Afinal, para que servem os professores?

Tempos atrás postei que um dos efeitos da atual crise seria o aparecimento exponencial de bots (softwares que “aprendem” e se “comunicam” imitando pessoas) na área de ensino. Disse que os cursos on-line sem professor, chamados autoinstrucionais, seriam transformados e fortalecidos com o uso de bots imitadores de tutores.

Na semana seguinte ecoou o escândalo de que um grande grupo educacional estava usando bots em seus cursos, em substituição a tutores, sem que tivessem avisado os alunos. Ao mesmo tempo, e não por acaso, muitos professores de cursos EAD estavam sendo demitidos do mesmo grupo educacional. Ver[1].

Uma frase famosíssima sobre o ato de ensinar que já vi sendo usada com sentidos completamente diferentes, é do dramaturgo Bernard Shaw. A famosa:

Quem sabe faz. Quem não sabe, ensina

O que ele quis dizer com isso, exatamente? Seria um ataque ao professor ou uma exaltação do aluno? Ou ambos?

A profissão docente é das mais antigas e importantes, tendo em vista que as demais, em sua maioria, dependem dela. De Platão a Rousseu, do professor Raimundo, do Chico Anysio, a Mario Sergio Cortella, muitos falaram e escreveram sobre a importância do papel do professor na formação do cidadão.

Sabemos que o exercício da profissão docente requer qualificações acadêmicas e pedagógicas, objetivando transmitir e ensinar a matéria em estudo da melhor forma possível ao aluno. Mas isso garante a relevância do professor?

Robôs tomando lugar de professores: onde estão as defesas ?

Fui pego pela ideia/possibilidade de que seria mesmo possível um bom professor ser substituído por um robô. A tentação de dizer “claro que não!” é muito grande e todos diriam mas isso com base em quais argumentos?

Competências do Professor, segundo texto clássico de Perrenoud

O sociólogo suiço francês Philippe Perrenoud é famoso pelo aprofundamento da noção de “competência”. O ensino por competências está ligado a uma formação voltada ao agir. E o “agir” está ligado à perspectiva de que os conteúdos seriam parte dos recursos mobilizáveis na prática, de acordo com necessidades… daí vem a noção de “competência”, segundo o autor. Competência não se ensina, professores podem ajudar a desenvolver, não ensinar… depende do desenvolvimento da capacidade no sujeito de “mobilizar” conscientemente recursos, habilidades e conhecimentos diante de uma necessidade, de situações não previstas ou novas. Perrenoud escreveu o clássico “As 10 competências profissionais para ensinar” (ver [1]) , que poderia também se chamar “As 10 mobilizações de recursos cognitivos necessárias para ensinar”. São as seguintes (ver [2]):

1. Utilizar novas tecnologias : Porque a escola não pode ignorar que as crianças já nascem sob a égide do “clique”, e certamente não aceitarão um modo de aprendizagem ultrapassado, pouco instigante e lento. As novas tecnologias da informação e da comunicação transformam as maneiras de se comunicar, de trabalhar, de decidir e de pensar. O professor precisa lançar mãos das novas tecnologias com objetivos educacionais.

2. Administrar sua própria formação contínua: A escola não é um ambiente estável; o professor precisa estar sempre preparado para lidar e intervir em quaisquer situações que ocorrerem. Se o professor não cuidar do seu próprio crescimento, ninguém o fará. Essa decisão se consolidou na prática, pelos professores que buscaram cursos de extensão, de graduação ou de pós-graduação.

3. Organizar e dirigir situações de aprendizagem: Indubitavelmente, a capacidade de ensinar bem é uma nova competência porque o ofício de professor, conforme se sabe, não tem lugar nos dias de hoje. Inexiste padronização nos educandos: cada aluno vivencia de diferentes formas a aula de que participa. A nova ferramenta à disposição do educador consiste em conceber e criar situações de aprendizagem para envolver, diferenciar e criar situações que se traduzam em objetivos de aprendizagem. O professor deve dominar os saberes a serem ensinados, ser capaz de dar aulas, de administrar uma turma e de avaliar.

