Um robô bom para casar

No famoso Teste de Turing um computador, ao final da experiência, seria declarado inteligente se ele pudesse convencer as pessoas de que não era uma máquina. A ideia de inteligência estava ligada a parecer inteligente.

Em áreas específicas como xadrez ou matemática, a capacidade dos robôs é muito grande mas a interação real e natural com as pessoas é outra discussão, um desafio relativamente novo para psicólogos e cientistas que vai além da lógica.

Recentemente uma serie de sucesso da BBC usa animais robôs para espionar o comportamento de animais selvagens em seu habitat natural. Tudo funciona e é divertido.

Mas a serie levanta uma outra possibilidade: a de que podemos ter grandes rebanhos de robôs-animais e só um ou outro bicho de carne e osso. A emoção de quem visita esse ambiente pode ser até a mesma ou superior. Da Amazonia de verdade para a Amazonia da Disney é só um pulo.

Como fica nossa percepção de observadores frente a robôs?

Na Disney, crocodilos “animatronics” hiperrealistas atraem mais interesse e público do que crocodilos de verdade que em geral só ficam parados dormindo (ver[3]).

Em zoológicos do futuro, talvez a diversão será descobrir quais são criaturas de verdade e quais são robôs.

Robôs e sociabilidade

A sociabilidade de robôs está ligada a expressar coisas que seriam considerados sentimentos se expressos por pessoas.

A psicóloga do MIT com interesse em tecnologia, Sherry Turkle, fez um estudo clássico e profundo sobre a relação entre pessoas e robôs (ver[3]).

Entenda-se aqui “robôs” como brinquedos sofisticados. Turkle dedicou-se vários anos a observar como crianças reagem quando usam ou estão diante de brinquedos robotizados. Ela observou crianças de 4 a 13 anos interagindo com robôs em escolas, clubes e também junto a adultos idosos em casas de repouso.

Quando não podia observar diretamente o que estava acontecendo, pedia para que as crianças e famílias escrevessem um diário para registrar o convívio com o robô. As experiências de convívio duravam em media duas semanas e os resultados foram perturbadores.

Um dos primeiros resultados é que as crianças tem clara a noção da natureza dual dos robôs: para elas são meio máquinas e meio criaturas, meio objetos inanimados mas parecidos com seres vivos.

Não se importam muito, em alguns momentos agem como se estivessem diante de seres vivos e em outros momentos, não. Crianças (e também adultos) parecem ter facilidade para não se importar com a natureza dos objetos e ficam confortáveis com imitações.

Em uma escala de testar robôs cada vez mais sofisticados e sociáveis, ela começou pelos antigos Tamaguchis. Fez longos estudos dos quais apresento e comento apenas alguns deles (estão datados, tem mais de dez anos mas com resultados ainda válidos).

FURBY: exemplo de robô sociável.

A novidade deste robozinho é que, diferente de brinquedos passivos como bonecos de pelucia, Furby demanda atenção. Você tem que dar a ele o que ele quer e quando ele quer.

Aqui começa a inversão: o comportamento do robô vai aos poucos comandando o comportamento da criança!

PARO: robô para idosos

É inegável que nos faz bem dar aos outros aquilo que precisamos.

Mas o que dizer disso quando a relação é entre um ser humano deprimido e um robô ?

MY REAL BABY

My Real Baby demanda cuidados e sua personalidade é moldada pelo carinho que recebe. O bebê-robô reage: chora, ri e tem expressões faciais.

Curiosamente Turkle observou que várias crianças gostavam de espancar esse robô!

Mas se você espancar o simulacro de bebê ele não reage, só desliga, isto é, este bebê não reclama de dor.

Ela comenta no livro que os pais tinham três posicionamentos frente ao espancamento do bebê-robô pelos filhos: alguns se preocupavam porque ali não havia punição para o que é errado; outros consideravam positivo por ser uma especie de catarse para as crianças; outros mais preocupados achavam que a criança que agride está aprendendo a como ser dissimulada depois de adulta.

Alguém pode pensar que desensibilização comece no virtual e depois migre para o real.

AIBO

Um outro dispositivo para as experiências da pesquisadora foi o pet-robô AIBO da Sony.

Versão bem mais evoluída do que os robôs anteriores e com um conjunto muito maior de representação de sentimentos.

Pode aparentar frustração (olho fica vermelho) quando não consegue chutar uma bola, por exemplo, ou quando tem “necessidades” não atendidas.

Mesmo as crianças menores sabem que o cão robótico não é nem um boneco comum e nem um cão de verdade.

Crianças dizem que o robô-pet é melhor do que um cão de verdade porque ele não morre.

Bom lembrar que pets de verdade ajudam no desenvolvimento da crianças porque permitem desenvolver a ideia de compromisso e de responsabilidade.

Pets-robôs condicionam engajamento mas sem responsabilidade!

Algumas conclusões

A maciça propaganda de robôs na televisão conversando, brincando, cantando e dançando faz as crianças acreditarem que as criaturas artificiais são camaradas, uma forma de “ser vivo” com “algum tipo de coração e cérebro”.

A tecnologia de robôs evolui ao mesmo tempo que parece reforçar as conclusões que Sherry Turkle fez dez anos atrás. Não demorará muito para que vejamos robôs com pessoas andando por aí, presentes em aviões, restaurantes, festas, clubes e igrejas como se fossem pets. Tende a ser algo naturalizado, aos poucos vamos deixar de nos espantar.

Indo além, talvez você talvez seja convidado a ser padrinho de casamento de um amigo/amiga com um robô. Na esfera íntima, o sucesso dos robôs já é perturbador (ver [1]).

As pessoas sabem que estão com criaturas artificiais mas criam mecanismos de compensação, tendem a abafar essa realidade ou a não se importar com isso. Treinar o robô sobre como se comportar é viciante e torna o engajamento cada vez maior fortalecendo uma ilusão cujos efeitos psicológicos ainda desconhecemos.

Para as crianças, o grande risco é achar que os robôs são perfeitos, que as pessoas fazem o que podem mas que robôs são melhores que as pessoas.

Só que robôs nunca compreenderão verdadeiramente as pessoas e suas questões.

Tudo isso deveria nos levar a serios conflitos éticos.

O estudo de Sherry Turkle mostra que conviver com robôs é estar só com uma pequena parte do que é um ser humano, é uma forma de desaprender o sentido do humano, de nos reduzir.

Em algumas partes do mundo, robôs já tem mais direitos do que as mulheres (ver[4]).

A questão não é mais saber se robôs podem pensar ou sentir como nós, mas sim se nós, pessoas, não estamos muitas vezes pensando e sentindo como se fôssemos robôs. O lado positivo desse convívio é que nos faz repensar o que somos.

Se um robô pode imitar bem uma pessoa, logo não saberemos distinguir um do outro, assim como os animais selvagens da serie da BBC não sabem que há um bicho robô entre eles. Isso revela enormes vulnerabilidades e riscos.

A psicóloga do MIT conclui ao final do livro que estar com robôs inaugura uma nova forma de estar sozinho...

[1] Adrian David Cheok, Kate Devlin, David Levy. Love and Sex with Robots. Second International Conference, LSR 2016 London, UK, December 1920, 2016. Revised Selected Papers

[2] < https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/03/07/robos-usados-para-entrega-de-produtos-ganham-direitos-de-pedestres-nos-eua.htm >

[3] Turkle S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close