Qual seu limite de tarefas? Quanto vale o seu tempo?

Um estudo clássico de Psicologia mostrou que uma pessoa consegue prestar atenção, no máximo, a sete detalhes ao mesmo tempo. Ver [1]. Isso teria ajudado no projeto de cabines de aeronaves, por exemplo.

Na mesma linha, muitos outros estudos compararam a produtividade de quem (acha que) faz muitas tarefas ao mesmo tempo com quem (acha que) faz somente uma tarefa de cada vez.

A performance pode variar um pouco de pessoa para pessoa mas, em geral, quem acha que faz muitas coisas ao mesmo tempo está iludido porque, na realidade, todos só fazemos uma única coisa de cada vez.

O que muda é a granulação das atividades, a ordem delas e a percepção que se tem sobre isso.

Produzir mais é fazer mais rápido mas sempre uma coisa de cada vez, muda a forma como nos organizamos, a sequência, efetividade e eficácia…muda o método, enfim.

Home office antes e pós pandemia

Antes da pandemia, mas quando ela se avizinhou, muitas pessoas achavam que teriam mais tempo para ler, para ouvir música, ver filmes, fazer esportes ou ter tempo inclusive para não fazer nada e olhar as nuvens passando ou a grama crescer. Só que não.

Quem era ocupado antes, agora está mais ocupado ainda, muito mais. O tempo livre foi preenchido com mais trabalho. Com o afastamento social, os limites entre o pessoal e o profissional estão quebrados mas isso já vinha acontecendo muito antes do afastamento social graças ao uso do celular. Estamos acostumados a isso e acho até que gostamos. Se em um jantar com os amigos no final de semana não pingar uma mensagem sobre a reunião importante que terá a semana que vem, você pode ter sido despedido e vai começar a descobrir ali.

Voltando…tente ficar duas horas fazendo uma mesma coisa e só essa mesma coisa: vai sofrer!

Já somos capazes de participar de duas reuniões remotas ao mesmo tempo, ver e falar…

talvez no futuro consigamos participar de duas conversas simultaneamente sem alternar os microfones!

A tecnologia nos empurrou para o trabalho ininterrupto.

Como recuperar a capacidade de concentração ou fazer uma coisa só?

Estamos tão habituados a pensamentos associados que não conseguimos mais pensar em uma só coisa e isso afeta nossa capacidade de concentração.

A leitura de um romance virou o último refúgio dos concentrados, refúgio hoje quase sem ocupantes.

Ler um romance em papel sem a tevê por perto, com celular desligado ou alguma telinha da Internet virou passatempo digno de um sultão!

Se você conhece alguém que esteja lendo Os Miseráveis (romance clássico de Victor Hugo, de 1862) hoje, deve estar lendo à luz de velas em uma fazenda afastada, sem energia e sem Internet.

Gostaria de ter a receita para recuperar minha antiga capacidade de concentração. Tento desligar o celular e a Internet uma hora por dia. Tento ler em papel. Mas dali a pouco estou de volta ao computador anotando alguma coisa que acabei de ler e passo a ler o mesmo livro, só que agora na tela de novo.

O curioso é que quando leio na tela e em papel o mesmo livro, começo a perceber que leio melhor e entendo muito mais do que se lesse só um desses suportes. Hábito mental, claro, o livro impresso é a leitura profunda, o livro na tela é o uso da leitura para aplicação de forma imediata, segundo Henry Jenkins.

Fugir das interrupções? Só mudando para o Butão !

Talvez fosse melhor passar uma temporada no Butão, país em que, dizem, estão as pessoas mais felizes do mundo.

No Butão há pouca tecnologia digital e, ao que se sabe, não há caça ao dinheiro e, consequentemente, ansiedade por comprar – por tudo isso as pessoas são mais felizes. Ver [2].

Um exercício até simples de se fazer e de aplicação imediata, é olhar fixamente para um quadro.

Não uma tela de aplicativo ou de tevê…mas apelar à arte no suporte tradicional. Olhar fixamente para um quadro ou reprodução bem feita dele pendurado na parede.

Olhando para um quadro, não para uma tela

Tente observar abaixo o quadro do artista Mark Rothko, de 1950 (chama-se “Centro Branco, Amarelo, Rosa e Lavanda”). Quanto tempo você consegue olhar para ele?

O quadro do artista Rothko será apenas um retângulo mal desenhado ?

Não! Depois de um tempo parece que as cores flutuam na tela e escondem o que está por trás dela…é só silêncio, uma passagem, um portal…

Rothko, quanto vale o seu tempo?

Certa vez um jornalista perguntou a Rothko (autor do quadro acima) com ignorante desprezo: “quanto tempo você levou para pintar este quadro” (era um quadro da mesma fase do quadro acima). Ele esperava ouvir 40 minutos, afinal parecia só jogar a tinta na tela e fazer um retângulo tosco dentro e estava tudo pronto, algo para uma criança de 6 anos fazer em minutos.

Rothko, porém, respondeu: _60 anos. Essa era a idade dele à época.

O próprio tempo completou esta historia.

O quadro “Centro Branco, Amarelo, Rosa e Lavanda” acima, foi arrematado por US $ 72,84 milhões, estabelecendo o recorde da obra de arte mais cara do pós-guerra vendida em um leilão.

Nada prático pensar sobre isso…melhor voltar para o videozinho do whatsApp do cara vestido de mendigo pregando peças nas pessoas na praça pública ou pegadinha qualquer ainda pior. Para isso temos tempo.

O tempo e o que fazemos com ele vale milhões, pena que não percebemos.

Trabalhar de casa é trabalhar para sempre.

Dobra a carga horária, triplica.


Queria ter a fórmula. Claro que softwares ajudam.

Para organizar a vida, comece a listar as tarefas no âmbito da família: brincar com o filho, beijar a mulher/marido, lavar o cachorro, tomar banho…mas coloque ordem de prioridades e os recursos necessários. Coloque tudo no computador. Pronto, agora tem mais uma planilha para olhar e mais alertas no celular.

Fora tudo isso, louve aos céus se o trabalho remoto melhorou seu posicionamento profissional mas não deixe de cuidar da sua saúde mental.

Pense em passar as ferias no Butão!

[1]< https://en.wikipedia.org/wiki/The_Magical_Number_Seven,_Plus_or_Minus_Two >

[2] livro: A Era da Loucura, de Michael Foley

Um comentário em “Qual seu limite de tarefas? Quanto vale o seu tempo?

  1. Rafael Ribeiro de Sousa 25 de agosto de 2021 — 11:59 am

    Ótima reflexão professor!!

    Curtir

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