4. Administrar a progressão das aprendizagens: Conceber e administrar situações-problema ajustadas ao nível e às possibilidades dos alunos propiciam reflexões, desafios intelectuais e conflitos sociocognitivos. O professor deve dominar a formação do ciclo de aprendizagem, as fases do conhecimento e do desenvolvimento intelectual da criança e do adolescente, além de ser capaz de construir um sentimento de responsabilidade pelo conjunto da formação do ensino fundamental; observar e avaliar os alunos em situações de aprendizagem; fazer balanços periódicos de competências e tomar decisões de progressão; orientar os ciclos de aprendizagem: fazer interagir grupos de alunos com os dispositivos de ensino-aprendizagem.

5. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação: Administrar a heterogeneidade no âmbito de uma turma; abrir, ampliar a gestão de classe para um espaço mais vasto; proporcionar apoio integrado, trabalhar com alunos portadores de grandes dificuldades, sem todavia transformar-se em psicoterapeuta; desenvolver a cooperação entre os alunos e certas formas simples de ensino mútuo, criando uma cultura de cooperação por meio de atitudes e da reflexão sobre a experiência.

6. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho: Suscitar o desejo de aprender, oferecer atividades opcionais de formação, negociar com os alunos regras e outros acertos, por intermédio de um conselho eleito por eles; favorecer seus projetos pessoais.

7. Trabalhar em Equipe: Motivar os alunos para que entendam que ninguém se sente bem “sozinho no comando”. O trabalho em equipe favorece o enfrentamento e a análise em conjunto de situações complexas e a administração de crises e conflitos interpessoais.

8. Informar e envolver os pais: Dirigir reuniões de informação e de debate, fazer entrevistas e envolver os pais na construção dos saberes. A participação é fundamental no processo de aprendizagem.

9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão: Prevenir a violência na escola e fora dela, lutando contra os preconceitos e as discriminações sexuais, étnicas e sociais, participar da criação de regras de vida comum referentes à disciplina na escola, às sanções e à apreciação da conduta; analisar a relação pedagógica, a autoridade e a comunicação em aula, desenvolvendo o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça.

10. Participar da administração da escola: Não só os professores mas também o pessoal administrativo deve participar da gestão da escola, entendendo o projeto da instituição, aprendendo a administrar os recursos existentes não só na escola mas no seu entorno, com moradores, associação de pais de moradores, de forma a organizar e fazer evoluir, no âmbito da escola, a participação dos alunos.

Alguém pode dizer que a lista acima tem o viés de um único pensamento sobre educação. Precisamos de um visão em escala mundial sobre quais seriam as competências do professor, no “mundo real”.

Competências do professor, segundo consenso mundial

Descobri que o INEP fez um levantamento em diferentes países (Austrália, Canadá, Cingapura, Chile, Cuba, Estados Unidos e Inglaterra) para chegar a um conjunto de atributos mínimos necessários à carreira docente. Ver [2]. Eis os 20 atributos.

O professor:

1. Domina os conteúdos curriculares das disciplinas que leciona, o que inclui a compreensão de seus princípios e conceitos.

2. Conhece as características de desenvolvimento dos alunos, suas experiências e contexto em que vivem, e como esses fatores afetam sua aprendizagem.

3. Domina a didática das disciplinas que ensina, incluindo diversas estratégias e atividades de ensino.

4. Domina o currículo ou as diretrizes curriculares das disciplinas que leciona.

5. Organiza os objetivos e conteúdos de maneira coerente com o currículo, os momentos de desenvolvimento dos alunos e seu nível de aprendizagem.

6. Seleciona recursos de aprendizagem de acordo com os objetivos de aprendizagem e as características de seus alunos.

7. Seleciona estratégias de avaliação coerentes com os objetivos de aprendizagem, a disciplina que ensina e o currículo, permitindo com que todos os alunos demonstrem o que aprenderam.

