“Memes”​ ameaçam o mundo

Antes de começar, um alerta: não confundir meme com mimimi. Mimimi tem conotação depreciativa, geralmente é relacionado a detratar uma pessoa que reclama de algo ou de alguém. Meme é outra coisa, é um “mídia virus”.

Com a pandemia, deixou de ser novidade: um vírus biológico invade o corpo de um hospedeiro sem ser notado, é só uma cadeia de proteínas. Se o corpo invadido identifica o vírus, envia anti-corpos para tentar eliminá-lo. Mas se não identifica ou não consegue eliminá-lo, o vírus invade a célula do corpo hospedeiro e injeta seu código genético nele. A célula infiltrada vai agora se reproduzir espalhando o vírus que continua a se replicar no organismo do hospedeiro. Da próxima vez, é possível que o organismo reconheça o invasor e o elimine no início. Imunidade.

Um vírus de mídia social, um “mídia virus”, funciona parecido e meme é sua forma recente mais perigosa.

Curiosamente a expressão “meme” vem da Biologia e apareceu primeiro no livro de Richard Dawkis, O Gene Egoísta. Na visão de Dawkis, a humanidade evolui como qualquer outro sistema biológico: por competição, mutação, depois mais competição….tudo na dependência dos genes. Não importa a cultura, a racionalidade, as escolhas que fazemos…a evolução da humanidade seria governado de forma quase autônoma, automática e exclusiva por nossos genes. Os memes das redes sociais não são assim e aí a comparação se enfraquece um pouco: influenciam e são influenciados pelo contexto a sua volta.

Objetivo dos memes

O objetivo dos memes não é conscientizar. É só gerar uma resposta automática, impensada, às vezes até brutal. Lógica e verdade nada tem a ver com memes. Memes buscam respostas individualistas, não sociais. Um meme que mostre a importância da vacinação ou uso de máscaras não provocará a mesma intensidade ou resposta cultural de outro meme que propague a “conspiração chinesa” por trás da pandemia.

Há hoje uma indústria de memes muito bem desenvolvida que visa influenciar o pensamento das pessoas (parece a teoria da conspiração, admito). Memes se servem do humor para penetrar na mente social e abafar o senso crítico. Nada tem a ver com conexão, tolerância ou respeito. A carapaça protêica dos memes atuais é uma pequena dose de humor embarcada em mensagens via whatsapp.

Um meme pra chamar de seu

Qualquer um com celular pode criar seus próprios memes e tentar o sucesso nas mídias sociais. Com um pouco de sorte do autor, seus memes campeões poderão ser compartilhados dezenas de vezes e causar impacto nas pessoas.

O tema nos interessa porque somos parte deste jogo.

Memes são excelentes veículos para difamar, desunir e desinformar. Penetram na mente da sociedade de acordo com as ansiedades coletivas reprimidas e se espalham-se em escala global. Fake-news casam bem com memes.

Como disse antes, para Richard Dawkis são os genes que determinam o destino da humanidade: por competição, sobrevivência dos mais aptos e mais competição. Mas os memes não competem entre si, o objetivo de um meme é triunfar sozinho e isso acontece quando eu ou você rimos dele e o compartilhamos em nossas redes. Mudamos concepções sem perceber.

Vários softwares facilitam a criação de memes, alguns hoje com ajuda de Inteligência Artificial: https://imgflip.com/memegenerator

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Achamos graça e compartilhamos sem pensar de onde eles vem, o que representa, que efeitos podem gerar. Memes perigosos não são inocentes.

Memes desunem as pessoas

Um meme recente me fez perder um amigo e por isso pensei neste texto. Era um meme relacionado à CPI da Covid e mostrava um senador sem conseguir pronunciar direito uma palavra. Curioso como quase ninguém sabe o que a palavra significa mas muitos riram da pronúncia errada. Tentei explicar a esse tal amigo que os responsáveis pelo meme estavam sendo pagos para desprestigiar ações políticas que são importantes. Ele não conseguiu enxergar as intenções, acusou-me de falta de humor. Desde então não nos falamos mais. Minha teoria que memes agem individualmente também para desunir as pessoas.

Confundem e amortecem, abalam o senso crítico e pulverizam certa noção mínima de dignidade, tudo isso com uma perigosa aura do humor.

Ainda que “rir seja o melhor remedio”, isso não vale para todas as situações. Às vezes rir é se envenenar. Antes de olhar e compartilhar memes, sugiro observar a sua volta, informar-se melhor e confrontar seus sentimentos. Replicar porque é engraçado é tudo que o meme quer.

Com um pouco mais de consciência, quem sabe da próxima vez o organismo reconheça o invasor e o elimine no início. Imunidade!

—-

RUSHKOFF, D. Team Human. London: MIT Press, 2017.

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