptação às mudanças que fazem parte da vida. E não apenas são necessárias, como positivas, pois levam à renovação.

Crise, prenúncio de uma nova vida:

Quando se fala em crise, a primeira ideia que vem à cabeça é a de sofrimento. Para mim, entretanto, crise é uma coisa boa. É um processo de ajuste interior que permite, ao indivíduo, acompanhar as mudanças que ocorrem constantemente em sua vida. Acontece quando a ideia caminha e a estrutura fica para trás.

O homem tem ideias de profissão, de amor, de vida. Para concretizá-las, precisa de uma estrutura que lhe dê sustentação. Eu me formei, tinha uma ideia de profissão, abri um consultório. Comecei a trabalhar, aprendi, minha ideia caminhou e a estrutura ficou defasada. O que vai acontecer? Vai haver uma desestruturação, uma reestruturação e um período de paz até a ideia caminhar de novo e eu ter uma nova crise e criar novos alicerces. Crise é para sempre.

Conversando com um amigo esta semana, lembrei que tenho gravações da época de convívio com Paulo Gaudêncio e que guardo com muito carinho, além de cadernos de notas e outros textos avulsos que fui pegando aqui e ali. Acho que são copias únicas de registros dessa grande personalidade e excelente pessoa.

Um dia organizo tudo e divulgo!

[1] < https://economia.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/reinaldo-polito/2017/06/19/brasil-perde-paulo-gaudencio-autor-de-livro-best-seller-sobre-lideranca.htm >

[2] < https://www.youtube.com/watch?v=1G29Rl8Cwf0 >

[3] < https://www.youtube.com/watch?v=HmPRAu5KKQw >

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