Afinal, para que servem as universidades ?

A visão mais comum que se tem sobre tecnologia é a visão intrumentalista, a de que nenhuma ferramenta é boa ou ruim, tudo depende do uso que se faça dela.

É uma visão útil para quem cria tecnologia e também por quem a consome cegamente.

Raramente empresas que desenvolvem tecnologia partem de preocupações filosóficas ou éticas, costumam deixar isso para um segundo plano , não vale a pena pensar sobre isso (ver [1]) afinal as empresas e as pessoas querem resolver seus problemas e ponto final.

Só não confundir com neutralidade, por favor.

Algum debate ético sobre o papel da tecnologia exige ir além da visão “depende do uso”…

Diplomas Google

Recentemente foi noticiado que a Google entrou de vez no mercado educacional, na verdade ela está no mercado educacional faz tempo embora desta vez seja diferente.

A Google oferece agora cursos voltados para formar profissionais em apenas seis meses de curso: analista de dados a gerente de projeto, de designer de interface a especialista em suporte de TI. É só o começo, muitos outros cursos virão.

Não são apenas cursos de curta duração, são cursos alternativos aos diplomas universitários, em concorrência (não) declaradamente aberta.

Enquanto os cursos superiores de tecnologia tem no mínimo 2 anos de duração no Brasil, os da Google durarão seis meses (ver [2]).

A Google argumenta que os cursos tradicionais não estão dando conta da demanda, estão afastados demais da realidade e ainda que os melhores cursos são muito caros e, portanto, inacessíveis para a maioria dos estudantes. São mesmo geniais.

Crescimento da Google na área educacional

Bom lembrar que a área educacional está sendo engolida pela Google já faz tempo e que tem sido alimentada pelas próprias instituições de ensino que agora começam a acordar.

Começou anos atrás quando os sistemas de email das universidades públicas foram migrando para a Google.

Recentemente foi noticiado que chineses teriam invadido servidores Google e devassado milhões de contas de email.

Conheci vários estudantes universitários que, de repente, viraram embaixadores Google dando palestras puramente promocionais em seus próprios departamentos e institutos acadêmicos.

Acho escandaloso. Não se enxerga conflitos de interesses?

Não à toa, com a crise trazida pela pandemia, as ferramentas de uso mais disseminado nestas instituições passaram a ser o GoogleClassroom e o Google Meeting.

O olho que tudo vê

A interferência da Google na educação atinge outros níveis escolares também.

Antes limitada a parcerias um tanto pontuais com escolas particulares, agora está assumindo a área tecnológica de muitas escolas públicas de educação básica país afora por meio de suas ferramentas ditas gratuitas.

Na sala de aula virtual, mediante controle de tarefas realizadas/não realizadas via Google Classroom,  é possível saber se os alunos estão participando das atividades ou não e ainda comparar o desempenho dos alunos, professores e escolas. Pode ser um instrumento valioso para gerenciar o ensino e mitigar evasão dos estudantes.

Mas é uma ferramenta potente também para cercear a autonomia do professor, obrigado que se torna a publicar as atividades padronizadas atendendo gráficos e métricas do sistema. A avaliação padronizada vindo de fora para dentro das escolas parece que agora venceu de vez.

Finalmente: Para que servem as universidades?

As universidades mais antigas do mundo tem cerca de 800 anos. É das poucas instituições projetadas para resistir às pressões externas. Servem para gerir conhecimento: criar, avaliar, manter e disseminar conhecimentos.

Mas para que a universidade consiga realizar esses papeis, uma serie de condições são necessárias. Universidades precisam de autonomia pois é difícil prever com antecedência o valor potencial de conhecimentos novos.

A universidade proporciona ainda à sociedade uma maneira segura de especular sobre o futuro, encorajando a investigação e o desenvolvimento de inovações que podem não trazer benefícios a curto prazo ou não levar a lugar algum, mas que precisam acontecer.

Outro papel fundamental da universidade é a capacidade de desafiar pressupostos ou posições de agentes poderosos fora da própria universidade como governos ou a indústria quando em conflito com evidências ou princípios éticos ou ainda com o próprio futuro da sociedade.

A liberdade acadêmica permite que se faça perguntas importantes e embaraçosas a governos e corporações. Assim, o ensino universitário está ligado a uma noção de liberdade, crítica e de autonomia que são imprescindíveis para o desenvolvimento das sociedades (ver [3] e [4]).

Mas sejamos realistas…

Você acha que a questão de autonomia e liberdade acadêmica tem algum interesse para empresas que valem 1 trilhão de dólares ? ?

Voltando ao conflito diploma-Google versus diploma universitário, pode-se argumentar que os professores queiram resguardar seus empregos relativamente confortáveis e estáveis nas universidades públicas ou que esteja na hora das instituições de ensino superior se reinventarem…preocuparem-se mais em dialogar com o mercado de trabalho. Tudo isso tem seu fundo de verdade.

Mas a formação deveria estar voltada somente ao mercado de trabalho ? Vai ter emprego para todo mundo? Vamos todos trabalhar na Google?

E quanto às instituições de ensino particulares, estão preparadas para concorrer com a Google daqui para frente?

—-

[1] Nicholas Carr: What the Internet is doing to our brains

[2] https://www.sunoresearch.com.br/noticias/google-diploma-concorrencia-universidades/

[3] https://opentextbc.ca/teachinginadigitalage/

[4] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/por-que-universidades-sao-importantes#10

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