Por que a aula expositiva é ainda dominante na era digital ?

Em lugar de considerar novas formas e tecnologias de ensinar, poderíamos pensar mais nas razões pelas quais os estudantes não aprendem.

O educador John Holt trilhou esse caminho dando três possibilidades em separado para o fracasso da aprendizagem mas que podem estar associadas umas às outras:

(i) O estudante não aprende porque não entende o vocabulário. Pegue um livro da área jurídica e tente entender um capítulo, por exemplo, de Direito Constitucional…difícil evoluir além do primeiro parágrafo.

(ii) O estudante não aprende porque as associações que são feitas são incompreensíveis ou contraditórias. Coloque uma criança em uma escola ultra-católica com aulas de religião que pregue o criacionismo e peça para ela compreender as ideias evolucionistas do processo da seleção natural, de Darwin. Tem um curto-circuito!

(iii) O estudante não entende as relações de causa e efeito que são apresentadas. Se um elo da explicação não ficar claro…quebra a corrente do pensamento.

Aprender exige alguma manipulação mental da informação. Pessoas aprendem por meio da aula expositiva tradicional há séculos e também por meio de modelos ativos de aprendizagem tais como Problem Based Learning (PBL), que, aliás, existe há décadas.

Qual o mais adequado para os dias de hoje? Aulas expositivas ou a família de modelos PBL ?

Aulas expositivas

Sabemos que a aula expositiva tem relação óbvia com transmissão de informações. Aulas expositivas podem ser excelentes para uma serie de situações: fornecer um material sintetizado; um resumo destacando conceitos-chave e pontos principais; modelagem de um certo tipo de pensamento para um grupo específico, etc. Atualmente muitas pessoas aprendem um bocado na Internet por meio de aulas expositivas gravadas e com vídeos que duram algo como 6 ou 8 minutos ou ainda em uma palestra TED que dificilmente passa de 20 minutos. Sem debate, sem troca, sem mediação e funciona muito bem!

Mas o outro lado das aulas expositivas é que elas não fomentam ideias novas e são ineficazes para mudar atitudes, valores ou desenvolver competências comportamentais nas pessoas. Quando se pensa no desenvolvimento de crianças e adolescentes, fica-se só no conteúdo. Não acha que a formação de pessoas deva ir além dos conteúdos?

Além disso, por meio de aulas expositivas é muito mais difícil atender uma série de demandas da formação na era digital, aquelas voltadas a buscar, analisar, avaliar e aplicar informação.

Se é verdade que o aluno aprende mais ao manipular mentalmente a informação que recebe, em uma aula expositiva isso aconteceria, por exemplo, por meio de debates.

Mas há pouco espaço de debate por conta do tempo limitado para tratar um grande volume de conteúdos que o professor deve atravessar. O famoso pensamento crítico e compreensão profunda tão esperados não cabem bem em aulas expositivas mesmo com toda parafernália tecnológica que possa estar disponível.

Problem Based Learning (PBL)

PBL aparece então como a grande solução. A novidade nasceu há mais de 50 anos atrás em uma faculdade de medicina do Canadá: em lugar do professor ensinar, o aluno aplica e aprende coisas novas para resolver um problema desafiador e atua em grupo. No caminho desenvolve uma serie de habilidades, atitudes e competências importantes.

O PBL (e outras designações e siglas parecidas tais como TBL, Aprendizado pro Projetos, por Investigação, etc… no mesmo espírito do PBL) atrai muito os educadores pelos seguintes motivos: o currículo está sobrecarregado em todas as áreas; há necessidade de se conectar teoria e prática como nunca antes se viu na história da humanidade; pensamento criativo e crítico tornaram-se fundamentais; necessidade de criar links entre conhecimentos atuais e novos; necessidade de valorização do esforço auto-dirigido e auto-motivado; o favorecimento da interdisciplinaridade em sintonia com problemas reais, etc, etc.

Um ponto importante do PBL nem sempre citado é a possibilidade de melhorar a atitude do aluno em relação à própria aprendizagem.

Como viabilizar o PBL ?

O modelo parte de uma questão-guia que não pode ser nem muito simples nem muito complicada. A grande-tarefa deve ser compatível com a idade e nível da turma, estar na zona do “fluir” que equilibra as habilidades necessárias com o desafio proposto.

Uma vez que o problema deva ser significativo para os estudantes, eles poderiam (ou deveriam) participar da construção do projeto desde sua proposta inicial e não só seguir passos dados pelo professor. Prevê-se momentos de metacognição em que os alunos podem parar e refletir sobre como estão indo e em que podem pensar na troca de papeis nas esquipes, em outras ferramentas, etc. Os criterios de avaliação devem ser muito claros desde o início (tarefa árdua!), havendo necessidade de feedback contínuo por parte do professor.

Dificuldades do PBL e porque a aula expositiva é ainda dominante na era digital

Como o problema deve ser escolhido e desenvolvido em conjunto com a turma, o modelo PBL exige grande capacidade do professor em se aproximar, comunicar-se e ganhar a confiança da turma. Na prática, a maior parte dos professores atua em muitas escolas e cria pouco vínculo com cada comunidade em que atua.

Outra dificuldade é que o volume imenso de conteúdos a serem trabalhados no currículo estão mais garantidos nas aulas expositivas habituais do que no PBL uma vez que o modelo da aula expositiva é mais rápido e condensado. Em PBL não se sabe muito bem até onde se pode chegar.

O fato do PBL favorecer pensamentos criativo em que as respostas não são simples e nem rotuláveis como “certas” ou “erradas”, gera uma grande dificuldade para o método de avaliação por parte do professor. E mesmo que a avaliação amenize a importância do conteúdo por si mesmo…como o professor conseguirá avaliar a competência dos estudantes em resolver problemas?

O que é perturbador de se considerar também é que na era digital a informação acessível é a mesma para todo mundo…como ainda insistimos na transmissão de informações que todos podem acessar?

E aqui razão mais forte de todas: a concepção de conhecimento que predomina entre os professores. Admitindo ou não, conscientes ou não, prevalece a ideia de que informação é conhecimento. Toca informação goela abaixo!

Nada disso atende as “demandas da era digital” (pensamento crítico, criativo, prático, compreensão profunda…) e a escola vai assim se distanciando cada vez mais da realidade.

Como mudar isso com realismo? É a pergunta de um milhão de dólares !

Combinando aulas expositivas com PBL, talvez. Tema para outro momento.

[1] HOLT, H. Aprendendo o tempo todo. Campinas: Verus, 2006.

[2] BATES, T. Educar na era digital. São Paulo: Artesanato educacional, 2017.

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