8. Estabelece um clima favorável para a aprendizagem, baseado em relações de respeito, equidade, confiança, cooperação e entusiasmo.

9. Manifesta altas expectativas em relação às possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento de todos os seus alunos.

10. Estabelece e mantém normas de convivência em sala de aula, de modo que os alunos aprendam a ter responsabilidade pela sua aprendizagem e a dos colegas.

11. Demonstra valores, atitudes e comportamentos positivos e promovem o desenvolvimento deles pelos alunos.

12. Comunica-se efetivamente com os pais de alunos , atualizando-os e buscando estimular o seu comprometimento com o processo de ensino aprendizagem dos alunos.

13. Aplica estratégias de ensino desafiantes e coerentes com os objetivos de aprendizagem e com os diferentes níveis de aprendizado dos alunos.

14. Utiliza métodos e procedimentos que promovem o desenvolvimento do pensamento e da busca independente do conhecimento.

15. Otimiza o tempo disponível para o ensino, garantindo o máximo de aprendizagem de cada aluno durante toda a duração da aula.

16. Avalia e monitora o processo de compreensão e apropriação dos conteúdos por parte dos estudantes.

17. Busca aprimorar seu trabalho constantemente a partir de diversas práticas, tais como: a reflexão sistemática de sua atuação, a auto-avaliação em relação ao progresso dos alunos, as descobertas de pesquisas recentes sobre sua área de atuação, e as recomendações de supervisores , tutores e colegas.

18. Trabalha em equipe com os demais profissionais para tomar decisões em relação à construção e/ou implementação do currículo e de outras políticas escolares.

19. Possui informação atualizada sobre as responsabilidades de sua profissão, incluindo aquelas relativas à aprendizagem e ao bem -estar dos alunos.

20. Conhece o sistema educacional e as políticas vigentes.

Não é pouca coisa! Dos 20 atributos, quantos podem ser desempenhados por um robô/computador ? Um, ok, no máximo, dois.

Não discuto que em algumas áreas o papel dos professores seja menos importante hoje em dia ou que sua função esteja mudando. Historicamente, no terreno movediço das profissões, algumas foram desaparecendo (o ascensorista, sapateiro..) enquanto outras profissões foram ou estão desaparecendo agora (tradutores), enquanto outras surgem (lixeiro de dados, por exemplo).

É fato também que em algumas áreas não precisamos de professores, ou precisamos cada vez menos, e é na experiência prática que se comprova isso. Eu diria até que, tristemente.

Na área de tecnologia existem escolas sem professor, os alunos aprendem em vôo solo, tiram dúvidas em softwares tutoriais e uns com os outros. Aprendem linguagens de programação, por exemplo. Ver [3].

Mas aqui o risco que se corre não é o de deixar de aprender programação, é o risco de deixar a tecnologia amestrar as pessoas. Há uma grande perda quando as pessoas não trocam experiências entre si. E aprende-se muito com pessoas mais velhas … será só experiência? Aprende-se sobre pessoas com pessoas…Aprender diz respeito só ao conteúdo? Volte aos 20 itens anteriores, e veja que o conteúdo é só o primeiro item!

Trocar professores por tecnologias digitais de ensino não é educar, é amestrar as pessoas.

Busco justificar com a frase de José Ortega Gasset:

Se ensinares, ensina também a duvidar daquilo que estás a ensinar.

PERGUNTO:

Será que um robô/computador ensinaria um ser humano a duvidar do que ensinou a ele, pessoa ?

[1] <https://apublica.org/2020/05/apos-uso-de-robos-laureate-agora-demite-professores-de-ead/ >

[2] PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar; trad. Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2008.

[3] < http://consultaexamedocente.inep.gov.br/publico/download/Referenciais_para_o_Exame_Nacional_de_Ingresso_na_Carreira_Docente.pdf >

[4] https://itforum365.com.br/42-a-escola-gratuita-sem-professor-que-ensina-programacao-no-brasil/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close